Brasil Parado: Agronegócio conta prejuízos enquanto Dilma não sinaliza baixa no diesel

Publicado em 25/02/2015 16:54 e atualizado em 26/02/2015 15:48
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PRF diz diminui número de trechos bloqueados por caminhoneiros em estradas federais

O número de Estados com trechos de rodovias federais bloqueadas por caminhoneiros caiu para seis na noite desta quarta-feira (25), conforme relatório mais recente da PRF (Polícia Rodoviária Federal), fechado às 20h.

na FOLHA

Seguem com pontos de interdição Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná, Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Manifestantes ainda impediam a passagem de caminhões em 81 pontos, número inferior aos 115 registrados na noite da terça-feira (24).

Caminhoneiros protestam pela aprovação das alterações na Lei dos Caminhoneiros pela presidente Dilma Rousseff sem vetos, pela isenção de pedágio para eixos suspensos dos caminhões, pela redução do preço do diesel, pela prorrogação dos empréstimos do BNDES contratados para o financiamento de caminhões e também por uma tabela de preços mínimos de frete. Em reunião com o governo, realizada na tarde desta quarta, em Brasília, receberam sinalização de que poderão ter ao menos parte de suasreivindicações atendidas.

Durante toda a quarta-feira, o número de Estados afetados pelos protestos chegou a 14 –Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Tocantins, Pará e Ceará. Com a barreira à circulação de caminhões, municípios do Sul e do Centro-Oeste do país relatam falta de alimentos perecíveis, combustíveis e medicamentos para a população. Agroindústrias e montadoras estão paralisando atividades por falta de insumos e produtores rurais relataram estar sem ração para os animais.

  Douglas Magno/O Tempo  
Caminhões na BR-381, em Betim (MG); caminhoneiros parados em Minas Gerais começaram a dispersar nesta quarta após ordem judicial
Caminhões na BR-381, em Betim (MG); caminhoneiros parados em Minas Gerais começaram a dispersar nesta quarta após ordem judicial

Decisões da Justiça Federal determinam liberação de rodovias federais em 10 Estados, atendendo a um pedido da AGU (Advocacia-Geral da União). Entre eles estão Santa Catarina, Ceará, Tocantins, Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia. Em caso de descumprimento, as multas vão de R$ 100 por hora a cada manifestante a R$ 50 mil, no caso de associações que realizarem protestos em alguns destes locais. Os valores variam por região. 

 

Imagem do dia - Greve MG - Caminhoneiros protestam na BR-381 em Betim, Minas Gerais. Foto da agência Reuters

A greve dos caminhoneiros continuava acontecendo em sete estados - Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul -, porém, em cinco, a Justiça já havia determinado a desocupação das estradas.

A presidente da república Dilma Rousseff se pronunciou e já adiantou: "o governo não vai baixar o preço do diesel", e esse continua sendo o principal apelo dos motoristas de caminhões. Em Feira de Santana, na Bahia, a presidente participou de uma cerimônia de entrega do 'Minha Casa, Minha Vida' e disse que não ia mais falar do assunto e que preferia falar somente do programa. 

Um dos setores mais afetados pela "paradeira" em todo o país é o agronegócio e os prejuízos já começam a ser computados. A produção e colheita de grãos, a cadeia produtiva de carnes e de leite tem sido algumas das vertentes onde a situação é mais grave.

Para o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), essa paralisação é o reflexo do limite de muitos problemas pelo qual passa o país concentrados. "Essa atitude saiu de forma deliberada de vários setores e hoje paralisam o Brasil gritando socorro e só a presidente Dilma não entendeu, não se trata de uma afronta política, partidária.

No link abaixo, confira a íntegra da entrevista do deputado :

>> Presidente Dilma não reconhece necessidade da baixa nos preços do óleo diesel e greve dos caminhoneiros deve continuar

Soja

Para a soja, entre outros produtos, há um efeito dominó. A paralisação dos caminhões tem interrompido o fluxo de produto no país, o que impede a chegada da oleaginosa nos portos, principalmente de Paranaguá, não possibilita a entrega da matéria-prima à indústrias processadoras e fábricas de ração. 

Paralelamente, a greve tem travado ainda a chegada do óleo diesel no interior do país, em importantes regiões produtoras, e o desabastecimento tem prejudicado o desenvolvimento da colheita em muitos estados. Com isso, a soja tem ficado no campo por mais tempo do que o necessário, perdendo qualidade e tirando renda do produtor rural. Há ainda propriedades onde a falta de combustível não permite que os secadores de soja trabalhem e os grãos permaneçam com alto teor de umidade, segundo relato de agricultores dos mais diferentes estados. 

As exportações brasileiras também estão sendo duramente comprometidas. Há, somente no porto de Paranaguá, cerca de 50 navios ao largo esperando para embarcar soja, com uma fila de algo perto de 5 milhões de toneladas somente para a China, maior compradora mundial da oleaginosa. Nesta quarta, apenas 33 caminhões estiveram nos pátios do terminal, enquanto a média para essa época do ano, em pico de colheita da soja, é de 1600 veículos, de acordo com informações da assessoria de imprensa da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (APPA). 

Leite e Carnes

Milhões de litros de leite estão sendo desperdiçados por dia por conta dessa greve. Trata-se de um produto perecível e, em 12 horas, precisa ser recolhido e em seguida, ser industrializado. Além disso, as empresas já não têm mais capacidade para seguir com suas atividades frente à falta de insumos, como as caixinhas. 

Somente no Paraná, por exemplo, são produzidos e processados, diariamente, 12 milhões de litros por cerca de 115 mil produtores e 300 indústrias, segundo números da Faep (Federação de Agricultura do Estado do Paraná). 

Em Santa Catarina, quinto estado produtor do país, a coleta está 100% interrompida em função da falta de escoamento, de acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados (Sindileite), Valter Antônio Brandalise. Em Minas Gerais, a produção também foi afetada, como informou a Faemg (Federação de Agricultura do Estado de Minas Gerais). 

De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Xanxerê, Enori Barbiberi, a situação é crítica em SC. “O movimento é feito em um local onde temos uma produção de mais de 6 milhões de litros de leite por dia e onde temos os grandes frigoríficos, abatedouros de aves e suínos. Diariamente, mais de 500 caminhões saem dessa região com produtos industrializados para os portos catarinenses e aos grandes centros consumidores como SP e RJ”, afirma.

Para os produtores de proteína animal, a maior preocupação é com a falta de ração. Em alguns pontos de bloqueio, cargas com alimentação para aves, suínos e bovinos até foram liberadas, porém, quando retornavam depois da entrega eram barrados. Assim, falta farelo de soja e milho, insumos básicos para a produção de ração, e os animais já estão morrendo nas granjas. 

No estado paranaense, ainda segundo dados da Faep, são abatidos 5 milhões de frangos e 750 mil cabeças de suínos abatidas diariamente e os prejuízos começam a ser contabilizados. No Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a situação se repete. 

E, ao mesmo tempo, não há estoque extra de ração, uma vez que a produção é diária, de acordo com o que explicam analistas, e, além disso, os insumos para a fabricação dessa alimentação animal também estão esvaziadas. As processadoras passam pela mesma situação e sua capacidade de armazenagem também é limitada, o que não alivia o quadro. 

Assim, os animais que ficam sem alimentação ficam vulneráveis e começam a praticar o canibalismo, podendo, inclusive, trazer problemas de de doenças pela queda de sua resistência orgânica, explica Domingos Martins, presidente do Sindiavipar (Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Paraná). 

A JBS informou, no final desta terça-feira (24), que oito de suas plantas de carnes estão paralisadas devido aos bloqueios. De acordo com informações da agência Reuters, a empresa disse que até o fim do dia estarão suspensas as atividades de unidades em Campo Mourão (PR), Sidrolância (MS), Seara (SC), São Miguel do Oeste (SC), Ana Rech (RS) e Jaguapitã (PR) e de duas unidades de Itapiranga (SC). Duas delas são de carne suína (Seara e Ana Rech) e as demais de carne de frango. A empresa não informou sobre quanto tempo as unidades ficarão fechadas.

Medicamentos

Na tarde desta quarta-feira (25), chegou a notícia de que pelo menos dois hospitais de Santa Catarina já suspenderam algumas cirurgias eletivas e alguns exames por conta da falta de medicamentos. As unidades de saúde informaram que alguns itens básicos não chegaram em função das paralisações.

 

Governo não tem como baixar o preço do diesel, afirma Dilma

Em meio à maior crise que enfrenta desde o início de seu governo, a presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quarta-feira (25), em Feira de Santana (BA), que não é possível reduzir o preço do diesel, uma das principais reivindicações dos caminhoneiros que bloqueiam estradas em ao menos 12 Estados, provocando o desabastecimento em várias regiões do país.

"O governo não tem como baixar o preço do diesel", disse. Segundo a presidente, o governo não elevou o preço do óleo, mas apenas recompôs o valor da Cide (tributo regulador do preço de combustíveis). "O que fizemos foi recompor a Cide. E não elevamos uma vírgula o preço dos combustíveis e nem abaixamos", afirmou.

A presidente reclamou que o governo foi criticado quando baixou a Cide, e também quando o tributo foi retomado. "Quando a parte dura da crise começou, nós baixamos a Cide para poder ter um enfrentamento da crise. Agora nós achamos que é hora de voltar com a Cide."

Dilma não detalhou quais medidas o governo vai oferecer aos caminhoneiros em rodada de negociações que está prevista para ocorrer nesta tarde, em Brasília.

Os caminhoneiros, que fazem protestos pelo país desde a semana passada, pedem redução no preço do diesel e do pedágio, tabelamento dos fretes e a sanção, por parte de Dilma, de mudanças na legislação que flexibilizam a jornada de trabalho -a categoria quer a liberação de mais horas trabalhadas por dia para aumentar os ganhos.

O governo teve dificuldades nos últimos dias para resolver o problema porque não conseguia identificar líderes que respondessem por todo o conjunto de manifestantes.

Responsáveis, em média, por 58% do transporte de mercadorias no país, segundo o Ministério dos Transportes, os caminhões têm participação ainda mais alta em setores como o de grãos.

Nesta quarta, o número de rodovias federais com trechos interditados pela paralisação caiu. São 99 pontos nesta manhã, ante 115 registrados na noite de terça, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Em São Paulo, a paralisação afeta apenas uma rodovia estadual, de acordo com a polícia. Cerca de 150 caminhoneiros se reúnem as margens da rodovia Raposo Tavares, na altura do quiilômetro 433, na cidade de Cândido Mota (431 km de São Paulo).

Apenas uma faixa da rodovia está liberada, por onde passam veículos de passeio e caminhões que transportam carga viva, informou a assessoria de imprensa da Polícia Rodoviária Estadual.

  Editoria de Arte/Folhapress  
 

SÃO PAULO

Apesar de ter só uma rodovia diretamente atingida, São Paulo começa a ter o abastecimento de frutas afetado pela greve.

O Ceagesp registra uma queda de 10% no recebimento de frutas produzidas na região Sul do país, como melancia, maçã, pera e ameixa. Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina estão entre os Estados mais afetados pela manifestação dos caminhoneiros.

Atacadistas também apontam que, a partir do final desta semana, a oferta de produtos como banana, mamão e morango também pode diminuir.

As cargas dessas mercadorias estão paradas em Governador Valadares (MG) e nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte (MG) e de Curitiba (PR). Segundo a assessoria de imprensa do entreposto, há carregamentos retidos nas rodovias desde o último domingo (22), o que já ocasionou perdas.

O abastecimento de verduras, legumes e hortaliças, no entanto, ainda não é afetado, pois cerca de 80% desses alimentos vendidos na Ceagesp são produzidos no Cinturão Verde de São Paulo, região que abrange cidades como Mogi das Cruzes, Suzano e Jundiaí -região onde ainda não há bloqueio de rodovias.

Ao contrário do que ocorreu em regiões dos Estados do Sul do país e no Mato Grosso, São Paulo não enfrenta escassez de combustível. Segundo José Alberto Gouveia, presidente do Sincopetro (sindicato dos postos), o Estado -principalmente a região metropolitana de SP- não foi afetada porque as rodovias que ligam os centros distribuidores às principais cidades não foram bloqueadas.

"Ainda não tivemos queixa dos postos de São Paulo. A Castello Branco, por exemplo, não teve problema", diz. Barueri, que tem ligação com a rodovia, concentra um polo distribuidor de combustível.

 

Protesto de caminhoneiros deixa 'ilhado' polo do agronegócio baiano

Um dos polos do agronegócio baiano, a cidade de Luís Eduardo Magalhães, no oeste do Estado, teve as suas três saídas parcialmente fechadas na manhã desta quarta-feira (25) durante protesto dos caminhoneiros, que atinge ao menos 12 Estados no país.

O fechamento, que ocorreu pelo segundo dia seguido, tem o apoio dos empresários do agronegócio e do comércio local.

As paralisações de caminhoneiros começaram na última quarta (18) e já afetaram a produção na indústria e na agricultura do país. Os motoristas reivindicam queda nos preços do diesel e pedágios e aumento do valor pago no frete.

Desde a manhã de terça-feira, os manifestantes impediram a passagem de caminhões nas três saídas da cidade: na BR-242 (com saídas para Barreiras e para o Estado do Tocantins), e na BR-020 (para Brasília). Segundo a Polícia Rodoviária Federal, veículos com cargas perecíveis, ônibus e carros de passeio foram liberados.

Na cidade, que se denomina como "capital do agronegócio", o transporte da produção agrícola e de mercadorias é exclusivamente rodoviário. "Há um descaso com os caminhoneiros, que são um galho da árvore muito importante do setor produtivo", disse Vanir Kohl, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Luís Eduardo Magalhães.

Sobre o preço do frete, Kohl defende que o agronegócio não tem condições de pagar mais. "Nos dois últimos anos caiu o preço de todas as commodities, não temos como aumentar o valor pago ao caminhoneiro", disse.

Presidente do sindicato rural do município vizinho de Barreiras, Moisés Schimdt, salienta que começa nesta semana a colheita da safra de soja, de 1,46 milhões de hectares –a expectativa é de colher 4,8 milhões de toneladas do grão. "Não temos como armazenar essa quantidade. Se a greve não acabar teremos problemas seríssimos, com perdas muito significativas, porque é perecível, estraga", afirmou.

A Associação Comercial e Empresarial de Luís Eduardo Magalhães e a Câmara de Dirigentes Lojistas também publicaram notas defendendo as manifestações. A prefeitura do município afirma que, com apenas dois dias de paralisação nas rodovias, supermercados e postos de combustível ainda não sofrem com desabastecimento e a rotina dos serviços públicos segue normal.

  Editoria de Arte/Folhapress  
 

RIQUEZA DO CAMPO

Com PIB de R$ 3,6 bilhões, oitavo maior do Estado, Luís Eduardo Magalhães experimentou um crescimento econômico em dez anos de 462%, impulsionado pelo cultivo de grãos e pela agroindústria instalada num parque que reúne cerca de 50 empresas.

A cidade é a sede administrativa do agronegócio da região oeste baiana, que tem área plantada de 2,2 milhões de hectares –é o quinto maior produtor de soja do Brasil e o segundo maior produtor de algodão.

No Centro Industrial do Cerrado, onde a principal atividade é o beneficiamento da produção agrícola, está a maior esmagadora de soja da América Latina, da Bunge, e grandes exportadoras, como a Louis Dreyfus. 

  Mauro Zafalon - 3.jun.2011/Folhapress  
Produção de algodão em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia
Produção de algodão em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia
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Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas + Folha

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