Após recuo na produção, algodão volta a ganhar atratividade frente ao milho
Celebrado nesta quarta-feira (7), o Dia Mundial do Algodão encontra o setor brasileiro em um cenário de contrastes. Enquanto o PIB da agropecuária avançou 2,8% no segundo trimestre de 2026 e 6,8% na comparação anual, a estimativa do IBGE aponta uma produção nacional de algodão 6,7% inferior à de 2025. Em Mato Grosso, principal estado produtor da fibra, a área cultivada recuou 11,18% na safra 2025/26 e a produção de algodão em caroço deve cair 8,86%, apesar da expectativa de produtividade recorde nas lavouras.
O cenário, porém, começa a apresentar sinais de mudança. Segundo a Sorriso Têxtil, empresa mato-grossense que atua na comercialização de algodão em pluma e na industrialização da fibrilha, a recuperação das cotações internacionais e a melhora das condições de exportação voltaram a tornar o algodão mais atrativo em relação ao milho. A avaliação abre espaço para uma perspectiva mais favorável à próxima safra, embora as decisões de plantio ainda dependam da evolução dos preços, dos custos e das condições de mercado.
“No momento em que foi decidido o plantio da safra 2025/26, o preço internacional do algodão estava muito baixo e o preço do milho estava bom. Então, a decisão foi diminuir a área de algodão e aumentar a área de milho. Hoje, essa relação se inverteu”, afirma Nadim Makari, fundador da Sorriso Têxtil e profundo conhecedor do comércio atacadista de algodão.
A leitura do empresário ajuda a explicar por que o desempenho agregado do agronegócio não se traduz necessariamente em expansão de todas as culturas. No caso do algodão, a decisão de plantio é influenciada pela relação entre custos de produção, preços internacionais e rentabilidade esperada de culturas concorrentes. Assim, mesmo em um ano de exportações recordes, produtores podem optar por reduzir a área quando as condições econômicas não justificam o investimento.
O Brasil encerrou o ano comercial 2025/26 com 3,37 milhões de toneladas de algodão exportadas, volume 19% superior ao do ciclo anterior. O resultado consolidou o país como líder mundial nas exportações da fibra, mas não impediu que a safra atual fosse marcada por ajustes na área plantada e por preços menos atrativos no momento em que os produtores definiram suas estratégias.
Produtividade recorde; beneficiamento atrasado
Em Mato Grosso, as condições climáticas produziram efeitos distintos sobre a safra. De acordo com a Sorriso Têxtil, as chuvas registradas em maio e junho favoreceram o desenvolvimento das plantas e contribuíram para a expectativa de produtividade recorde, juntamente com o desempenho de novas variedades de algodão. Por outro lado, as condições climáticas atrasaram o início mais efetivo do beneficiamento.
“A produtividade da lavoura de algodão deve ser recorde em Mato Grosso porque tivemos chuvas de maio e até em junho, e isso favoreceu muito a planta. Há também muitas variedades novas que estão produzindo muito bem. Agora, o beneficiamento de algodão começou muito tarde este ano. Hoje, estamos com o beneficiamento atrasado em Mato Grosso”, explica Makari.
O atraso mostra que o desempenho da lavoura não se reflete imediatamente no ritmo de processamento e disponibilização da fibra ao mercado. Para os agentes da cadeia, o acompanhamento da safra envolve não apenas o volume produzido, mas também o andamento do beneficiamento, a qualidade do produto e as condições de comercialização.
Preços e demanda externa sustentam perspectivas
Outro fator que contribui para a melhora das perspectivas é a recuperação dos preços domésticos. Em agosto, as cotações da pluma avançaram, favorecidas pela firmeza dos vendedores e pela valorização no mercado externo. Naquele momento, o preço doméstico ainda ficou, em média, 1,5% abaixo da paridade de exportação, segundo levantamento do Cepea.
A Sorriso Têxtil avalia que essa defasagem diminuiu nas semanas seguintes, com uma valorização expressiva do produto no mercado interno e uma aproximação em relação às referências internacionais.
“Os preços domésticos estavam muito fora da paridade. Hoje, equalizou. Portanto, o preço doméstico subiu muito e hoje se equiparou ao mercado internacional”, afirma Makari.
Como referência para a formação de preços, Makari cita a Esalq, que coleta preços regionais, custos de frete, preços de compra de comerciantes e preços de compra de indústrias, calcula uma média e a divulga diariamente em relatório.
Na avaliação do empresário, a demanda externa também contribui para um cenário mais favorável. A China permanece como um mercado relevante, enquanto outros países têm apresentado bom ritmo de compras. A continuidade desse movimento, associada ao comportamento das cotações em Nova York e do câmbio, será determinante para as decisões dos produtores nos próximos meses.
“Hoje, o cenário de exportação está muito bom, assim como os preços. Vamos ver se a China vai demandar mais produtos. Outros países também entraram comprando bem. O milho hoje é uma opção, mas o algodão ainda é melhor. Pelo preço de Nova York hoje, a exportação, o algodão ficou melhor que o milho”, acrescenta.
Para a próxima safra, a principal questão será saber se essa recuperação se manterá até o momento das decisões de plantio. A melhora das cotações pode favorecer uma retomada da atratividade da cultura, mas a definição da área dependerá da rentabilidade projetada e da comparação com outras alternativas agrícolas.
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