Farelo de algodão avança na nutrição animal, mas exige critério para não virar problema no campo
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A escalada nos custos da alimentação animal, puxada pela valorização do milho e do farelo de soja, tem levado produtores rurais a buscar alternativas para manter a rentabilidade dos sistemas produtivos. Entre elas, o farelo de algodão vem ganhando espaço, principalmente na alimentação de ruminantes. Pesquisadores da Embrapa alertam, porém, que o coproduto só se torna um aliado do produtor quando utilizado com manejo técnico e dentro de limites bem definidos.
De acordo com os zootecnistas e pesquisadores da Embrapa Manoel Francisco de Sousa e Frederico Olivieri Lisita, o maior uso do farelo de algodão está ligado à pressão crescente por fontes alternativas de proteína. A demanda por proteína animal, somada à competição dos grãos com a alimentação humana, estimula a busca por coprodutos do algodoeiro, como o farelo, a torta e o caroço.
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Segundo os pesquisadores, o farelo de algodão apresenta vantagens importantes do ponto de vista nutricional. O produto pode ter teores de proteína bruta que variam de 25% a mais de 45%, além de fornecer energia e fibra efetiva, especialmente para ruminantes. A possibilidade de processamento em diferentes níveis proteicos permite substituições parciais do farelo de soja em diversas formulações, o que amplia a flexibilidade nas dietas.
Outro fator que favorece o uso, conforme destacam Manoel e Frederico, é a logística. A expansão da produção de algodão no Mato Grosso e na Bahia gera maior oferta local de coprodutos, reduzindo custos de frete para polos de confinamento e sistemas intensivos nessas regiões.
Do ponto de vista técnico, os pesquisadores da Embrapa explicam que os ruminantes são os animais mais indicados para o uso do farelo de algodão. Bovinos, ovinos e caprinos conseguem detoxificar o gossipol no rúmen e aproveitar melhor a fibra do ingrediente. Por isso, o farelo tem sido utilizado em vacas em lactação, com reflexos positivos no teor de gordura do leite, em bovinos de corte confinados, em sistemas de recria e engorda a pasto e na terminação de ovinos e caprinos.
Para não ruminantes, como aves e suínos, os pesquisadores reforçam que o uso é mais restrito, mas possível em substituições parciais, desde que haja controle rigoroso do teor de gossipol e ajustes no balanço de aminoácidos essenciais.
No campo econômico, o consultor independete Pery Pasotti Pedro pondera que a comparação entre farelo de algodão, torta de algodão e farelo de soja não pode ser feita apenas com base no preço por tonelada. Segundo ele, o produtor precisa considerar proteína bruta, energia e matéria seca, além do desempenho esperado dos animais. Cada sistema produtivo, na prática, acaba exigindo uma planilha própria de cálculo.
Pasotti também chama atenção para a informalidade do mercado de farelo de algodão. Os negócios, muitas vezes feitos à vista ou de forma antecipada, dificultam a formação de estatísticas confiáveis e aumentam a incerteza para o produtor rural. Apesar disso, ele reconhece que o coproduto pode contribuir para a redução de custos, desde que inserido em um modelo de lucro máximo.
Enquanto os pesquisadores da Embrapa destacam o potencial técnico e nutricional do farelo, o consultor reforça que a decisão de uso deve estar alinhada à realidade econômica da propriedade. Não basta trocar um ingrediente por outro mais barato. É necessário considerar o custo total da dieta e o preço de venda da arroba, do leite ou do animal terminado.
Na visão de Pery Pasotti Pedro, os coprodutos do algodão ajudam a complementar a renda da fazenda, mas não são determinantes na decisão de plantio. A pluma continua sendo o principal fator econômico da cotonicultura. O caroço tem valor e, em alguns anos, pode apresentar resultado semelhante ao milho, mas ainda representa uma parcela menor da receita total quando comparado à fibra, especialmente em um cenário de preços historicamente baixos da pluma.
Apesar do potencial, os pesquisadores da Embrapa alertam que o uso do farelo de algodão exige cuidados técnicos rigorosos. O principal fator limitante é o gossipol, composto natural do algodoeiro que pode ser tóxico. Por isso, é essencial monitorar o teor de gossipol livre, principalmente em dietas para não ruminantes e categorias mais sensíveis.
Outro ponto de atenção destacado por Manoel e Francisco é o teor de lipídeos da dieta. Em ruminantes, a gordura total não deve ultrapassar 7% da matéria seca para não comprometer a fermentação ruminal. Como o farelo de algodão tem menor densidade energética que o milho, a formulação precisa ser ajustada para manter o desempenho animal.
A variedade nutricional do farelo também exige atenção. A composição pode diferenciar conforme o processamento industrial, no cultivo e a proporção de casca, o que torna indispensável a análise químico-bromatológica do lote antes do uso, além do monitoramento de umidade e da presença de toxinas potentes e perigosas produzidas por fungos.
O fornecimento deve ser feito de forma gradual, com período de adaptação, especialmente para animais jovens ou em início de lactação. Algumas categorias exigem restrições importantes, como pré-ruminantes, reprodutores e fêmeas prenhas em altos níveis de inclusão.
Na avaliação dos pesquisadores da Embrapa, o farelo de algodão tem potencial para se consolidar como estratégia de mercado no médio e longo prazo. Além do custo-benefício, o aproveitamento do coproduto contribui para a sustentabilidade, reduz desperdícios e fortalece a integração entre agricultura e pecuária, alinhando a cadeia às práticas de economia circular.
Para o produtor rural, o farelo de algodão pode ajudar a reduzir custos e aumentar a eficiência do sistema produtivo, mas só entrega resultado quando entra na dieta com informação, assistência técnica e planejamento econômico.
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