Na FOLHA: Brasileiros que não querem trabalhar chegam a 17,4 milhões

Publicado em 23/05/2014 07:11 e atualizado em 23/05/2014 14:30 1037 exibições
Contingente aumentou 5,7% em relação a abril de 2013 e representa 91% dos inativos nas cidades pesquisadas. Maioria do grupo é de mulheres, jovens até 24 anos e idosos, concentrando-se em SP, BH, Rio e Porto Alegre, por PEDRO SOARES, na Folha de S. Paulo desta sexta-feira. (sucursal do RJ).

O número de pessoas interessadas em trabalhar despencou no intervalo de um ano. Esta é a principal explicação para a taxa de desemprego ter se mantido em abril no menor patamar para o mês desde 2002.

Os que respondem à pesquisa do IBGE que não gostariam trabalhar eram 17,375 milhões de pessoas em abril deste ano, 5,7% mais do que os 16,436 milhões do mesmo mês do ano passado.

Eles correspondiam a 91% dos chamados inativos nas seis principais regiões metropolitanas do país. O restante, em sua grande maioria, são os que entram e saem do mercado de trabalho em momentos específicos ou os que fazem "bicos", mas não estavam empregados nem à procura de trabalho nos 30 dias anteriores à pesquisa.

Esse é o período de referência para compor o grupo que está empregado ou à procura de uma vaga --na força de trabalho de modo efetivo.

Os inativos são o segundo grupo mais importante da população em idade para trabalhar (10 anos ou mais, pela pesquisa). Perdem só para os ocupados: 22,9 milhões em abril de 2014, grupo estagnado na comparação anual.

Sem crescimento da oferta de vagas, a taxa de desemprego tem ficado nos menores patamares históricos (4,9% em abril) apenas pela reduzida procura por trabalho.

"A taxa de desocupação não quer dizer nada num cenário de fraco desempenho do emprego e redução da população economicamente ativa [quem está disponível para trabalhar], ainda mais num período de menor crescimento econômico", diz José Francisco Gonçalves, economista-chefe do banco Fator.

PERFIL

O perfil das pessoas que não estão dispostas a trabalhar é composto, em sua maioria, por mulheres (que, em geral, não chefiam a família), jovens até 24 anos (o que indica que há um foco maior na qualificação profissional e condiz com os dados de aumento da escolaridade desde o Plano Real) e idosos (contam com a aposentadoria).

Esse grupo, diz o IBGE, se concentra nas regiões de maior rendimento e de população mais envelhecida: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

"O grosso dessas pessoas está nos extremos da pirâmide etária. Pode haver uma relação com o envelhecimento da população e com o aumento da renda nos últimos anos, não só do trabalho, mas de aposentadorias e transferências [de programas sociais]", diz Adriana Berenguy, técnica do IBGE.

Com folga no orçamento, quem não é chefe de família, diz, pôde postergar a entrada no mercado de trabalho ou se dedicar a atividades como cuidar da casa e dos filhos.

Os dados do IBGE apontam ainda uma freada no processo de formalização, com um ritmo menor de crescimento do emprego com carteira no primeiro quadrimestre. Já a queda dos trabalhadores sem carteira se intensificou, o que sugere que parte desse grupo saiu do mercado de trabalho.

Outro sinal de piora é a queda de 1,9% do emprego na indústria nos quatro primeiros meses de 2014. O setor é importante porque demanda profissionais terceirizados e de outros ramos, como o de serviços.

Com menos gente buscando trabalho, renda segue firme

DO RIO

Com menos gente disposta a trabalhar, a renda permanece em alta, apesar do ambiente de baixo crescimento econômico, com o consumo enfraquecido diante de juros maiores e crédito restrito.

É que as empresas têm de pagar mais para manter seus profissionais --assediados por concorrentes-- ou negociar condições melhores com sindicatos.

O custo de contratar um empregado é elevado e consome muito tempo.

Desse modo, é melhor retê-lo, ainda mais num cenário de escassez de oferta de trabalhadores.

RENDA DESACELERA

Diante desse cenário, o rendimento segue em expansão. Houve alta de 2,6% na comparação a abril de 2013.

"O mercado de trabalho apertado tem exercido pressionado para cima os salários", diz Rodrigo Miyamoto, economista do Itaú.

Apesar de ainda em alta, a renda já não cresce no mesmo ritmo de 2013 e apontou recuo de 0,6% de março para abril. Isso está ligado à inflação, que persistiu em patamar elevado, e a uma queda na indústria, um dos setores que pagam os melhores salários, o que puxa a média para baixo.

Para a Rosenberg & Associados, o rendimento médio recua em relação ao mês anterior pelo segundo mês consecutivo, "sinalizando que o mercado de trabalho está passando por um processo gradual de descompressão".

A estagnação do emprego pode levar à redução dos salários no futuro.

VINICIUS TORRES FREIRE

 

O emprego em dois Brasis

Nível de emprego nas metrópoles empacou faz sete meses, mas sabemos pouco do outro Brasil

MENOS GENTE procura trabalho, e o número de pessoas empregadas está praticamente estagnado desde outubro de 2013, está muito claro e sabido, situação confirmada outra vez pela pesquisa mensal de emprego do IBGE de abril, divulgada ontem.

Apesar do baixo desemprego, tal situação sugere que a economia esfriou e implica a princípio que há um empecilho adicional para a retomada do crescimento (força de trabalho estagnada). A pesquisa mensal do IBGE, porém, trata apenas do mercado de trabalho de seis metrópoles, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife. O que acontece no resto do Brasil?

Não sabemos muito bem, ainda. O que sabemos cria alguma confusão na análise, pelo menos a respeito do futuro da oferta de trabalho. Que a economia está esfriando, parece não haver muita dúvida.

A interpretação do que se passa no país fica nebulosa devido a informações de outra pesquisa do IBGE, a Pnad Contínua.

No início deste ano, como se sabe, o IBGE passou a divulgar outra estatística de desemprego, de abrangência nacional, com dados de emprego para cada trimestre desde janeiro de 2012. A informação mais recente da Pnad Contínua refere-se ao quarto trimestre de 2013.

A estagnação da oferta de trabalho e do emprego nas grandes metrópoles começou justamente em outubro de 2013. No entanto, na comparação com 2012, o trimestre final de 2013 na Pnad Contínua (de âmbito nacional) parece bem melhor que o trimestre final de 2013 na Pesquisa Mensal de Emprego (PME, restrita a seis metrópoles).

A ocupação (gente trabalhando) e a oferta de trabalho (gente empregada ou à procura de emprego) crescem na Pnad, caem na PME. Tal comparação, porém, é arriscada.

Primeiro, não se conhecem as manhas da Pnad contínua, que é muito recente (trata de apenas dois anos, ante os 12 anos da PME); não se sabe como, nesta pesquisa, o emprego reage a outras mudanças.

Segundo, a Pnad Contínua é trimestral. Terceiro, abrange mercados de trabalho ainda mais diferentes entre si que aqueles da PME (inclui cidades médias, pequenas, grotões, o dinâmico Centro-Oeste, o rico interior paulista etc). A qualidade dos empregos e as idas e vindas desses mercados são diferentes.

A abrangência nacional da Pnad Contínua a princípio vai permitir que se contem histórias, se façam interpretações e políticas públicas melhores. Isto posto, a Pesquisa Mensal de Emprego não deixa os analistas a pé quando se trata de interpretar as ondas de variação do crescimento da economia, ora em baixa.

Mas a aparente divergência na situação do emprego nas metrópoles e no conjunto do país cria dificuldades temporárias para projeções de médio prazo, como aquelas que apontam o problema de a oferta de trabalho no Brasil crescer cada vez menos, tendência derivada do ritmo menor de crescimento da população (quão devagar? Onde?).

No momento, em seis metrópoles, a quantidade de gente disposta a trabalhar cai provavelmente porque mais jovens preferem estudar, porque a renda das famílias cresceu e porque deve haver mais gente desanimada de procurar emprego, pois a economia anda devagar. É uma situação anormal de desemprego em baixa recorde e de nível de emprego estagnado faz um semestre.

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BARBARA GANCIA

Jimmy Hoffa mandou lembranças

Nós não temos extrema direita ou extrema esquerda. Não há porque continuar a nutrir uma rusga doentia

Já pensou se o Marcola tivesse nascido no Vale do Silício? Provavelmente seria um Steve Jobs. E a esta altura já teria conseguido aumentar a carga da bateria do iPhone para umas 24 horas de duração.

Em contrapartida, se Steve Jobs tivesse nascido na favela do Pavão-Pavãozinho, nós hoje estaríamos prevendo a construção de abrigos antiatômicos em cada unidade habitacional lançada no país.

Longe de mim querer exaltar o brilho intenso que de mim emana, mas na tarde de terça, bem antes de o prefeito Haddad (PT) formalizar a associação entre o termo "guerrilha" e os protestos, eu já estava na rádio parabenizando os fomentadores da bagunça.

Nunca vi em São Paulo se instalar o caos com tamanha eficiência e, ao mesmo tempo, despendendo tão pouco esforço. Pessoal é realmente profissional, tiro o chapéu. Ou tiraria, se usasse. Cá entre nós: quanta harmonia. Um ônibus atrás do outro --visto de cima poderia ser até um geométrico do Volpi.

E de uma eficiência tremenda, já que o "mob protesto" ferrou a todos democraticamente: ricos e pobres, todos parados irmãmente no meio da rua sem conseguir chegar ao compromisso, aula, médico, ao enterro do avô, parecia uma pintura.

Lá do além, Carlos, o Chacal deve ter aplaudido orgulhoso ao constatar que os ensinamentos das técnicas do Baader-Meinhof, das Brigadas Vermelhas e de outros grupos radicais, passados pelos sequestradores internacionais de Abílio Diniz, Luiz Sales e Washington Olivetto, acabaram sendo bem assimilados pela turma do crime organizado nos banhos de sol da cadeia.

No rastro do sindicalismo de resultados inspirado em Jimmy Hoffa, que fez escola entre os pioneiros Paulinho da Força (SDD) e Jair Meneguelli, surge a figura do excelente Guilherme Boulos, líder do MTST. O rapaz consta dos recentes levantamentos da Abin (Agência Brasileira de Inteligência --lembra?) atestando que haveria agitação pré-Copa e que ela seria orquestrada principalmente por: a) crime organizado e b) organizações sindicais.

Veja bem: reconheço o grande serviço que o sindicalismo presta à economia de mercado como promotor do equilíbrio entre as partes. Sem que a classe trabalhadora formasse um só corpo com cérebro e voz para representar seus interesses, a balança do poder rapidamente penderia para o lado mais forte. Sindicatos também ajudam a promover a tão almejada distribuição de renda.

Mas conheço também estudos recentes, contratados por organizações privadas, muito preocupadas com o clima inflamável que há no país. E eles concluem que não existe extrema direita nem extrema esquerda no Brasil. Não há porque continuar a instigar esse antagonismo, essa rusga inexistente.

O que existe, de fato, é uma turma tentando se aproveitar de um momento particular --a iminência de um evento internacional-- cujo êxito influenciará o resultado de uma eleição. E essa cambada de oportunistas é formada por crime organizado, pela escória do sindicalismo, por milicianos (ou seja, ex-policiais corruptos) e por gente que se diz da militância, mas está na dança para garantir o seu, aproveitando a nuvem de mau humor que paira.

Só que tem um detalhe: as visitas estão chegando. E a gente precisa arrumar a casa, passar aspirador, ajeitar as flores. Não vai dar pra ficar quebrando o pau no meio da rua. Muito menos para tentar impedir a chegada do comunismo (!) meu Deus, que vergonha essa paranoia ridícula!

Veja: até dá para protestar durante a Copa, por que não? Mas não usando técnicas que deveriam estar sendo empregadas no conflito da Síria ou do Afeganistão.

NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA: 

 

Desemprego recua para 4,9% em abril, a menor taxa para o mês em 13 anos, aponta o IBGE

Taxa veio abaixo do piso das estimativas dos analistas, de 5%; rendimento médio dos trabalhadores registrou queda de 0,6%

O desemprego apresentou leve recuo em abril. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego em abril foi de 4,9%, contra a taxa de 5% em maio. O resultado foi o menor para o mês de abril desde o início da série histórica em 2002.

A taxa veio abaixo do piso do intervalo das estimativas dos analistas ouvidos pela Agência Estado, de 5% a 5,3%, com mediana de 5,2%. A taxa de desemprego média nos primeiros quatro meses de 2014 está em 5%, a mais baixa para o período de janeiro a abril da série histórica. Em 2013, a taxa de desemprego média de janeiro a abril tinha ficado em 5,6%.

O rendimento médio real dos trabalhadores registrou queda de 0,6% em abril ante março, mas aumento de 2,6% na comparação com abril de 2013.

A massa de renda real habitual dos ocupados no País somou R$ 47,2 bilhões em abril, um recuo de 0,5% em relação a março. Na comparação com abril de 2013, a massa cresceu 3,6%. Já a massa de renda real efetiva dos ocupados totalizou R$ 47,7 bilhões em março, uma queda de 0,6% em relação a fevereiro. Na comparação com março de 2013, houve aumento de 5,0% na massa de renda efetiva. O rendimento médio real dos trabalhadores em abril foi de R$ 2.028,00, contra R$ 2.040,27 em março.

Desempregados. O número de desocupados nas seis principais regiões metropolitanas do País totalizou 1,173 milhão de pessoas em abril, uma queda de 3,3% em relação a março, ou 40 mil indivíduos a menos em busca de trabalho, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Emprego. Na comparação com abril de 2013, houve redução de 17% no número de desempregados, o equivalente a 240 mil pessoas a menos procurando uma vaga.

Já a população ocupada ficou em 22,941 milhões de pessoas em abril, ligeiro aumento de 0,1% em relação a março, graças à criação de 17 mil postos de trabalho. Em relação a abril do ano passado, a variação também foi de apenas 0,1%, com a criação de 34 mil vagas.

O número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado ficou em 11,704 milhões em abril, alta de 0,2% em relação a março, com a criação de 29 mil postos formais. Em relação a abril do ano passado, houve aumento de 2,2% nas vagas com carteira, o equivalente a 252 mil novos postos de trabalho formais.

População inativa. A migração de trabalhadores para a inatividade voltou a ajudar a manter a taxa de desemprego em mínimas históricas em abril. "Essa taxa (de desocupação) caiu não porque houve geração de postos, não porque houve expansão da população ocupada, mas sim porque houve redução da procura por trabalho", afirmou Adriana Araújo Beringuy, técnica da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Em relação a março, foram criadas apenas 17 mil vagas em abril. Na comparação com abril do ano passado, somente 34 mil postos foram abertos. Como a população em idade ativa continuou crescendo e o número de desocupados permaneceu diminuindo, significa que essas pessoas foram para a inatividade.

O número de inativos ficou em 19,194 milhões de pessoas em abril, alta de 0,6% ante março, o equivalente a 118 mil pessoas a mais. Na comparação com abril do ano passado, a população inativa cresceu 4,2%, o equivalente a 772 mil pessoas que deixaram a força de trabalho.

"A ocupação não tem crescido, não tem apresentado movimento que seja significativo. Ela não está diminuindo, mas também não está crescendo como vimos em outros momentos da pesquisa. A gente está vivendo um cenário de estabilidade da ocupação", definiu Adriana.

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Fonte:
Folha de S. Paulo + Estadão

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