Petróleo dispara no início da safra e acende alerta para custos, crédito e abastecimento no agro

Impacto direto ainda não chegou ao produtor, mas permanência das cotações elevadas pode pressionar diesel, insumos importados e juros
Publicado em 16/09/2026 08:44

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A recente escalada dos preços do petróleo acontece justamente no início da safra brasileira 2026/27 e amplia a atenção do agronegócio para uma possível nova rodada de pressão sobre custos. O impacto direto dessas altas ainda não chegou à planilha do produtor, mas a permanência das cotações em níveis elevados pode atingir combustíveis, insumos importados, logística, crédito e até a segurança de abastecimento.

Nos últimos dias, o petróleo chegou a operar acima de US$ 110 por barril diante do agravamento das tensões no Oriente Médio e das dificuldades envolvendo importantes rotas de escoamento. O movimento ocorre enquanto o Brasil avança no plantio da safra de verão e se prepara para a segunda safra de 2027.

Em entrevista ao Notícias Agrícolas, Enio Fernandes, analistas da Terra Agronegócios, destacou que o novo choque ainda é recente demais para ter sido repassado de forma mais ampla ao produtor brasileiro.

“Esses preços ainda não chegaram aqui porque essa alta, essa nova escalada, tem pouco tempo. Mas, se isso persistir, mesmo com a ajuda governamental que o governo está dando ao diesel e à gasolina, a situação começa a ficar preocupante”, afirmou.

Fernandes ressalta que o risco não se limita ao combustível utilizado nas máquinas agrícolas. Uma permanência do petróleo em níveis elevados pode pressionar custos de diferentes produtos utilizados pela agricultura, além de aumentar despesas logísticas e reforçar pressões inflacionárias.

“Não é só o óleo diesel. Muitos produtos que são matérias-primas para a agricultura, que ainda precisam ser adquiridos, vão ter seu custo elevado”, destacou.

O cenário ganha relevância porque parte dos produtores inicia a nova temporada com menor disponibilidade de capital, crédito caro e necessidade de maior seletividade nos investimentos das lavouras.

No mercado de fertilizantes, alguns sinais de pressão já aparecem, embora não seja possível atribuí-los exclusivamente à recente disparada do petróleo.

Levantamento do Itaú BBA mostrou a ureia negociada a US$ 468 por tonelada CFR Brasil e o sulfato de amônio a US$ 242,50 por tonelada. Ao mesmo tempo, o MAP recuava para US$ 838 por tonelada diante de uma demanda doméstica mais contida, enquanto o KCl permanecia em um cenário mais confortável, a US$ 365 por tonelada.

O banco destacou que a alta do petróleo não implica, por si só, elevação proporcional dos preços dos nitrogenados. A principal preocupação está relacionada ao aumento da vulnerabilidade da cadeia a interrupções logísticas, fretes mais elevados e eventuais restrições de oferta.

A exposição ganha peso porque uma parcela relevante das compras de fertilizantes para a segunda safra de milho de 2027 ainda permanece aberta. No início de setembro, levantamento apresentado ao Notícias Agrícolas por Jeferson Souza, analista de fertilizantes da Agrinvest, indicava que aproximadamente 45% das necessidades da safrinha haviam sido adquiridas no Brasil, deixando cerca de 55% ainda por contratar.

A situação variava entre as regiões, com Mato Grosso mais avançado nas aquisições e estados como Goiás, além de áreas do MATOPIBA, com participação maior das necessidades ainda em aberto.

Apesar da menor entrada de fertilizantes observada recentemente, o mercado não apontava falta generalizada de produto no Brasil. O risco, portanto, está menos em uma escassez já instalada e mais na possibilidade de que uma crise prolongada altere custos, fretes, prazos de entrega e estratégias de compra.

A logística também entra no radar em um momento no qual os custos rodoviários já vinham pressionados por fatores domésticos.

O preço médio do frete rodoviário no Brasil encerrou agosto em R$ 8,72 por quilômetro, alta de 1,04% frente a julho, segundo o Índice de Frete Rodoviário da Edenred. O movimento ocorreu mesmo com o diesel S-10 recuando 0,70% no período, para R$ 7,05 por litro.

A alta de agosto, portanto, não teve relação com a atual disparada do petróleo. Foi influenciada principalmente por questões regulatórias e pelo aumento sazonal da demanda do agronegócio, especialmente com o escoamento da segunda safra de milho.

O dado mostra, porém, que uma eventual pressão adicional sobre os combustíveis encontraria uma estrutura logística que já vinha registrando aumento de custos.

Além do preço, Fernandes chama atenção para o risco de abastecimento caso a crise se prolongue. “Aí não é problema de eu pagar caro no produto ou não. As importações têm que continuar para eu ter segurança de suprimento desse produto”, afirmou.

A dependência brasileira de volumes importados de diesel aumenta a sensibilidade a choques externos justamente em períodos de maior movimentação das máquinas no campo e de transporte da produção.

Outro canal de transmissão destacado por Fernandes é financeiro. Petróleo persistentemente elevado tende a reforçar pressões inflacionárias no exterior e dificultar quedas mais fortes das taxas de juros, ampliando o custo de capital para uma atividade já bastante dependente de financiamento.

“Um dos principais custos do produtor hoje é o serviço da dívida, é o juro que ele paga para captar recurso no banco. Se o juro sobe lá fora, é muito difícil cair muito aqui dentro no Brasil”, afirmou.

Por enquanto, porém, a leitura permanece de risco e não de uma nova rodada de custos já consolidada dentro das propriedades.

Fernandes lembra que parte do mercado ainda trabalha com a possibilidade de recuo das cotações do petróleo nos próximos meses. Se isso acontecer rapidamente, a transmissão da atual escalada para o produtor brasileiro pode ser limitada.

Se os preços permanecerem próximos dos patamares atuais, o cenário muda. Nesse caso, o campo pode passar a enfrentar simultaneamente maior pressão sobre energia e insumos, aumento dos custos logísticos, maior risco sobre o abastecimento de produtos importados e dificuldade adicional para redução do custo do crédito.

Com a safra 2026/27 apenas começando, os próximos sinais estarão justamente nas cotações dos insumos, nos preços dos combustíveis, nos fretes e nas condições financeiras enfrentadas pelos produtores. São esses indicadores que mostrarão se a atual disparada do petróleo ficará restrita ao mercado internacional ou começará, de fato, a entrar na planilha da nova temporada.

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