Protagonismo do algodão brasileiro abre caminho para o país e se tornar referência de preços

Líder global da Bunge apresentou perspectivas para a evolução do mercado da fibra durante encontro da ORÍGEO com 200 cotonicultores no Congresso Brasileiro do Algodão
Publicado em 01/10/2026 11:44

O algodão brasileiro passou de cerca de 7% para mais de 35% das exportações globais na última década, avanço sustentado por investimentos que ampliaram a produção, modernizaram a cadeia e consolidaram a presença da fibra nacional nas indústrias têxteis dos mais exigentes mercados. O caminho que levou o país a essa posição de liderança e os novos desafios trazidos por esse protagonismo foram analisados por Blake McClendon, líder global de algodão da Bunge, em jantar promovido no dia 23 de setembro para 200 grandes cotonicultores pela ORÍGEO, joint venture entre Bunge e UPL especializada em soluções sustentáveis e gestão integrada para grandes agricultores do Cerrado, durante o Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte (MG).

Para McClendon, a principal transformação está no papel que o Brasil passou a desempenhar no abastecimento mundial de algodão. Se durante séculos os Estados Unidos foram o principal fornecedor, ao qual o mercado global recorria quando precisava de volumes adicionais, hoje essa posição pertence ao Brasil. O executivo da Bunge observa que o avanço não ocorreu apenas devido ao aumento da oferta. “Ao longo dos últimos anos, o setor também construiu demanda para a fibra nacional, que passou a integrar de forma recorrente as compras de indústrias têxteis de países como China, Índia, Vietnã, Turquia, Paquistão e Indonésia. O mundo aprendeu a usar o algodão brasileiro, aprendeu a gostar de usar o algodão brasileiro, e o resultado é que ele não é mais uma origem de nicho”, pontuou.

Apesar dessa transformação, ele avalia que um dos principais pilares do mercado brasileiro ainda não acompanhou a evolução observada nas últimas duas décadas: a formação de preços. Atualmente, o algodão produzido no país é majoritariamente precificado e protegido por operações de hedge com referência na ICE, bolsa que negocia os contratos futuros utilizados como referência internacionalmente. A questão, segundo ele, ganha importância à medida que Brasil e EUA passam a responder cada vez mais a fundamentos próprios de oferta e demanda.

“O algodão brasileiro tem hoje uma das infraestruturas de origem mais sofisticadas do mundo, mas seu principal benchmark está fisicamente ligado ao algodão americano”, disse o líder global de algodão da Bunge.

Esse descompasso tem efeito direto nas negociações antecipadas da produção. O líder da Bunge explicou que, ao comprar hoje algodão que será entregue daqui a dois anos, por exemplo, a trading precisa se proteger de eventuais oscilações de preços durante esse período. O desafio surge quando o algodão brasileiro e o norte-americano passam a responder a condições diferentes de oferta e demanda, o que aumenta a incerteza sobre a relação entre os preços das duas origens no futuro. “Quando vocês nos pedem para comprar o algodão com dois anos de antecedência, precisamos precificar esse risco em algum lugar. Todo risco que o comerciante não consegue proteger, no fim, chega ao preço pago ao produtor”, alertou.

Como resposta a esse desafio, Blake McClendon apresentou a possibilidade de o mercado desenvolver uma referência de preços própria para o algodão brasileiro, complementar à ICE e vinculada às características do país. A proposta partiria de mecanismos já utilizados nos mercados futuros, como entrega física, armazéns certificados e classificação independente da qualidade, com o algodão brasileiro como produto e o Porto de Santos, no litoral do Estado de São Paulo, como ponto de entrega. “Não precisamos reinventar aquilo que já funciona. Precisamos mudar apenas dois pontos – qual algodão e onde: algodão brasileiro, classificado pelo sistema da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), entregue em armazéns certificados.”

Ainda em sua palestra para os cotonicultores, o executivo da Bunge reforçou que a proposta teria como objetivo criar uma alternativa capaz de refletir os riscos específicos da produção e da comercialização brasileiras. Para Blake McClendon, essa discussão representa uma possível nova etapa de um processo iniciado há duas décadas, período em que o país estruturou sua produção e conquistou compradores em diferentes regiões do mundo. “O Brasil construiu a produção, construiu toda a infraestrutura e conquistou as indústrias têxteis ao redor do mundo. A próxima infraestrutura a ser construída pode ser a de preços”, concluiu.

Congresso Brasileiro do Algodão

O encontro com os líderes em produção de algodão no país, realizado durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, integrou a agenda da ORÍGEO, marcada pela aproximação com os agricultores, troca de conhecimento e discussões sobre as oportunidades da atividade. A programação também reforçou o conceito “O fio que conecta histórias, legado e futuro”, adotado pela empresa para valorizar a trajetória das famílias produtoras e as decisões que ajudam a construir os próximos ciclos do segmento. Além dos debates técnicos e de mercado, o jantar contou com um show exclusivo da cantora Paula Fernandes.

Para Roberto Marcon, CEO da ORÍGEO, o fortalecimento da atuação da Bunge no algodão amplia as possibilidades de apoio ao produtor na proposta integrada da ORÍGEO. “Com a aquisição da Viterra, a Bunge fincou posição nesse mercado e tem uma ambição bastante grande que é, juntamente conosco, ser líder em algodão no Brasil. Para isso, estamos trazendo uma série de ferramentas, desde financiamento até soluções de comercialização. Do outro lado, olhando para dentro da fazenda, temos a UPL desenvolvendo produtos e inovação para a cultura. Queremos conectar essas diferentes frentes para oferecer ao cotonicultor soluções que acompanham as necessidades do negócio dentro e fora da porteira.”

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