O desencanto do usineiro com a agricultura vai além da tiririca...

Publicado em 28/05/2012 10:42 e atualizado em 28/05/2012 11:19 488 exibições
Do blog de Rui Daher.
Rubens Ometto, o maior usineiro do mundo, dono da Cosan, revelou à revista “Exame” (16/05/12) a disposição de direcionar seus investimentos para fora do setor sucroalcooleiro.  
Houve presidente que o chamou de herói quando, em 2008, pagou 1,5 bilhão de reais pela rede de postos Esso. Aquisição desse porte, junto à norte-americana Exxon Mobil, simbolizava o país na ponta compradora da globalização. Galvão Bueno poderia ter narrado.  

Não parou aí o empresário piracicabano. Em 2010, uniu-se à Shell para criar a Raízen, usinas, terminais e postos de distribuição de combustíveis. Faturamento de R$ 25 bilhões anuais. Recentemente, comprou 60% da distribuidora paulista Comgás à inglesa BG e acaba de ofertar R$ 900 milhões por 49,1% da operadora logística ALL.

Muitos viram em suas declarações um abandono da atividade agrícola. Afinal, ele mesmo diz: “Não faz sentido ter um negócio com anos de altos lucros e outros com prejuízos que podem afetar sua saúde financeira. A indústria da cana é assim”.  

Há passagens dúbias, como as que afirmam não ver razão para sair do setor de cana, a Raízen continuar investindo em etanol e a pretensão de comprar novas usinas quando o setor estiver pior, pensamento que pode definir toda uma estratégia.  

Lembrado de que assinou acordo com a Shell para em 2025 vender sua participação na Raízen, diz que não costuma rasgar contratos. Algo sobre o que Abílio Diniz, do Pão de Açúcar, não teria muito a comentar.  

Alguém que nasceu e cresceu no setor agrícola afirmar ser difícil conviver com uma atividade que gera lucros e prejuízos em ciclos alternados e ao sabor do mercado, parece chover no molhado. Esse não é um atributo exclusivo da cana. Batata, laranja, soja, café, vivem essa gangorra. E mais: o dono da Cosan soube muito bem domar essas oscilações e construiu um império (segundo a revista, é o 19º brasileiro mais rico) capaz de permitir que hoje ele invista no que bem entender.  
Há em toda matéria, no entanto, a intenção de passar dois recados e para isso serve o microfone da mídia.  

O primeiro, e mais importante, é para a Petrobras. O empresário joga nas costas do fato de a estatal subsidiar a gasolina a inviabilização do setor canavieiro e da produção de etanol.  
O segundo, que corre à boca miúda nos campos de Terra Brasilis, é o de assim fazer caírem os altos preços de terras agricultáveis, o que é justificado pela velocidade com que a Radar, braço imobiliário de Ometto, compra terras nos estados de São Paulo, Mato Grosso, Bahia e Maranhão (100 mil hectares).  

Trucar para comprar bem faz parte do jogo comercial. Esquecer-se de que a parada dos investimentos brasileiros em usinas de álcool, a partir de 2007, se deu pelos temores da crise internacional e que o período de maior alta nos preços de etanol ocorreu pelo redirecionamento da produção para o açúcar, então com maior rentabilidade, é bem diferente.  

O muxoxo de Ometto para com a agricultura me faz ver a presidente da Petrobras, Graça Foster, em sua sala no Rio de Janeiro, respondendo ao empresário apenas com uma compreensiva piscadela.  
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Terra Magazine

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