Fertilizantes continuam como "preocupação número 1" do comércio global, apesar de melhora em Ormuz

Publicado em 06/04/2026 10:55
Fluxo de navios, no fim de semana, registrou sua máxima desde o começo do conflito, mas é apenas 10% do normal
Descarregamento de fertilizantes
Descarregamento de fertilizantes - Foto: Adrian Sherratt / Alamy Stock Photo

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Apesar de Irã e Estados Unidos ainda seguirem desalinhados sobre um acordo de paz ou a possibilidade de um cessar-fogo, o fluxo de navios no Estreito de Ormuz aumentou de forma significativa e alcançou sua máxima em semanas desde que o conflito se iniciou em 28 de fevereiro. Somente neste final de semana, foram registrados 21 embarcações, a maioria ainda iraniana. Um dos destaques, porém, foi um navio carregado com petróleo iraquiano que, segundo o Irã, se deu por uma exceção concedida pelo país ao "Iraque Irmão". A Índia já conseguiu atravessar oito navios, e outros quatro - dois com destino à China e dois ao Japão - também conseguiram fazer a travessia. 

Em tempos "normais", o número de navios cruzando o estreito passava de 135, em média, já que trata-se de uma das principais rotas globais do comércio marítimo. Assim, especialistas seguem em alerta, reforçando que apesar das melhoras que têm sido registradas, o cenário permanece de disrupção e abastecimento comprometido, uma vez que "a passagem ainda está à mercê do Irã e a situação pode mudar a qualquer momento se o conflito se intensificar", como explica à agência internacional de notícias Reuters, o analista  sênior de petróleo bruto da Kpler Ltd., em Singapura, Muyu Xu. 

Desde que os ataques começaram, o Irã trabalha em uma legislação que amplia e regulamenta seu controle à passagem, formalizando o pagamento de algumas taxas que está em vigor há algumas semanas. E autoridades iranianas vem afirmando que o estreito será totalmente reaberto apenas depois que as taxas cobradas dos navios em trânsito forem suficientes para cobrir os danos causados ​​pela guerra, ainda de acordo com a Bloomberg.

Embora o fluxo de petróleo que passa pelo estreito de Ormuz seja um dos que mais preocupa, aproximadamente um terço dos fertilizantes do mundo passa por esta rota e, com o Hemisfério Norte prestes a começar o plantio de suas safras de verão, o choque continua chegando diretamente ao agronegócio. E assim, mais uma semana se inicia com os riscos direcionando os mercados. O resultado é já conhecido: pressão inflacionária, contínua e crescente volatilidade e preços testando novos picos de forma recorrente. Insumos, matérias-primas e produtos acabados. 

"Os riscos geopolíticos afetam principalmente os mercados de energia e de metais preciosos e, recentemente, tornaram-se importantes também para as commodities agrícolas", traz uma análise do. O gráfico abaixo ilustra o impacto dos riscos e choques geopolíticos que as commodities agrícolas vêm sentindo de 2001 a 2023, deixando evidente como se intensificou muito desde a pandemia, em 2019, além de outros fatores como as guerras comerciais e a invasão da Rússia na Ucrânia. 

Gráficos choque Oriente Médio (2)
Gráfico: CEPR Vox EU

De acordo com a OMC (Organização Mundial do Comércio), "os fertilizantes são a preocupação número um hoje", em função do cenário de rompimento da logística global. Afinal, além do transporte destes adubos, sua produção também está bastante comprometido, uma vez que a região dos conflitos é uma das mais importantes do globo, abastecendo todo o planeta. No Catar, por exmplo, a maior exportadora global de ureia - a QAFCO (The Qatar Fertiliser Company) - está fechada. E a capital, Doha, não conta com uma rota alternativa para o escoamento deste fertilizante. 

Depois da Rússia, do Egito e da Arábia Saudita, o Irã é o quarto maior fabricante do adubo do mundo. Atualmente, cerca de metade da produção mundial de alimentos depende da produção de fertilizantes nitrogenados, como ilustra o gráfico a seguir, do The Guardian, mostrando a dependência de algumas nações da matéria-prima vinda do Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Irã, Iraque e Bahrein.

Gráficos choque Oriente Médio (1)
Gráfico: The Guardian

Com estas safras prestes a serem iniciadas, a corrida pelos fertilizantes também é contínua neste momento, o que segue encarecendo ainda mais os produtos. Afinal, o problema além de logístico passa a ser também de volume disponível destes adubos. "Os americanos pagaram mais caro, temos uma corrida gigantesca por ureia na Austrália, já que dois terços do que eles usam vinha do Oriente Médio, eles não têm e estão indo para outros lugares, pagando o que for necessário. Outro país que deve sofrer também é a Índia", explica Jeferson Souza, analista de fertilizantes da Agrinvest Commodities. 

E com os efeitos já sendo sentidos também pelo produtor brasileiro, Souza lembra ainda que a concorrência com a Índia, segundo maior consumidor mundial de fertilizantes, em que boa parte de sua produção é subsidiada, o que deixa tudo ainda mais complexo. 

NO BRASIL, DESCONFIANÇAS E INSEGURANÇA CONTINUAM CRESCENDO

"Para o Brasil, são inúmeras dúvidas agora. Será que teremos fertilizantes chegando em agosto com a China fora do mercado? Ou da Rússia com toda essa história? Não sabemos. Qual será o tamanho da queda das entregas, será que ela vai balizar com a oferta? Também não sabemos. São pontos que trazem para o produtor muitas desconfianças", explicao analista da Agrinvest. 

E com isso, as compras pelo produtor brasileiro - que está com crise de 2022 ainda muito viva na memória, em função do conflito Rússia x Ucrânia - continuam bastante lentas, testando seus mais baixos níveis em cinco anos. O momento, entretanto, é diferente e ainda mais desafiador do que se observou há seis anos. São conflitos acontecendo concomitantemente e mais a China fora do mercado de exportações de fertilizantes - além da Rússia para alguns grupos -, com o foco do governo na garantia da oferta para seus produtores locais. 

O especialista afirma também que produtores de todas as culturas já estão em alerta e revisitando suas estratrégias de adubação para a próxima safra. "Estamos falando de todas as culturas, porque é um baque muito forte. Tivemos um aumento de 50% da ureia em um mês, é um aumento vertiginoso para quem precisa tomar decisão. Vamos ter uma queda muito grande de área no Rio Grande do Sul porque é uma cultura que não expressa aumento e o preço da ureia está nas alturas. 

ATÉ QUANTO E QUANDO OS PREÇOS PODEM SUBIR?

Ao The Guardian, Chris Lawson, vice-presidente de inteligência de mercado e preços da CRU, explica que o quanto e até quando os preços dos fertilizantes deverão subir depende, quase essencialmente, ao futuro do Estreito de Ormuz.  "O mercado de fertilizantes está paralisado, aguardando o fim do conflito. A interrupção no fornecimento foi grave e as pessoas ainda estão correndo para conseguir o produto, mas não foi tão ruim quanto poderia ter sido", diz.

Em evidência agora estão não só as questões de transporte destes fertilizantes, mas também da capacidade de armazenamento das fábricas no mundo todo - que estão atingindo suas máximas - e também da paralisação de algumas delas em pontos estratégicos, em especial as plantas no Oriente Médio, e o tempo que levarão para reestabelecer suas atividades. Além disso, países como a Índia, por exemplo, apesar de contar com uma produção considerável de fertilizantes nitrogenados, depende da importação de GNL (gás natural liquefeito) para produzi-los, e a maior parte deste produto vem de países do Oriente Médio e precisaria passar por Ormuz.

"Nós estamos em um momento de compra. O produtor, nesta época do ano, tradicionalmente, terminou de colher a soja, termina de plantar o milho, ele vai sentar e fazer o planejamento de 2026/27 e se choca com aumentos absurdos, as relações de troca nas máximas históricas. É isso que nos preocupa e eu venho caracterizando esta crise atual como mais complexa do que a que foi a de 2022. Em 2022, quando se noticiava os preços da soja, do milho, do trigo, se falava em aumento. Hoje, não se fala aumento. Mas, do lado do adubo, são falamos de alta. 

Com informações da Bloomberg, The Guardian, CEPR Vox EU, Oxoford Economics

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Por:
Carla Mendes | Instagram @jornalistacarlamendes
Fonte:
Notícias Agrícolas

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