Forte exportação de soja, milho, arroz e feijão faz preços explodirem e traz de volta a ameaça da inflação

Publicado em 05/09/2020 07:57 e atualizado em 06/09/2020 19:17 11434 exibições
Exportação aquecida de grãos pode provocar crise na agroindústria, alerta a Federação da Agricultura e Pecuária de Sta. Catarina (Faesc)

 É uma situação contraditória. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do planeta, mas, em razão da exportação acentuada de grãos, terá que importar essa mesma matéria-prima (soja, milho e arroz) – pagando preços maiores – para manter setores essenciais do agronegócio, como o seu gigantesco parque agroindustrial.

“Parece um contrassenso”, mostra o vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC) Enori Barbieri. “Estamos exportando grãos e importando esses mesmos grãos por preços maiores para produzirmos carnes e outros alimentos”.

O ponto central dessa situação é que falta inteligência agrícola, pois o Brasil exporta comodities, beneficia os concorrentes no mercado mundial da proteína animal e ainda tem que comprar de outros países o que produz em abundância.

O caso mais emblemático é da soja. O Brasil é o maior produtor mundial, mas por questões de falta de planejamento e má administração, terá que importar esse grão para alimentar as cadeias produtivas da avicultura e da suinocultura e o sistema agroindustrial.

Ao atingir, neste ano, 123 milhões de toneladas e ultrapassar a potência norte-americana, o País tornou-se também o maior exportador de soja. Foram comercializadas para o exterior 80 milhões de toneladas da safra 2019/2020, das quais 60 milhões já foram embarcadas. O mercado está tão aquecido que 60% da safra brasileira 2020/2021 já está vendida no mercado internacional.

Os preços da soja expressam a que estágio chegou a valorização da oleaginosa. No início da colheita, em fevereiro, a saca de 60 kg estava sendo negociada com o produtor a R$ 85,00 mas, atualmente, está cotada no mercado interno a R$ 130,00.

As agroindústrias, as integradoras e os criadores já sabem que terão que importar soja, provavelmente dos Estados Unidos. Também já sabem que a soja estrangeira custará R$ 150,00 no porto, acrescentando-se a isso o custo da internalização do produto no território nacional. “Pela primeira vez na história recente do agronegócio brasileiro, o preço praticado no interior do Brasil estará acima da Bolsa de Chicago em razão da acentuada escassez do produto, ironicamente, na casa do maior produtor e exportador mundial”, assinala Barbieri.

O farelo de soja, obviamente, acompanha essa escalada. A tonelada já está sendo comercializada acima de R$ 2.000,00.

MILHO e ARROZ

A situação do milho é muito idêntica à da soja. O planeta produz 1,1 bilhão de toneladas, estando a liderança com Estados Unidos (370 milhões de toneladas), o segundo lugar com a China (250 milhões), a terceira posição com o Brasil (100 milhões) e a quarta com Argentina (50 milhões).

A produção nacional da safra e safrinha colhidas em 2020 foi de 100 milhões de toneladas, para um consumo interno de 70 milhões de toneladas e exportação de 30 milhões de toneladas de milho. O preço pago ao produtor está em torno de R$ 50,00 a saca de 60 kg, mas o mercado prevê que subirá para R$ 65,00. Porém, já foram embarcadas 18 milhões de toneladas e os bons preços internacionais estão direcionando boa parte da produção para a exportação, como já ocorreu no ano passado.

Prevendo escassez, grandes consumidores – especialmente a indústria da carne e as cadeias de aves e suínos – já estão importando. O preço do milho para retirar no porto é de R$ 71,00 mais a operação logística de internalização.

A situação do milho (e também do farelo de soja) encarecerá o custo das rações para aves e suínos, aumentando o custo de produção dessas proteínas.

Mais curiosa é a situação do arroz, um dos cereais mais consumidos do mundo. O consumo mundial na safra 2018/2019 foi de 494 milhões de toneladas. O maior produtor é a China e o Brasil fica em 11º lugar.

Dessa vez o Brasil terá que importar, fato que ocorreu pouquíssimas vezes na história. No ano passado, o País colheu 12 milhões de toneladas, mas, os preços ruins dos anos anteriores e a seca deste ano levaram à redução da área plantada (houve migração para soja) e a safra baixou para 10,4 milhões de toneladas.

Além da produção menor, a situação cambial estimulou a exportação de arroz industrializado para o México. No início da colheita, o produtor recebia R$ 45,00 pela saca de 50 kg, preço que evoluiu para R$ 100,00/saca. Entretanto, o mercado externo pagou melhor, razão pela qual o arroz brasileiro foi para o mercado mundial.

Resultado: faltou produto no mercado doméstico e será necessário importar porque a próxima safra só entra em fevereiro de 2021. Atentas a isso, as indústrias pedem a suspensão do imposto de importação (8%), mas os arrozeiros brigam pela manutenção do tributo.

Barbieri analisa que uma das explicações para acentuada valorização dos grãos é o abandono da política de estoques reguladores. Antigamente, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mantinha estoques para intervir no mercado quando surgia alguma distorção grave nas relações concorrenciais. Nos últimos anos, a Conab somente participa quando os produtos primários são transacionados com nível abaixo dos preços mínimos – o que tornou-se difícil de ocorrer até mesmo porque os preços mínimos sempre estão desatualizados.

O vice-presidente da FAESC lamenta que a maior parcela dos ganhos não fique no campo. “Infelizmente, esses produtos agrícolas não estão mais na mão dos produtores rurais, portanto, quem está ficando com a maior parte desses ganhos são as tradings”.

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Fonte:
FAESC

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4 comentários

  • Cassiano aozane Vila nova do sul - RS

    Buenas, é isso mesmo.... e podem botar nesse balaio os carteis frigoríficos que combinam preço e exportaram a rodo..., e com os preços de arrasto nos últimos quatro anos, a crise forçou principalmente os pequenos pecuaristas a arrendarem suas terras pra plantadores de soja pra sobreviverem.

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    • Rodrigo Polo Pires Balneário Camboriú - SC

      Sr. Cassiano, se formos acatar a idéia de que a alta dos preços foi devido à exportação, vão querer criar mecanismos para impedir que se exporte. Pois bem, para mim a culpa é do código florestal do comunista Aldo Rebelo, esse nulidade, como todos os que acataram essa porcaria..., a culpa é do cipoal tributário que não permite a industrialização dentro das propriedades..., hoje no Brasil só quem lambe a bunda de politico tem acesso a financiamentos bilionários para tocar empresas inviáveis..., veja a BRF foods, onde os fundos de pensão colocaram dinheiro e ganharam muito, enquanto o BNDES acoitava os prejuizos e passava para o pobre. A culpa disso tudo é a desvalorização cambial, provocada pelo custo da máquina pública, milhões de inúteis formados pelo sistema Paulo Freire, que não sabem fazer nada e vivem como nababos às custas da pobreza do povo brasileiro.

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    • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

      Sr. CASSIANO, embora o Brasil seja o principal exportador de commodities agrícolas, não temos um Plano de Politica Agrícola. Tudo se resume aos Planos Safras que o governo lança todo ano. ... Ou seja, é uma "biruta de aeroporto" o rumo a ser seguido... A cada ano há uma "surpresa" ... Como viver nessa condição? ... Quanto aos empresários campeões que o petismo favoreceu, isto é uma peste que vai nos afetar por décadas pois, ela atingiu a metástase... Ou seja, está presente em todos rios e córregos do país. A JBS é a maior processadora e distribuidora de proteína animal do planeta. ... É com esse tipo de peste que temos que conviver.... INFELIZMENTE !!!

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    • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

      Agora, para encerrar... Veja como o dinheiro é uma coisa que transforma as pessoas... Foram vários ex-ministros e, ex-presidente do Banco Central do petismo que deram assessorias a esses frigoríficos para transformá-los em "pestes benignas", ou seja ela não mata o hospedeiro mas os mantem "doente" por longo tempo... É um parasitismo quase que eterno ...

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    • Rodrigo Polo Pires Balneário Camboriú - SC

      Sr. Rensi, a Teresa Cristina está lá como lobista dos politicos da bancada ruralista. Aliás, fui acusado de dizer que os produtores rurais olham somente para o próprio umbigo, o que é mentira..., disse e digo sempre que os politicos da bancada ruralista, que são os que dividem e decidem para quem vai o dinheiro do plano safra, são lambe-bunda dos socialistas e comunistas, e não representam os anseios dos produtores rurais.

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    • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

      Infelizmente vivemos sob esse regime de democracia representativa depois de passar por uma era de 20 anos sem eleições e de redemocratização, onde os parasitas viviam disfarçados sugando a máquina do estado, e quando redemocratizamos nosso país aí eles MATARAM A FOME ... Veja que é uma estória atrás da outra de roubos ... cheque fantasma, anões do orçamento, compra da reeleição, mensalão, petrolão ... & ... agora o COVIDÃO ... ISSO NÃO VAI PARAR NUNCA !!!

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    • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

      Estava relembrando como esse setor vive ao longo dos tempos ... Alguém chegou a vender gado para abate e receber como pagamento uma NOTA PROMISSÓRIA RURAL com vencimento para 120 DIAS... Pois é Frigorifico BORDON, KAIOWA e muitos outros tinham esse método para pagar seus credores que lhe forneciam a matéria-prima. ... Com um detalhe... Se você precisasse do dinheiro à vista, o Banco fazia o desconto daquele papel ... O juros cobrado era você que pagava no ato ... & ... VOCÊ assinava na costa do papel ... Se o frigorifico não pagasse VOCÊ ERA O AVALISTA ... & ... ERA O DEVEDOR !!! Imagine um frigorifico que mata 1000 cabeças/dia... Em 120 dias tinha um "giro" de 120 MIL cabeças... Aí pedia uma concordata e ficava com um prazo para pagar em dois anos ... ESSA ERA A PRAXE DA ÉPOCA !!!

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  • Gilberto Rossetto Brianorte - MT

    Mas onde estavam esses compradores nacionais? Dormindo em berço esplendido? Esperando o preço cair? Fazendo pressão para o produtor entregar sua produção por uma merreca?!!!... Pois é, os compradores internacionais, sabedores que o alimento é questão de segurança de um pais, se anteciparam e pagaram o que vale... Agora, sejam honestos e digam: nós não somos organizados e dormimos no ponto e colocamos o consumidor brasileiro no prejuízo (ou no risco).

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    • Rodrigo Polo Pires Balneário Camboriú - SC

      Sr. Gilberto Rosseto, o presidente Bolsonaro cometeu um grande erro ao pedir patriotismo aos empresários dos supermercados..., Roberto Campos dizia que se inflação é aumento generalizado de preços, então a culpa é dos empresários, se por outro lado, inflação é expansão monetária, a culpa é do governo. Essa é a diferença.

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  • Telmo Heinen Formosa - GO

    Tiveram 20 anos para aprender a fazer HEDGE mas se negam a remunerar bem os profissionais que dominam esta arte... bem feito. Como diz o Miguelão, "Tem que tomar para aprender"....

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  • Tiago Pandolfo Balsas - MA

    Quando há um aumento expressivo dos preços as cadeias produtivas afetadas falam aos quatro cantos que precisamos de estoque regulador, que precisamos baixar o imposto de importação, que precisamos isso e precisamos aquilo. Mas quando a soja estava R$ 60,00/saca e precisamos vender para pagar as contas mesmo dando prejuízo, não vi essa cadeia querendo pagar mais. Quando em 2017 o milho caiu a R$ 20,00/saca e também deu prejuízo, novamente não vi essa cadeia querendo pagar ao menos o custo de produção. Mas agora que viram que as estimativas da CONAB sempre foram FURADAS e faltou o físico, querem que o governo intervenha no mercado... Hipócritas!!!. O mercado irá se regular na velha lei da oferta e demanda. Se estivessem pagando um pouco mais no milho já teriam levado bom volume e não precisariam importar pagando mais caro. Pau que dá em Chico também deveria dar em Francisco!

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    • Daniel Vargeniak

      Não se preocupem, com o que eles ganharam com milho no preço baixo dá para comprar milho a R$ 100,00 e nem mexe nas sobras...

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