Café do Brasil enfrenta desafios do El Niño, mas safras estão mais resistentes

Publicado em 13/07/2026 11:14

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Por Victoria Pacheco

SÃO PAULO, 13 Jul (Reuters) - O El Niño pode reduzir a safra recorde de café prevista para o Brasil em até um quinto, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), já que o calor excessivo e as chuvas irregulares ameaçam a produção.

Para este ano, a estatal Conab previu uma produção histórica de 66,7 milhões de sacas de 60 kg de grãos de arábica e canéforas (conilon/robusta).

Mas a deterioração das condições climáticas em meio ao ciclo do El Niño pode reduzir drasticamente a produção deste ano em relação às expectativas, disse o diretor executivo da Abic, Celírio Inácio da Silva.

"Agora se fala em uma quebra de 15% a 20%, o que, em anos normais, estaria dentro do esperado. Mas, no cenário atual, uma notícia dessas é muito ruim", disse ele em entrevista.

Apesar das perspectivas climáticas sombrias, os cafeicultores estão mais bem preparados do que durante episódios anteriores do El Niño, graças aos avanços tecnológicos que permitem uma safra mais resistente às variações climáticas.

"Nós crescemos em tecnologia e hoje somos capazes de plantar e colher com mais eficiência", disse Silva.

Nos últimos anos, os cafeicultores reforçaram sua capacidade de mitigar os riscos climáticos por meio da rápida expansão dos sistemas de irrigação, investindo fortemente nessa tecnologia para reduzir sua dependência das chuvas cada vez mais irregulares, impulsionadas pelas mudanças climáticas.

Mesmo assim, espera-se que o El Niño perturbe o ciclo biológico da safra, especialmente durante o período de floração no segundo semestre de 2026. Calor excessivo e chuvas irregulares podem levar a uma floração desigual e malsucedida, segundo especialistas.

"A maturação irregular gera problemas de qualidade e torna a colheita mais desafiadora", disse Wellis Caixeta, gerente de compras de café da cooperativa Expocacer, com sede em Minas Gerais.

O El Niño de 2023/24, combinado com ondas de calor e chuvas irregulares, reduziu a safra de café do Brasil em 2024 de uma previsão inicial do governo de 58,8 milhões para 54,2 milhões de sacas. Apesar do ciclo bienal positivo do arábica, a produção cresceu apenas 0,2%, enquanto a produtividade do conilon caiu 5,9%.

O El Niño já pode explicar algumas anomalias, como as chuvas incomuns no Sudeste do Brasil no mês passado.

A Expocacer estima que chuvas superiores a 50 milímetros nas regiões produtoras de arábica, há cerca de 40 dias, atrasaram a colheita e fizeram com que uma quantidade significativa de frutos de café caísse no chão, prejudicando a qualidade dos grãos.

O Espírito Santo, maior produtor brasileiro de café canéfora, também enfrentou condições climáticas irregulares este ano, com intervalos mais longos entre as chuvas e chuvas mais curtas e intensas, disse Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel, a maior cooperativa de canéforas do Brasil.

Os produtores do Estado temem que o El Niño possa prolongar os períodos de seca e o calor excessivo até janeiro de 2027, prejudicando o enchimento dos grãos, disse Bastianello.

Embora se espere que a produção de conilon no Estado diminua em 15% este ano devido ao ciclo bienal natural da variedade -- que alterna entre anos de alta e baixa produtividade --, Bastianello disse que seria muito cedo para prever o impacto do El Niño em 2027.

"O calor é o principal risco para uma quebra acentuada da safra. A partir de 27°C, o canéfora reduz o metabolismo e, aos 35°C, ele o suspende. O prejuízo disso costuma ser maior do que o da própria falta d'água", acrescentou ele.

As condições têm sido mais favoráveis no norte do Brasil, onde as temperaturas e as chuvas permaneceram, em grande parte, dentro das normas sazonais neste ano. Em Rondônia, os produtores esperam uma safra recorde de 3 milhões de sacas, acima da previsão da Conab, de 2,77 milhões de sacas.

É improvável que o calor e a seca associados ao El Niño tenham o mesmo impacto na safra de robusta de Rondônia que nas regiões produtoras de arábica, disse Juan Travain, presidente da Caferon, associação de cafeicultores da região da Amazônia.

"O café sofre muito com a oscilação térmica, mas praticamente 100% das áreas de plantação de robusta são irrigadas. Por outro lado, muitas lavouras de arábica ainda não contam com irrigação", disse ele.

(Reportagem de Victoria Pacheco)

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Por:
Reuters
Fonte:
Reuters

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