Bem-estar animal redefine os rumos da avicultura brasileira e ganha peso na disputa pelos mercados globais

Publicado em 01/07/2026 11:27 e atualizado em 01/07/2026 14:06
Relatório aponta que transparência, planejamento e compromissos públicos podem se tornar decisivos para manter a competitividade da carne de frango produzida no Brasil.

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O bem-estar animal deixou de ser uma pauta restrita às discussões sobre sustentabilidade para ocupar posição estratégica na avicultura brasileira. A avaliação é do Relatório Observatório do Frango, elaborado pela Alianima, que identifica uma mudança no cenário internacional: compradores, investidores e consumidores passaram a exigir mais transparência sobre as condições de criação dos animais, transformando o tema em um diferencial competitivo para empresas exportadoras.

O desafio surge em um momento de protagonismo do Brasil no mercado mundial. Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), reunidos pelo relatório, mostram que o país produziu mais de 15 milhões de toneladas de carne de frango em 2025, mantendo a liderança global nas exportações e a terceira colocação entre os maiores produtores. Ao mesmo tempo, acordos comerciais, exigências ambientais e critérios de governança ampliam a pressão por sistemas produtivos capazes de demonstrar evolução também no bem-estar das aves.

Mais do que avaliar práticas dentro das granjas, o estudo chama atenção para a necessidade de transformar iniciativas isoladas em compromissos públicos, com metas, cronogramas e prestação de contas. Segundo o Observatório do Frango, essa mudança pode reduzir riscos regulatórios, fortalecer a reputação da cadeia produtiva e ampliar a previsibilidade diante das novas exigências do comércio internacional.

Eficiência já não basta para garantir competitividade

Nas últimas décadas, a avicultura brasileira construiu uma das cadeias produtivas mais eficientes do mundo. Investimentos em genética, biosseguridade, automação e manejo elevaram a produtividade e consolidaram o país como referência na oferta de proteína animal. Entretanto, o documento destaca que a evolução tecnológica ocorreu paralelamente à redução de características tradicionalmente associadas ao bem-estar das aves, como menor densidade de alojamento, acesso à iluminação natural e ambientes que favorecem comportamentos naturais.

A publicação observa que, enquanto a produção avançava em eficiência, pesquisas internacionais passaram a apontar esses fatores como componentes importantes para melhorar a qualidade de vida dos animais. Para a Alianima, essa mudança de perspectiva exige uma nova etapa de desenvolvimento da avicultura, capaz de equilibrar desempenho produtivo, sustentabilidade e responsabilidade corporativa.

Esse movimento, segundo o relatório, também responde às transformações do mercado. O fortalecimento de critérios ligados ao ESG e o avanço de políticas de bem-estar animal em diferentes países indicam que competitividade não dependerá apenas de custo e escala, mas também da capacidade das empresas de demonstrar evolução contínua em suas práticas.

“Em um mundo em que a informação circula com muita rapidez, transparência constitui um requisito importante para o valor das marcas e da reputação corporativa, ativos intangíveis capazes de alavancar o posicionamento estratégico”, afirma Celso Funcia Lemme, professor associado do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo publicado no Relatório Observatório do Frango.

Transparência é apontada como principal desafio

Para entender como a indústria brasileira tem comunicado essa agenda, o Observatório do Frango analisou informações públicas das principais empresas produtoras do país, utilizando como referência o ranking da WATT Poultry. O levantamento identificou iniciativas relacionadas à biosseguridade, capacitação, manejo e certificações, mas verificou que a maior parte das organizações ainda não apresenta compromissos estruturados com metas verificáveis e cronogramas de implementação.

Na avaliação do relatório, essa lacuna limita a capacidade do setor de demonstrar sua evolução aos mercados compradores. A publicação ressalta que a adoção de políticas públicas de bem-estar animal não significa apenas atender expectativas da sociedade, mas construir mecanismos capazes de orientar investimentos, reduzir incertezas e fortalecer a credibilidade da cadeia produtiva.

Como alternativa, o estudo propõe uma implementação gradual das mudanças, priorizando melhorias em manejo, ambiência, qualidade da cama, iluminação, enriquecimento ambiental e monitoramento das condições dos aviários. Em etapas posteriores, recomenda ampliar pesquisas sobre genética e sistemas de insensibilização no abate, respeitando as condições técnicas da produção nacional.

“O que distingue uma empresa que lidera a agenda de bem-estar é o nível de integração do tema ao negócio. Empresas líderes incorporam o bem-estar à estratégia corporativa, com metas de melhoria definidas, avaliação contínua e transparência sobre avanços”, destaca Elisa Tjarnstrom, diretora executiva da COBEA (Colaboração Brasileira de Bem-Estar Animal), também em declaração publicada no Relatório Observatório do Frango.

A conclusão do estudo é que a avicultura brasileira reúne capacidade técnica, escala produtiva e experiência em gestão para liderar esse processo. O principal desafio, segundo a publicação, não está na adoção imediata de padrões internacionais, mas na construção de uma estratégia comum que transforme boas práticas em compromissos públicos consistentes. Em um mercado cada vez mais atento à origem dos alimentos, avançar nessa direção pode representar não apenas uma resposta às novas exigências globais, mas uma oportunidade para fortalecer a liderança brasileira na produção e exportação de carne de frango.

 

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Por:
Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

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