Geração Facebook diz “não” à Força Sindical, à CUT e aos partidos políticos, e Dia Nacional de Lutas vira um grande mico. Falha
Geração Facebook diz “não” à Força Sindical, à CUT e aos partidos políticos, e Dia Nacional de Lutas vira um grande mico. Falha tentativa dos “aparelhos” de ganhar as ruas
Micou de maneira retumbante o tal Dia Nacional de Lutas. A CUT, a Força Sindical, outras centrais e os partidos políticos de esquerda foram malsucedidos na tentativa de pegar carona da onda de protestos que sacudiu o país. Houve, sim, muita atrapalhação nas estradas, ocupação em porto, escaramuças, dificuldades aqui e ali, mas nada nem remotamente parecido com os protestos havidos no mês passado. ATENÇÃO, LEITOR! Se eu fosse um desses “cientistas sociais” que têm medo dos seus alunos e gostam de posar de moderninhos – aquela gente, sabe?, que agora deu para falar em “crise da democracia representativa” –, estaria achando lindo o que aconteceu. Mas eu não acho, não. Na verdade, o evento desta quinta jogou ainda mais luzes sobre os havidos no mês passado e só reforçaram alguns temores que eu tinha. O que significa o micão desta quinta, em contraste com aquele milhão e meio de dias atrás? Significa que reivindicar o inexequível é bem mais gostoso, o que nos remete a um dos lemas de Maio de 1968, na França: “Seja realista, peça o impossível”. O evento também expõe uma das forças e, ao mesmo tempo, das maiores fragilidades da “onda de protestos” no Brasil: a composição social de quem vai ou foi às ruas. O primeiro passo para responder de forma eficiente à realidade e admiti-la: os pobres, com raras exceções, preferiram, até agora, ficar em casa.
Assim, entendam direito o meu ponto: não lamento o fato de o protesto desta quinta ter sido malsucedido porque gostaria de ver a CUT, a Força e até os petistas a liderar a massa… Eu não! Deus me livre! Lastimo é que a pobreza de liderança política no Brasil se reflita também nos sindicatos e que estejamos sem o fio que possa desatar o nó. Vamos lá. Milhões de trabalhadores poderiam ter ocupado as praças para cobrar redução na jornada de trabalho, certo? É uma reivindicação muito mais, como direi?, palpável do que os tais 20 centavos. Mas aí alguém se lembrou de gritar: “Não é pelos 20 centavos”. E estava dada a deixa para uma mobilização que tem, sim, âncoras no mundo real – corrupção dos políticos, ineficiência do serviço público, gastança de dinheiro –, mas que se expressa numa espécie de bolha de sensações e de emoções. Para voltar a Maio de 1968, o que conta é fazer as barricadas do desejo. A utopia é a da ausência de estado, assuma isso a forma violenta (os baderneiros) ou pacífica (uma coisa, assim, “faça amor, não faça a guerra”).
Cobrar redução da jornada e fim do fator previdenciário, olhem que coisa!, parece apequenar o movimento e a razão por que se vai às ruas; é, como diriam os adolescentes hoje em dia (de maneira irritante), “tipo assim” coisa de pobre, de um pragmatismo incompatível com o sonho e com as evocações românticas. Os “sonháticos” querem um outro mundo possível… Não! Na verdade, pretendem um outro mundo… impossível. Nele, não só os políticos não roubam como, a rigor, não há políticos nem política.
É claro que eu poderia lembrar àqueles valentes cientistas sociais que têm medo de contrariar os alunos que também as manifestações de junho levaram às ruas as… minorias!, ainda que tenham mobilizado, sei lá, 20 ou 30 vezes mais gente do que a desta quinta-feira. Huuummm… Então vamos ver: líderes que efetivamente representam grupos e com os quais se podem fazer acordos mobilizam meia dúzia de gatos-pingados; não líderes – e que, portanto, não lideram, mas alçados pela imprensa à condição de estrelas da não representação – conseguem criar eventos que reúnem alguns milhares. Muito bem! O que se vai negociar com eles? Chamem a Mayara Vivian e os coxinhas radicais do Passe Livre…
Há quem se deixe cair de encantos por um paradoxo cuja graça, havendo alguma, é não mais do que literária – e literatura meio velha, da década de 60: a “juventude” (ah, os tarados pela juventude…) que está nas ruas tem força, mas não sabe o que quer, e os que sabem o que querem já não têm força. Mas onde está a virtude desse troço? Se isso produzir algo, tenho minhas dúvidas, será, no máximo, um impasse. Para o qual ninguém tem resposta.
Dilma está encalacrada? Está, sim, de dois modos distintos: há o impasse de fundo, que diz respeito ao esgotamento do modelo lulo-petista, do qual, vamos ser francos, até havia pouco, a esmagadora maioria da imprensa não havia se dado conta. Ou havia? Leiam os jornais de há dois ou três meses. Com ou sem “povo” na rua, o país ia mal das pernas. E agora ela enfrenta o descontentamento com “tudo isso que está aí”. Ocorre que esse “tudo isso” pode se voltar contra qualquer um; ele é dirigido, na verdade, contra o governante de turno. E não consegue se transformar numa agenda.
Essa conversa mole da “sociedade horizontal”, sem hierarquia de valores, sem eixo e sem centro, sinto muito, é conversa de bêbados. É divertido e coisa e tal, mas sempre chega a hora de pagar a conta e de voltar para casa – sem contar a ressaca… Não vai a lugar nenhum e ainda pode produzir alguns desastres. Boa parte do que o Congresso votou até agora, emparedado pelas ruas, se querem saber, não é coisa boa e tende a ter efeitos deletérios. Na esfera econômica, o país vive um congelamento branco de tarifas públicas que pode ter efeitos desastrosos. Ensaia-se facilitação de mecanismos de democracia direta que, se efetivados, tornarão a democracia brasileira refém de minorias organizadas e barulhentas.
Caminhando para a conclusão
Sim, as centrais sindicais e os partidos quebraram a cara ao tentar, de maneira oportunista, pegar carona no movimento das ruas. Tiveram uma lição e tanto. Mas isso só nos diz o tamanho do impasse e os riscos que estão por aí. Não há nada de belo ou de bom numa sociedade sem interlocutores considerados confiáveis para articular o futuro. Vivemos, nesses dias, sob uma espécie de ditadura do presente.
Pode dar em quê? No quadro atual, há, sim, o risco de eleger em 2014 alguém que fale em nome da “não política”, e aí saberemos o que é crise! Mas o mais provável é que se tenha mesmo uma saída “conservadora” – no caso, conservadora do statu quo; vale dizer: a continuidade do petismo. E isso seria igualmente desastroso.
Por Reinaldo Azevedo
No dia das manifestações organizadas por quem se apresenta como representante do povo, povo foi o que menos se viu
BRANCA NUNES
Em vez dos cartazes de cartolina com dizeres manuscritos – NÃO SÃO SÓ 20 CENTAVOS, QUEREMOS HOSPITAIS PADRÃO FIFA, TOLERÂNCIA ZERO PARA A CORRUPÇÃO e várias reivindicações bem humoradas –, banners, a grande maioria vermelhos, com slogans como “O petróleo é nosso”, “Não à terceirização”, e “Pela taxação das grandes fortunas”. Em vez das bandeiras do Brasil e das caras pintadas de verde e amarelo, estandartes da CUT, da Força Sindical, do Sindicato dos Comerciários, do PSOL, da UNE, do PSTU, do MST e de dezenas de partidos e movimentos sociais. Em vez de palavras de ordem cantadas em coro, berros individuais vindos do carro de som.
Nesta quinta-feira, todas as bandeiras que haviam desaparecido – ou sido expulsas – das ruas nas manifestações que tomaram conta do país desde 6 de junho reapareceram na Avenida Paulista atendendo à convocação das centrais sindicais engajadas no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações. Em compensação, a população apartidária sumiu – e o 11 de julho foi marcado por mais do mesmo: os mesmos discursos inflamados contra o capitalismo, a direita golpista, a Rede Globo e outros inimigos de sempre.
Ao contrário do que se via nas manifestações anteriores a pretendida greve geral desta quinta-feira teve mais bandeiras de centrais sindicais e partidos do que manifestantes. Os discursos no carro de som não provocavam nem aplausos nem vaias. E gritos de guerra como “eu, sou brasileiro, com muito orgulho”, que os dirigentes tentaram puxar mais de uma vez, morriam antes da segunda frase – nada a ver com os hinos entoados durante os protestos do Movimento Passe Livre, que contagiavam multidões.
O acordo intersindical que excluiu o “Fora Dilma” da pauta de reivindicações parece ter dado certo. Ainda assim, as bandeiras do PT eram as mais envergonhadas – e tanto Dilma quanto Lula não escaparam de críticas no asfalto e no palanque. Enquanto Ana Luiza, que disputou a prefeitura de São Paulo pelo PSTU clamava “contra a política econômica do governo Dilma, contra Alckmin e contra Haddad”, um representante do recém nascido Partido Pátria Livre (PPL) fez questão de “saudar o PT e saudar o Lula” nos três minutos a que teve direito no serviço de som. Algumas faixas chamavam José Eduardo Cardozo de Ministro da Injustiça e exigiam o mesmo reajuste salarial concedido aos ministros.
Se o objetivo das centrais era pegar carona na revolta da rua, elas podem considerar-se derrotadas. O contraste entre as duas manifestações foi tão gritante que apenas escancarou o abismo entre o que quer a população e o que lhes oferece quem está no poder (seja nos governos, nos partidos ou nos sindicatos), entre uma forma nova de expressar-se e outra completamente ultrapassada, entre o autêntico e o artificial. Embora se apresentem como representantes do povo, povo era o que menos se via entre as pouco mais de cinco mil pessoas que ocuparam duas quadras da avenida mais emblemática de São Paulo.
(por Augusto Nunes)
Um país em transe e sem agenda. E se um ET pedisse “levem-me a seu líder”?
Li em um dos noticiários eletrônicos que as manifestações e protestos desta quinta foram marcados por “lideranças tradicionais”, que estariam tentando se aproveitar da “energia” (?) das ruas. Parece que essa expressão compreende os líderes da Força Sindical, da CUT, do MST e de outros movimentos sociais. A estes se oporiam, então, entendo, as “lideranças não tradicionais”. Não sei direito o que isso quer dizer. Acho que designa os indignados que falam contra os partidos, contra a política, contra os políticos. Devem ser os “líderes” do Twitter e do Facebook, os representantes de si mesmos, que estariam a evidenciar a crise de representatividade ou, sei lá, a falência dos regimes democráticos tradicionais. ATENÇÃO! VAGABUNDOS INTELECTUAIS QUE FALAM NA CRISE DA DEMOCRACIA TRADICIONAL ESTÃO É INVESTINDO NUMA DITADURA CRIATIVA…
Leiam o noticiário do dia e tentem achar um eixo para as manifestações. Não há. Os sindicalistas dizem querer a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas e o fim do fator previdenciário. Os sem-terra vão reclamar da suposta lentidão nos assentamentos; esse e aquele grupos pedirão que saúde e educação tenham garantidos, respectivamente, 10% do Orçamento da União; outros cobrarão a estatização das empresas de transportes públicos; há quem peça a “desmilitarização da PM”; também existem os que não abrem mão da saída de Renan Calheiros; o povo de não sei onde quer o fim de uma praça de pedágio; os médicos rejeitam – por bons motivos, claro! –, o plano do governo para a área; os pelegos da UNE estão protestando a favor de não sei quê (contra o governo é que não é, certo?)… Bem, meus caros, cada um pegue a sua bandeira ou cartolina, vá para a praça e decida cassar de terceiros o direito de ir e vir. Nos dias em que um lema imbecil e autoritário como “Não me representa” é visto como verdadeira poesia da cidadania, vale, então, o “eu me represento”. Logo, imporei a terceiros a minha vontade e a minha pauta. Quem não gostar que faça o mesmo. O espaço público deixa de ser de todo mundo para ser terra de ninguém.
Ah, é claro que acho divertido ver o petismo passando calor. Há 11 anos combato algumas de suas farsas; há muito mais tempo critico seus viés autoritário e sua concepção totalitária de estado. Mas não me peçam, no entanto, para vibrar com esse “Je ne sais quoi” que tem levado as pessoas às ruas e tem imposto ao Congresso o regime da vaca louca. Não vou. Uma coisa é o PT se defrontar com suas próprias incompetências e ser confrontado com um discurso racionalmente organizado, que aponte uma saída, uma alternativa; outra, muito diferente, é o partido, ou seu núcleo duro, perder influência para a anarquia, de sorte a forçar uma torção à esquerda, como está acontecendo, do processo político.
Esse era, desde o início, o meu receio. E, por ora ao menos, a pior perspectiva que eu enxergava está em curso. Peço que vocês tomem especial cuidado com o discurso de alguns bobocas contra a política. Lembram-se do movimento “Cansei”? Tinha um alvo, sim: significava “cansei do PT”. Ele surgiu não muito tempo depois do mensalão. Foi impiedosamente ridicularizado até por humoristas da TV, que hoje estão a conclamar que o povo saia às ruas, aplaudindo, inclusive, a hostilidade aos políticos.
Isso é má consciência. É preciso que se perceba e se rejeite uma operação intelectual sutil e perigosa que está em curso: “Apostamos que o PT faria tudo diferente. Nós nos decepcionamos. Se é assim, então não queremos mais saber dos políticos”. Como assim? Quer dizer que o petismo era a fronteira possível da política? Quem não quer saber dos políticos quer, então, saber de quem ou do quê?
Eis a hora em que lideranças realmente fazem falta. A presidente Dilma, como se percebe, está perdida – é vaiada até quando anuncia que vai liberar dinheiro para as prefeituras. Quem hoje fala em seu nome é Aloizio Mercadante, cuja arrogância era detestada por seus pares quando estava no Senado… Imaginem, então, falando como o homem forte do Executivo. A oposição, convenham, tenta engrossar a voz das ruas. Ocorre que não temos um coro, mas uma algaravia. O que aconteceria se um ET baixasse no Brasil e pedisse “Levem-me a seu líder”?
“Ah, Reinaldo, veja lá. O senado aprovou em segunda votação uma PEC que permite que projetos de lei de iniciativa popular possam ser apresentados com a assinatura de apenas 0,5% do eleitorado (700 mil assinaturas). O texto também prevê que se apresentem emendas à Constituição, o que hoje não é permitido; nesse caso, será necessário ter a assinatura de 1% (1,4 milhão). E essas assinaturas podem ser colhidas eletronicamente, por intermédio da Internet.”
É? E por que eu deveria ficar contente com isso? Satisfeito eu ficaria se o país adotasse, por exemplo, o voto distrital, de sorte que a população tivesse, aí sim, maior proximidade com seus representantes. Submeter permanentemente a Constituição a minorias organizadas e barulhentas – e nunca à maioria, que é sempre desorganizada e silenciosa – não me parece, lamento, uma boa escolha. A primeira vítima de uma democracia que vivesse sob a tutela de grupelhos organizados seria a segurança jurídica. Onde ela não existe, os investimentos despencam, a confiança vai para o brejo, e se entra na espiral negativa.
“Ah, esse é o discurso apocalíptico dos reacionários, dos que não querem mudar nada…” Besteira! É o discurso dos que acreditam que a mudança só é duradoura quando se investe também na estabilidade. Querem um exemplo do que não fazer? Se você, leitor, fosse um investidor, escolheria hoje a área de transporte público, por exemplo? Por quê? A rigor, todos os setores com tarifas controladas passaram a ser potencialmente perigosos.
Finalmente…
Sim, eu também estou entre aqueles que estranham o silêncio de Lula. Ninguém ignora que duas são as especulações principais: a) a de que estaria doente, evitando, então a exposição pública; b) a de que estaria torcendo para o circo pegar fogo, estimulando no PT o movimento “queremista”, que já está em curso.
Não faço votos no mal de ninguém – nem de Lula. Espero que esteja saudável. Estranho também, reitero, o seu silêncio, mas não vejo por que se deva cobrar que fale alguma coisa, como se guardasse alguma verdade oracular. A democracia lhe garante o direito de falar o que lhe der na telha, mas prefiro a poesia do seu silêncio.
Encerro lembrando que é pura cascata esse negócio de que é próprio das democracias a permanente mobilização da sociedade e coisa e tal. Não! Próprio das democracias é a clareza das regras, democraticamente instituídas, que funcionem e permitam às pessoas cuidar de suas próprias vidas e planejar o seu futuro. Se a gente não consegue ir ao barbeiro ou supermercado porque as vias estão obstruídas, alguma forma de ditadura está em curso…
Ainda voltarei a essas coisas todas. Agora vou ver uma igreja do século 14. Ontem, uma das filhas me perguntou ao passar em frente ao monumento: “Será que dura mais sete séculos, pai?”. Não sei.
Por Reinaldo Azevedo
A reação às manifestações de rua escancara o abismo existente entre um estadista francês, uma comandante sem rumo e um Lincoln que tem medo de crise
ATUALIZADO ÀS 9:40

Durante a crise de maio de 1968, Charles de Gaulle mostrou que o presidente da República, aos 78 anos, continuava tão lúcido, destemido e coerente quanto o general que comandara a luta pela libertação da França na Segunda Guerra Mundial. Confrontado com o que começou como rebelião estudantil e se transformou em insurreição de dimensões nacionais depois da adesão dos sindicatos, entendeu a mensagem remetida das barricadas em Paris. Se os jovens combatentes exigiam mudanças radicais no país e num regime político moldados por De Gaulle, estava claro que o inimigo principal e imediato era ele.
O chefe de Estado poderia ter tentado vencer os rebeldes pelo cansaço. Também poderia ter dividido responsabilidades com o primeiro-ministro George Pompidou, chefe de governo. Em vez disso, preferiu apanhar sozinho a luta atirada pelos líderes do movimento e amparar-se na arrogância formidável. “A França sou eu, a República sou eu”, reiterou em 30 de maio, quando anunciou a dissolução da Assembleia Nacional e a convocação de eleições gerais. No dia seguinte, cantando a Marselhesa, 1 milhão de partidários do presidente se juntaram à passeata que parou Paris, liderada pelo escritor André Malraux, herói da resistência à ocupação nazista e ministro da Cultura.
Vitorioso na eleição de 23 de junho, De Gaulle encerrou democraticamente a rebelião de 1968. Mais uma vez, mostrou que, sobretudo quando o horizonte está nublado, estadistas devem pensar nos interesses do país e nas próximas gerações. Passados 45 anos, os pais-da-pátria que infestam a República brasileira confirmam a lição fazendo o contrário do que fez Charles de Gaulle. Governantes de quinta categoria só conseguem pensar nos próprios interesses e na próxima eleição, reitera a reação dos sacerdotes do lulopetismo à onda de manifestações de protesto que começaram em 6 de junho.
A revolta da rua escancarou o abismo que separa o Brasil Maravilha inventado por Lula e aperfeiçoado por Dilma do Brasil real onde vive a gente comum. Lá, tudo anda tão bem que, se melhorar, estraga. Aqui, o que se vê é a corrupção impune, a Copa da Ladroagem, a educação e a saúde em frangalhos, a litania das promessas jamais cumpridas, o cinismo exasperante dos políticos ─ a procissão de afrontas parece fila em posto de saúde. O país que presta perdeu a paciência de vez. Cansou-se de ser tratado como um viveiro de imbecis resignados. E reduziu a farrapos a fantasia tecida desde janeiro de 2003.
Tanto o ex-presidente que não desencarna quanto a sucessora que nunca exerceu de fato a chefia do governo já entenderam que estão muito mal no retrato redesenhado pelas multidões inconformadas com a duração da farsa. Em queda livre nas pesquisas de popularidade, Dilma foi vaiada na abertura da Copa das Confederações e não apareceu na final no Maracanã para escapar da reprise constrangedora. No encontro de prefeitos em Brasília, a plateia vaiou a convidada ausente na sessão de abertura e vaiou a governante que resolveu dar as caras no dia seguinte. Lula emudeceu e saiu de circulação no primeiro minuto da primeira passeata. Só recuperou a voz para contar lorotas na África. Ambos sabem que estão na origem das manifestações. Mas fingem que não.
As imagens da revolta em curso neste inverno brasileiro são mais perturbadoras, muito mais agressivas e menos românticas que as produzidas na primavera europeia de 1968. Tal constatação ganha contornos sombrios quando se compara os atores em cena. A França tinha De Gaulle na presidência e George Pompidou na chefia de um governo que incluía homens como Malraux. O Brasil tem no Palácio da Alvorada uma inquilina sem juízo e sem rumo. E o Planalto continua assombrado por um Lincoln de galinheiro que vive de bravatas e morre de medo na hora do perigo. Nesta terça-feira, Lula e Dilma se encontraram secretamente em Brasília “para trocar ideias”. Como se tivessem alguma para trocar. Ele tem soluções para tudo, menos para problemas que o afetam. Ela não consegue formular sequer uma frase com começo, meio e fim.
Também parecem ter sumido da paisagem a tribo dos políticos que, armados apenas de sensatez, ajudaram a debelar tantos incêndios semelhantes. Em contrapartida, nunca se viu tamanho ajuntamento de ineptos, vigaristas e farsantes fantasiados de conselheiros do reino. Sozinha, Dilma já admitiu que é capaz de fazer o diabo. Com Lula soprando ordens e mercadantes sussurrando palpites, tem provado que é uma incapaz capaz de tudo, menos de fazer o precisa ser feito. Multidões exigem em coro, por exemplo, o fim das bandalheiras. Dilma oferece uma Constituinte natimorta e um plebiscito de múltipla escolha, com questões aparentemente extraídas de uma assembleia no hospício.
A redescoberta da rua avisa que milhões de brasileiros enfim passaram a enxergar as coisas como as coisas são. O palavrório triunfalista virou coisa de senador do Império. A Praça dos Três Poderes ficou mais antiga que as pirâmides do Egito. O monarca e a rainha estão nus no trono em ruínas. A farsa acabou, mas os canastrões seguem recitando o script que pareceu funcionar direito até maio. Aliviados com a pausa enganosa, a turma acampada no coração do poder está cochilando. Como nenhum dos motivos da revolta foi removido, pode ter o sono interrompido pelo primeiro estrondo de agosto.
(por Augusto Nunes)
Fim do mal chamado “foro privilegiado” é só o moralismo dando um tiro no pé da moralidade
Eu cá das minhas férias muito peculiares, trabalhando um tantinho, lembro aos leitores que o fim do foro por prerrogativa de função — que chamam por aí de “foro privilegiado” — tem tudo para ser um notável tiro no pé que o moralismo dá na moralidade. É nisso que dá se dedicar mais ao grito do que ao pensamento. Talvez seja preciso escrever menos cartolinas e prestar um pouco mais de atenção à história.
Parte dos processos do mensalão foi para a primeira instância da Justiça. Deu em quê? Sem contar que é evidente que se aumenta enormemente a chance de recursos. Não por acaso, hoje em dia, os próprios políticos são os mais interessados nessa mudança.
Cadê a memória, gente boa? A primeira chicana do julgamento do mensalão foi justamente o pedido encabeçado por Márcio Thomaz Bastos para que os não políticos e os políticos sem mandato — como José Dirceu, por exemplo — fossem julgados na primeira instância. Vocês já se esqueceram daquele voto “de improviso” de Ricardo Lewandowski que tinha 70 páginas???
Os mensaleiros só estão hoje mais perto da efetiva punição — vamos ver que destino se dará aos embargos — porque o processo foi julgado no Supremo. Dadas todas as instâncias para recursos, o melhor caminho para a impunidade é mesmo a mudança da Constituição nesse particular. É uma tolice considerar que, assim, se estaria fazendo mais justiça. A chance enorme é que se faça menos.
De resto, como desconsiderar o risco da proximidade de lideranças políticas regionais com tribunais locais? Respondam depressa: vocês acham que, em regra, um prefeito e um governador preferem ser julgados na primeira instância ou no STJ? Vocês acham que Dirceu, João Paulo Cunha e José Genoino, se tivessem podido escolher, teriam optado pelo Supremo?
Com a devida vênia aos que acham que assim se estabelece a igualdade, sou obrigado a deixar registrado aqui que considero isso uma bobagem. Como tolo foi o voto da CCJ do Senado em favor do fim de qualquer voto secreto. É tudo o que pretende o Executivo. Se essa tontice avançar, nunca mais se derrubará um veto presidencial ou se votará contra uma indicação oficial para qualquer cargo.
Nessa leva de bobagens, a Câmara aprovou também por esmagadora maioria a chamada “independência” da Defensoria Pública na esfera federal. Daqui a pouco, cada órgão do estado terá a ambição de ser um Poder da República. Até parece que a autonomia administrativa — e orçamentária — tornará mais livre um defensor. Expliquem-me como. O deputado Mendonça Filho (DEM-PE) foi dos poucos — apenas 3 — que tiveram a coragem de votar contra; houve nada menos de 408 votos a favor e uma abstenção. E ainda foi hostilizado por isso. Sei que lá vem pauleira, mas não seria eu se não o dissesse: essas autonomias só servem para criar caixas-pretas e alimentar, ao longo do tempo, privilégios. Ocorre que agora se está fazendo tudo na base do frenesi. “É a voz das ruas”, dizem, “é a voz das ruas.”
Pois é… Se eu acho que as ruas querem coisas que não são boas, só me resta dizer. O fim do foro por prerrogativa de função — que não é privilegiado coisa nenhuma! — vai tornar a punição de corruptos ainda mais distante. E, sim, é preciso dizer: também acaba abrindo janelas para outras práticas nefastas, como a perseguição política e, lamento!, a venda de sentenças. “Por que, Reinaldo, juízes de primeira instância são mais corruptos?” Não! Ocorre que eles são muitos. E também deve haver os que não prestam, não é mesmo?, a exemplo do que ocorre entre jornalistas, caminhoneiros, padres, pastores, deuses da Grécia antiga…
Um dia um jornalista investigativo — não é o meu caso; só investigo advérbios — vai se debruçar sobre o comércio paralelo que se criou no país depois da Lei da Ficha Limpa. Subiu enormemente o preço das absolvições…
É preciso tomar cuidado para não dar uma de Savonarola dos trópicos. O fim do que chamam “foro privilegiado” é hoje um privilégio há muito esperado por alguns espertos. Basta somar dois mais dois e se vai chegar imediatamente a quatro. A voz rouca das ruas não deveria ser surda à razão.
Por Reinaldo Azevedo
Os médicos e os brasileiros – O viés autoritário e a mão de obra escrava dos cubanos
O governo Dilma leva a sério essa conversa de convicções. Tanto é assim que tem um monte delas. Até ontem, considerava vital contratar médicos cubanos; agora, felizmente, mudou de ideia. Ainda bem, não é? Estava prestes a importar um tipo de trabalho que a Organização Internacional do Trabalho considera mão de obra escrava. Já volto ao tema. Continua o esforço para trazer ao país médicos da Espanha e de Portugal, que não terão de revalidar seu diploma por aqui. Profissionais de qualquer país poderão ocupar vagas no SUS que não forem ocupadas por brasileiros. Há algumas precondições: domínio da língua portuguesa, ter feito um curso com carga horária equivalente à que aqui se pratica e serem oriundos de países com uma taxa de médicos por 1000 habitantes superior à nossa. Também volto a esse particular. Quero me ater primeiro ao programa que obriga todo estudante de medicina a prestar dois anos de serviço para o SUS.
Os autoritários, que sempre pretextam um amor imenso pela humanidade (não era diferente com Stálin, Mao Tsé-tung, Pol Pot…), vão achar tudo muito lindo! Afinal, a moçada do jaleco tem de fazer o juramento de Hipócrates, não é? Se é assim, todo médico tem de ir aonde o doente está, certo? Sim e não! Ou todo engenheiro tem de ir aonde a ponte não está; ou todo professor, aonde o conhecimento não está; ou todo dentista, aonde as cáries ou os banguelas estão… Vamos com calma aí! Esse troço tem o viés autoritário típico de Aloizio Mercadante. Ele já decidiu também estatizar os estudantes de direito. O primeiro ministro do coração de Dilma Rousseff quer obrigá-los a todos a fazer estágio em órgão público.
Vamos ver: eu defendo que formandos de universidade pública, do ProUni e do crédito estudantil subsidiado prestem serviço civil obrigatório, sim, senhores! Se o estado — na verdade, o conjunto dos brasileiros — financiou o curso, nada mais justo do que haver uma compensação. Seria preciso estudar a forma de fazê-lo. Por que só para os médicos? Os pobres precisam de dentistas, de engenheiros, de enfermeiros, de nutricionistas, de professores… Nada mais justo do que buscar essa mão de obra entre aqueles que foram especialmente beneficiados pelo estado — com a gratuidade total ou parcial (na forma de subsídio) de seus respectivos cursos. Aliás, o tempo de serviço civil obrigatório deveria variar de acordo com a modalidade de financiamento.
Mas é um abuso óbvio “estatizar” a mão de obra de quem estudou por sua conta, sem recorrer a nenhuma forma de auxílio do estado. Por que um estudante de uma escola privada, que resolveu financiar seu próprio curso, teria de submeter às mesmas condições? Em nome de quê? Ora, institua-se no país a possibilidade do serviço civil obrigatório para formandos de terceiro grau da escola pública (ProUni e crédito estudantil). Eles saberão, desde sempre, que estarão sujeitos à convocação —, e isso certamente pesará na sua decisão ao escolher uma universidade.
Notem que não acho a obrigatoriedade ruim em si, não! Só que ela poderia ser feita atendendo-se ao fundamento democrático. Mas aí não combina com o bigode de Mercadante. Se não houver o traço autoritário, não fica bem.
Médicos estrangeiros
Sim, sim, pode-se dizer que é melhor ter um médico engrolando português do que ter médico nenhum; pode-se dizer que o atendimento básico é importante e que males futuros podem ser evitados nessa fase e coisa e tal. Tudo bem! Ainda assim, continua um absurdo que médicos estrangeiros possam atuar no Brasil sem revalidar aqui seus respectivos diplomas, e isso demanda uma prova que avalie a proficiência do profissional. “Ah, mas eles não poderão executar todos os procedimentos…” Pois é: por definição, teremos médicos pela metade.
Se esse negócio prosperar, começaremos a entrar em contato com os “causos”, e aí, então, veremos. Um médico espanhol ou português poderão fazer, por exemplo, uma traqueostomia de emergência para evitar que um paciente morra de edema de glote? “Ah, quantos casos desses acontecem?” Não sei. Poderão fazer incisões no caso de picada de cobra? Há situações em que cirurgias de emergência, mesmo sem as condições adequadas, fazem a diferença entre a vida e a morte.
Que segurança terá o governo — e, pois, os pacientes — na contratação desses profissionais? Por que pessoas qualificadas em seus países de origem procurariam trabalhar em situação adversa no Brasil? Sim, há os abnegados, os que gostam de atuar em regiões inóspitas, mas isso traduz um perfil muito específico do profissional. Não raro, quem escolhe esse caminho opta por atuar em organizações humanitárias.
Se o país está em busca de profissionais competentes, ainda que para o primeiro atendimento, por que dispensá-los do exame? Se competentes, serão aprovados; se não forem, qual é o sentido de contratá-los a não ser certa má consciência original: “Ah, para pobre, está bom; melhor isso do que nada…”?
Médicos cubanos
Agora que o governo desistiu de trazer os seis mil médicos cubanos, entendemos a enormidade que estava em curso. Tratava-se de um acordo com a ditadura. Os médicos que viriam ao Brasil não seriam donos de seu próprio destino, como não são os que atuam na Venezuela. Parte dos seus vencimentos seria confiscada em favor da ilha dos irmãos Castro. Estariam, no Brasil, submetidos às regras cubanas, não às brasileiras.
Os que foram enviados à Venezuela deixaram suas respectivas famílias na ilha. Assim, terão de voltar, queiram ou não. Ainda é melhor do que viver naquele inferno, ganhando não mais do que uma espécie de ração. Mas parece evidente que a relação se enquadra na Convenção 29, da Organização Internacional do Trabalho, que caracteriza trabalho escravo ou forçado. E o Brasil é signatário de um tratado para pôr fim ao trabalho escravo, não é mesmo?
Eu sei que prometi descansar um pouquinho. Mas sabem como é… Havendo um tempinho, a gente manda brasa. Eu sei que parece esquisito, mas descansar dá muito trabalho. Trabalhar é bem mais fácil…
Por Reinaldo Azevedo
#prontofalei! Se ninguém quer, então falo: caso Snowden está sendo superestimado, e jornalista que denuncia “complô” exercita teorias conspiratórias e faz, quando menos, juízos delinquentes sobre os EUA e o terrorismo
Já deixei clara aqui a minha falta de paciência com Edward Snowden, o rapaz que namora uma dançarina de pole dance, o espião com vontade de virar celebridade no Facebook. “O tempora o mores!” Já vi gente com essa profissão desertar para cair no colo do inimigo, revelar que era agente duplo, passar as informações e ficar na moita… Contar tudo porque tomado de pruridos cidadãos? Isso, nunca vi. Mas os tempos andam sensíveis a picaretinhas como esse rapaz. Afinal, a imprensa ocidental acredita em todo mundo que encoste “o imperialismo” contra a parede, certo? Chegou a chamar a Irmandade Muçulmana de “grupo moderado” !!! Se o sujeito não tinha uma bomba amarrada à volta da cintura, então era “moderado”… No texto cujo link vai acima, lembro que o tipinho à-toa ajudou a trazer para o chão a figura de Barack Obama, que muitos pretendiam vagar no éter das boas intenções. Como nunca acreditei nisso, não me escandalizo que os EUA estivessem monitorando as comunicações mundo afora na luta contra o terror.
Como não sou candidato a ser o Príncipe que pretende unificar a Itália, não tendo por que ser temido, também não busco ser amado. Então lá vai: os EUA monitoram quem liga pra quem — que se saiba, nesse caso, não se conhece o conteúdo — mundo afora, especialmente no Ocidente? Que bom!!! Alguém tem de fazer isso. Antes eles do que a China; antes eles do que a Rússia; antes eles do que alguma central do terror.
Dia desses, assistindo a uma reportagem de TV, a moça, com aquele ar indignado a que a ignorância sempre confere convicção, observou que, a despeito de tanto monitoramento, o serviço secreto americano não conseguiu impedir o atentado terrorista de Boston. É uma raciocínio estúpido. A eficiência de um monitoramento não se mede pelos atentados que ocorrem, mas por aqueles que não ocorrem. E parte do serviço de segurança consiste justamente em omitir essas informações para não gerar pânico e garantir a segurança de algumas operações. Mesmo assim, alguns casos vieram a público. Já se impediu um facínora, por exemplo, que levava um dispositivo explosivo no salto do sapato, de explodir um avião. Quantos ataques o monitoramento já evitou no país que teve o 11 de Setembro e mundo afora? Ninguém jamais saberá.
As autoridades brasileiras estão tomadas de pruridos nacionalistas; falam em violação da soberania nacional… É. Nada como um escorregão dos grandes para que os pequenos fiquem cheios de razão. É claro que há aí um exagero, e os EUAtentam se explicar. É evidente que o Brasil tem de fazer cobranças e tal, mas é bem possível que o grande número se supostas ocorrências em nosso país se deva ao fato de que essa é uma área de trânsito de dados. De toda sorte, se houver gente em certas áreas do país recebendo um número considerável de ligações do Irã ou do Sul do Líbano, por exemplo, dominado pelo Hezbollah, prefiro que os EUA saibam… Ou vocês acham que devemos deixar isso para José Eduardo Cardozo, o Garboso? O Brasil nem tem uma lei para punir o terrorismo. O PT não deixa que seja votada. Facínoras já foram presos e já foram soltos por aqui.
Teorias conspiratórias
O caso da dita espionagem foi denunciando por Glenn Greenwald, jornalista americano, correspondente do jornal inglês The Guardian, que mora no Brasil, onde tem visto permanente em razão da união estável com um brasileiro. O Globo já contou essa história. O texto começa assim: “A história de amor entre Glenn Greenwald, um americano colunista do jornal inglês ‘The Guardian’, e um jovem brasileiro oriundo da favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, lembra um conto de fadas”. Se quiserem saber mais do conto de fadas, cliquem ali. Volto à realidade.
Greenwald concedeu uma longa entrevista ao Fantástico neste fim de semana, vejo na Internet. Num dado momento, ele afirma:
“É um pouco irônico, porque o problema foi que eles [o governo americano] tiveram informação demais, e eles não podem conectar essa informação. Porque eles não conseguiram ler todas as coisas. Você tem bilhões de e-mails todos os dias, como eles estão gravando agora. É impossível saber exatamente o que você está coletando. E, para mim, é muito claro que o objetivo não é para impedir o terrorismo, mas para aumentar o poder de governo americano.”
Releiam se for o caso. Se Greenwald repetir isso em sua língua pátria, continuará sem sentido. Então ele mesmo reconhece que são bilhões de mensagens, que os próprios americanos têm dificuldades para processar tudo, que chega a ser impossível saber o que está sendo coletado, mas ele tem uma certeza, saída sabe-se lá de onde: NÃO É PARA COMBATER O TERRORISMO, MAS PARA AUMENTAR O PODER DO GOVERNO AMERICANO. Poder sobre o quê? Sobre quem? Com qual propósito? Qual é a hipótese deste senhor? Não estranhem haver americanos fanaticamente antiamericanos. Também nessa matéria, poucos conseguem superá-los. Se tiverem dúvidas, perguntem a um intelectual que se quer refinado, como Noam Chomsky, ou a um delinquente que se sabe delinquente, como Michael Moore…
Delinquência intelectual filoterrorista
Sem dúvida, Greenwald deu um furo mundial ao trazer à ribalta o namorado da dançarina. Mas eu não confio nos seus juízos de valor. De jeito nenhum! Quando ocorreram os atentados de Boston, este senhor escreveu o seguinte lixo em seu jornal:
“Independentemente de seu ponto de vista sobre a justificativa e a intenção [dos atos terroristas]; qualquer que seja a raiva que você esteja sentindo do autor do ataque a Boston, essa é a justificável raiva que as pessoas sentem dos EUA mundo afora por estes matarem inocentes em seus respectivos países. Qualquer que seja a tristeza que você sinta por causa das vítimas de ontem, o mesmo nível de tristeza é devido às pessoas inocentes cujas vidas chegaram ao fim por causa das bombas americanas. Por mais profunda que você reconheça ser a perda sofrida pelos pais e familiares das vítimas, é a mesma perda experimentada pelas vítimas da violência dos EUA. É natural que não se sinta isso tão intensamente quando as vítimas estão longe e são quase invisíveis, mas sentir essas mesmas coisas em relação aos atos de agressão dos EUA corresponderia a percorrer um longo caminho que leva a uma melhor compreensão do que eles são e dos resultados que produzem”.
Retomo
Sabem o que é particularmente asqueroso nesse texto? Os atentados foram praticados no dia 15 de abril deste ano. No dia 16. Greenwald já apontava o dedo para os culpados: no caso, as vítimas!!! Esse é o mesmíssimo raciocínio que faz a Al Qaeda e todos aqueles que justificam atos terroristas.
A realidade se encarregou de provar a estupidez de Greenwald. Os atentados foram cometidos pelos irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, de origem chechena. Os EUA nunca se meteram por lá. O grande algoz da Chechênia é a Rússia, onde hoje, muito provavelmente, Edward Snowden, o herói do jornalista do Guardian, está refugiado, à espera de um país que lhe dê guarida.
Os juízos um pouco perturbados de Greenwald sobre a política externa americana estão sendo omitidos do público, e se está dando corda a suas conjecturas conspiratórias. Nem poderia ser diferente: ele reúne um verdadeiro coquetel de clichês do heroísmo politicamente correto: é americano, mas crítico feroz dos EUA; é um gay com educação refinada, mas casado com “jovem” da comunidade do Jacarezinho; não apoia, claro!, atos terroristas, mas considera que eles são, no fim das contas, uma reação às ações dos americanos mundo afora.
“O que isso tem a ver com a reportagem dele?” Estou expondo o ambiente intelectual em que essas coisas se produzem e ganham vulto. É uma obrigação intelectual fazê-lo. De resto, mesmo as informações que ele colheu não o habilitam a afirmar que o “objetivo do monitoramento não é impedir o terrorismo, mas aumentar o poder do governo americano”. É mero chute de quem ataca os EUA no dia seguinte a um atentado terrorista contra os… EUA”.
Snowden e Greenwald podem ser os heróis de muita gente. Não são os meus.
#prontofalei!
Por Reinaldo Azevedo
Eis o lema do Islã e a origem do caos no Egito: “Dai a Alá o que é de César”. Ou: O Islã compreende a captura necessária do estado
Já são mais de 50 os mortos no Egito depois do golpe desferido pelo Exército, sob o aplauso de muitos milhares. Há certa hesitação mundo afora em chamar a coisa pelo nome porque a quartelada conta com o apoio de parcelas consideráveis da população. O primeiro-ministro do governo interino é Mohamed ElBaradei, um Prêmio Nobel da Paz. Não tem a legitimidade das urnas, mas é considerado um democrata, um humanista.
Leio análises aqui e ali sobre o Egito e fico impressionado com a cara de pau de muita gente. Para tentar justificar seus erros de análise, fingem que estamos diante de um resultado surpreendente. Estamos? Desde o início, o erro mais importante consistiu em chamar a Irmandade Muçulmana de “grupo moderado”. Por quê? Um partido que tem o objetivo claro, deliberado, explícito, de governar o país segundo as regras da sharia pode ser chamado de “moderado”?
Também me encantam as lágrimas de alguns, a lamentar que se estaria a “demonizar o Islã político”. Pergunta óbvia: existe, por acaso, uma “Islã não político”??? Qual? Onde está? Com quem se deve conversar a respeito? Quem deve ser chamado à mesa de negociação? O Islã, moderado ou não, extremista ou não, explodindo bombas ou não, será sempre uma religião cuja referência principal é o estado, quer para liderá-lo, quer para se opor a ele até capturá-lo. Nessa religião, o lema poderia ser este: “Dai a Deus também o que é de César”.
No dia 15 de dezembro de 2012, escrevi um post cujo título é este: “Poderia ter sido um palpite para a Mega-Sena, mas foi só uma antevisão do Egito. Com dois anos de antecedência. Confiram! Ou: A Irmandade Muçulmana e os inocentes ocidentais”. O post, por sua vez, alude a outros artigos. Trata-se de uma síntese do que se andou dizendo aqui sobre a “Primavera Árabe”. Em dezembro passado, o país realizou o referendo sobre a nova Constituição, que avançava na islamização do país. Leiam trechos. Ainda voltarei a este julho de 2007.
*
O Egito vota hoje o referendo sobre a nova Constituição, criada pela maioria islâmica da Assembleia. Pela lógica, deve ser aprovada, já que as eleições parlamentares garantiram a maioria aos partidos religiosos. O novo texto faz dos “catedráticos no Islã” os juízes últimos de qualquer contenda. São as flores do mal da Primavera Árabe…
A Folha publica neste sábado uma entrevista com Hossam Bagaht, um dos mais conhecidos ativistas dos direitos humanos no país. Ele confessa um erro trágico: ter acreditado que a Irmandade Muçulmana poderia ser convertida ao jogo democrático. Ainda voltarei a ele. Vamos agora fazer um breve passeio ao passado recente.
“Você errou!” Eu não!
Quando estava selecionando os textos de “O País dos Petralhas II”, um amigo querido me aconselhou: “Não publique em livro textos sobre a Primavera Árabe; você errou a mão nessa!”. Eu não segui o conselho! Está lá, no Capítulo 6, chamado “Findomundistão”, subcapítulo 6.3. Até porque acho que acertei em cheio. Vocês sabem que nunca fui entusiasta daquele negócio e fui o primeiro, que me lembre, a ter empregado a expressão “Inverno Árabe”. Desde o começo, incomodava-me a bobagem de uma “revolução feita pelo Facebook”… Tenham paciência! A segunda tolice, tomada como axioma, era justamente a suposta moderação da Irmandade Muçulmana. Que moderação?
Expus o meu ceticismo e apanhei muito. Apanhei especialmente por aquilo que não escrevi, como de hábito. Nunca escrevi, por exemplo, que a solução era Hosni Mubarak. Ocorre que o fato de ele ser, então, um ditador asqueroso não fazia democrática a Irmandade, ora… Não era o Facebok, não! Era a Irmandade. Não era democracia que ela queria, mas um governo islâmico. E não pode haver governo islâmico e democrático ao mesmo tempo caso se considerem os respectivos conteúdos do islamismo e da democracia. Pode ser chato e realista demais, mas é assim.
Apanhei também porque indagavam: “Você foi para o Egito por acaso? Fica escrevendo aí da sua cadeira… Vá para a Praça Tahrir…”. Eu não! Não vou! Vou ficar aqui mesmo! Não é pra mim. Temo que o calor dos fatos perturbe o meu juízo, entenderam? Acho simpática a ideia de que, ao nascer somos, mesmo uma “tabula rasa” (adoraria que Platão estivesse certo e que a minha alma já tivesse visitado a Sabedoria, mas….). Depois de alguns livros lidos, no entanto, é preciso tomar cuidado para que os atores contingentes das praças do mundo não façamtabula rasa daquilo que a gente aprendeu, leu, estudou. Quando se aprendeu, se leu e se estudou, é claro! Repórteres tendem a se identificar com aqueles que consideram “os oprimidos”. Acham que é um primado moral superior aos fatos. A imprensa ocidental passou a impressão de que a Praça Tahrir estava tomada por milhares de pessoas cobrando democracia de modelo ocidental…
Bem, meus caros. O arquivo está aí. Hoje em dia, não é preciso visitar pastas empoeiradas para saber quem escreveu o quê. O Egito caminha para ser uma ditadura islâmica. No dia 21 de novembro de 2011, escrevi um post que deixou revoltados alguns ignorantes. O título: “No Egito, Gramsci é relido à luz de Alá”. Não! Eu não estou afirmando que só ignorantes discordam de mim. Jamais diria isso! É que se ignorou um aspecto importante daquele texto, presente em outros: a Irmandade estava enganando os inocentes bem-intencionados do Ocidente.
Agora, o entrevistado
Muito bem! Hossam Bagaht estava na praça, lá no calor dos fatos. Eu estava aqui, cercado por meus livrinhos e minhas manias. Se me conhecesse, diria: “É, você estava certo…”. Reproduzo trechos de sua entrevista:
Folha – Os islamitas o surpreenderam?
Hossam Bahgat - Desde a queda de Mubarak há uma polarização entre islamitas e aqueles cuja prioridade era evitar a chegada dos islamitas ao poder. Eu achava que seria bom para a transição ter os islamitas no poder, porque isso os integraria ao processo político. E acreditava que havia um bloco reformista na Irmandade Muçulmana, e que governar teria um efeito moderador no grupo. Eu estava errado.
O que mais o incomodou?
É uma longa lista. Começa no ano passado, quando a Irmandade ficou do lado da junta militar e não das forças revolucionárias, incluindo em tempos de massacres nas ruas. Depois, quando conquistou a maioria no Parlamento, a Irmandade monopolizou todas as comissões. Com o decreto do dia 22 eles foram além de um erro político: foi a primeira vez que os islamitas mostraram que não acreditam na democracia. O decreto confirmou os medos dos que estavam obcecados com a ameaça islamita.
Os islamitas dizem que o decreto foi necessário porque as cortes são formadas por juízes do antigo regime.
É uma definição enganosa. Mursi tem poderes legislativos desde agosto, mas não emitiu nenhuma lei para a reforma judiciária. É verdade que a Suprema Corte tem membros apontados por Mubarak, alguns abertamente contra os islamitas, mas não se pode generalizar. O Judiciário era o nosso maior aliado contra Mubarak. Em 2006, Mursi foi preso numa manifestação justamente por defender o Judiciário.
(…)
Palpite?
É isso aí… Agora, queridos, eu lhes ofereço um texto escrito no dia 30 janeiro de 2011. Vocês não me peçam palpite para a Mega-Sena da Virada porque eu não tenho nenhum. Católicos têm uma dificuldade terrível de ser místicos. Eu só sei enxergar com a lógica — daí que nem jogue… Leiam (em itálico). Sem ir à Praça Tahrir, com alguns livrinhos e a lógica, é possível antever o futuro até no detalhe.
A revolta no Egito e os tolos politicamente corretos
O Egito está dando passos largos para se transformar numa ditadura fundamentalista islâmica, depois de passar, porque isso faria parte da pantomima, por um ritual eleitoral. Esse caminho é conhecido. A imbecilidade dominante na imprensa ocidental — na brasileira, então, chega ao paroxismo — acredita que se trata de um movimento popular espontâneo, liderado por pessoas que não aguentam mais as injustiças sociais e a ditadura e resolveram dar um “basta!”. É uma análise cretina.
O fato de o Egito ser governado por um ditador, desprezível como todos, e de as injustiças serem grandes não muda o caráter do que vai nas ruas. O tal “Movimento 6 de Abril”, liderado “por jovens”, segundo a boçalidade influente, é, além de irrelevante, uma boa fachada. Quem comanda as ruas é a Irmandade Muçulmana, aquele mesmo grupo de onde saiu, por exemplo, o Hamas, que governa a Faixa de Gaza. A propósito: em Gaza, ninguém pede democracia, não é mesmo? Primeiro é preciso destruir Israel, é claro!
Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz e ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, resolveu ser o intérprete, para o Ocidente, do que vai em seu país. Ele se oferece para uma espécie de governo de transição, legitimado sabe-se lá por quem, já que é ignorado pela esmagadora maioria dos egípcios. Em busca dessa legitimidade, o que fez o valente? Uniu-se à Irmandade!
(…)
“Não quero nem saber, Reinaldo, se a democracia resultar no poder da Irmandade Muçulmana, que depois vai acabar com a democracia, fazer o quê?” Pois é. É um modo de ver o mundo. Não é o meu. Porque, junto com o fim da democracia, a Irmandade trará riscos que vão além das fronteiras egípcias, a exemplo do que aconteceu com a revolução xiita do Irã.
(…)
Volto a julho de 2013
O Islã, ou os que falam em seu nome, vá lá, não vai mudar o seu credo. É o que é: uma religião que tem como horizonte necessário a captura do estado. Se e quando algo parecido com uma democracia se instaurar no Egito, a única chance de o país não reiniciar o caminho para uma ditadura religiosa será criando salvaguardas que protejam o país daquilo que quer a maioria. E, vejam só, para assegurar a pluralidade, será preciso, então, a garantia das Forças Armadas — enquanto, ao menos, não forem elas também capturadas.
Por Reinaldo Azevedo
Fiquem atentos aos inimigos da democracia dentro e fora do governo
Caras e caros,
Este blog, como sabem, não reconhece fim de semana. Aqui se exerce um trabalho análogo à escravidão… amorosa! Todos os dias da semana, incluindo sábados, domingos e feriados. De vez em quando, é preciso descansar um pouco. Estou saindo de férias, mas, como já aconteceu, vocês sabem que não fico muito tempo longe do blog. Podem passar por aqui que continuarei atento ao Inverno de Banânia, que muitos pretendem Primavera. Saio em busca de alguns dias de Verão. A viagem já estava marcada. Vou combinar com os valentes do Movimento Passe Livre para que me avisem com antecedência quando estiverem prestes a ter uma outra boa ideia para levar pânico às hostes… petistas. Os extremistas de esquerda se esqueceram de combinar a agenda com o povo e acabaram criando mais problemas para os “companheiros” do que para os, como é mesmo?, reacionários. O blog volta à plena normalidade no dia 1º de agosto. Isso não quer dizer que eu vá ficar sem escrever até lá. De resto, conto com vocês para manter aceso o debate na área de comentários.
A democracia
Dou uma diminuída no ritmo, por alguns dias, depois de termos batido em junho o recorde de visitas para um único mês: quase 5,5 milhões. Já manifestei aqui a minha gratidão em outras oportunidades e volto a fazê-lo. Foram dias muito ricos esses, também para nós, para a nossa convivência. Mais de uma vez fui cobrado a explicar — cobrança justa — a minha falta de entusiasmo com alguns sinais que têm chegado das ruas. Não me deixei cair de encantos pelas manifestações como faz a extrema esquerda brasileira, que já anuncia aos quatro ventos a crise irrecuperável da representatividade e trata a própria democracia como inimiga.
Fiquem atentos: alguns supostos intelectuais brasileiros, que dão plantão em emissoras de TV, sites, jornais, revistas, conferências etc., resolveram inverter um fundamento que orientou a esquerda brasileira nos últimos quase 40 anos. Considerava-se, então, que a democracia era um valor universal e um instrumento, para eles ao menos, para chegar ao socialismo. Esses novos radicais — e o movimento vem de fora; não nasceu aqui — entendem o exato contrário: é preciso golpear o regime democrático para, então, se der e quando der, golpear o capitalismo. Esse é agora o novo inimigo. Em muitos aspectos, retomam a cartilha leninista, ainda que não vislumbrem, necessariamente, uma insurreição armada — mas também não a descartam.
E, como é sabido, também não me deixei capturar pelas manifestações de rua a exemplo de muitos liberais, ou quase isso, alguns deles meus amigos, que enxergam na voz das ruas um “não” ao aparelhamento das instituições pelo PT, uma recusa ao desassombro com que essa gente se apoderou do estado; um rechaço veemente à privatização da coisa pública em benefício de um partido e de seus asseclas. Acho, sim, que isso tudo está presente nas ruas. Mas, como já lhes disse aqui algumas vezes, o método, para mim, faz diferença. Em política, entendo, os meios qualificam os fins, e a forma se torna conteúdo. Sou, sim, um conservador. Não um conservador de governos, não um conservador do statu quo, não um conservador de iniquidades. Sou um conservador de instituições. E muito do que vejo não me agrada.
Estarei um pouco menos presente nas próximas três semanas, mas jamais ausente. E os convido, neste texto, a atentar para algumas chaves do que está em curso. A primeira é esta mesma, de que trato nos parágrafos anteriores: a democracia. Fiquem em estado de alerta. Lideranças políticas e intelectuais que sustentam com veemência “a crise de representatividade” quase sempre estão a advogar uma outra legitimidade que não a eleitoral. Avança com força o debate de que a verdadeira representação já não se estabelece mais por meio de partidos e do Parlamento. É evidente que não serei eu aqui a sustentar a excelência e a grandeza moral de todo o Poder Legislativo, embora tenhamos tido avanços notáveis, sim, nos últimos 25 anos. Que os Poderes precisem ser reformados, isso me parece evidente. Que a população tenha o direito de cobrar mudanças, eis uma coisa igualmente óbvio. Mas vamos com calma!
O Congresso
Cuidado com os oportunistas. Há muita gente que não presta no Congresso brasileiro. Mas é bom não confundir personalidades e personagens com a instituição. Fazê-lo corresponde a jogar o jogo dos inimigos da democracia. Há uma pressão imensa, hoje em dia, para que grupos organizados, comunidades de opinião e lobbies os mais variados, disfarçados de causas humanitárias, substituam o Parlamento e imponham a sua vontade em razão de sua, sei lá, como chamar, suposta superioridade moral. A musa dessa forma supostamente alternativa de fazer política é Marina Silva, que passa a impressão de que, se um dia chegar ao poder, vai governar com o auxílio dos entes da natureza.
A frase-símbolo desse entendimento precário do que seja democracia é o tal “Não me representa”. Os parlamentares A ou B podem não representar esse ou aquele, mas certamente representam outros. O ódio meio cego ao Congresso faz com que aqui e ali se saúde, por exemplo, o fato de a CCJ do Senado ter aprovado o fim do voto secreto, sem exceção. Ora, isso poria de joelhos o Parlamento diante do Executivo. A menos que um presidente da República esteja para cair, nunca mais se derrubará um veto presidencial se essa tolice for aprovada.
É claro que políticos às pencas abusaram e abusam no exercício de privilégios, nem sempre morais e legais. Mas lhes peço prudência quando participarem do debate por aí. Há quem pretenda que o exercício da representação deva ser uma espécie de expiação, de prova de sacrifícios. Atenção, minhas caras, meus caros: nesse caso, a política passaria a ser exercida apenas por representantes de corporações de ofício, de lobbies e de grupos organizados.
O dia 11
Está marcada uma greve geral para o próximo dia 11, quinta-feira. Todas as centrais sindicais aderiram. Até a oficialista UNE resolveu se juntar à turma. Atenção! A proposta conta com o apoio do PT e da CUT — o Diretório Nacional do partido emitiu uma nota conclamando a companheirada a ir à rua. Um dado curioso só na aparência: também o Palácio do Planalto não está exatamente hostil à ideia. Como explicar? Os petistas e o governo apostam numa manifestação conduzida por sindicatos na esperança de que estes possam tomar as rédeas do movimento. Certamente teremos a chance de ver cartolinas e faixas em favor do plebiscito. Na quinta-feira, o homem comum eventualmente descontente com os governos dividirá a cena com os descontentes profissionais, que pretendem capturar as ruas.
Concluo
Fiquem atentos, pois, aos inimigos da democracia dentro e fora do governo. Tempos como os que vivemos são propícios à emergência de feiticeiros institucionais. Vou descansar um pouco, mas não estarei ausente. Podem passar aqui de vez em quando que é grande a chance de a gente se encontrar. Mais uma vez, obrigado pela consideração, pelo rigor e pelo apreço de vocês! Lutaremos em defesa do regime democrático até a última palavra.
Texto escrito originalmente às 7h51 do dia 7 de julho
Por Reinaldo Azevedo
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