Anea faz balanço positivo da ICA 2026 e destaca desafios para o setor

Em 2027, pela primeira vez, o Brasil receberá uma edição da ICA, o mais antigo e importante evento mundial do algodão.
Publicado em 19/10/2026 18:03

A liderança brasileira nas exportações mundiais de algodão, a reação dos Estados Unidos à perda de mercado e a necessidade de ampliar o consumo global da fibra natural estiveram entre os principais debates e conversas no ICA Trade Event 2026, realizado nos dias 14 e 15 de outubro, em Istambul, na Turquia. O encontro reuniu representantes da indústria têxtil, traders, produtores e especialistas internacionais, que pensaram juntos o futuro do algodão em um cenário de acirramento da concorrência e incertezas econômicas e geopolíticas. Para a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), o evento confirmou a posição alcançada pelo Brasil e apontou os desafios para sustentar seu crescimento. A entidade também participou das ações do Cotton Brazil, iniciativa desenvolvida em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). A próxima edição da ICA, em 2027, será realizada em São Paulo, marcando a primeira vez que o Brasil receberá o encontro internacional mais antigo e importante do mercado global de algodão.

Na avaliação do presidente da Anea, Dawid Wajs, a presença brasileira na ICA e o Brasil como origem nos holofotes do evento demonstrou o reconhecimento conquistado pela fibra nacional entre os compradores internacionais e a importância da atuação conjunta dos diferentes segmentos da cadeia produtiva. Há três safras, o país é maior exportador mundial, e responde atualmente por 34% do comércio internacional de algodão, ante 7% há menos de uma década. Na safra 2025/2026, os embarques alcançaram 3,374 milhões de toneladas, com receita de US$ 5,295 bilhões. Para o ciclo 2026/2027, a Anea projeta exportações próximas de 3,4 milhões de toneladas.

"Estamos consolidando globalmente a boa reputação dos produtores e exportadores brasileiros. Cada vez mais pessoas se interessam pelo nosso algodão, querem conhecer o país, compreender nossos desafios e acompanhar nosso crescimento. Temos muito trabalho pela frente, mas existe espaço para continuar avançando", afirmou.

Para Dawid, a presença da ApexBrasil no evento também foi importante para aproximar o governo federal dos resultados obtidos pelo setor. “O crescimento das exportações e a boa aceitação do algodão brasileiro nos mercados internacionais mostram os resultados desta parceria bem-sucedida entre a iniciativa privada e o poder público”, disse o presidente da Anea.

Rafaela Albuquerque, especialista em Negócios Internacionais da ApexBrasil, avalia que mais do que um encontro de negócios, o ICA é um espaço de construção de perspectivas para o futuro do algodão. “Ver os principais líderes mundiais, tradings e fiações reunidos para discutir os desafios e as oportunidades do setor evidencia a força da cadeia produtiva global e a capacidade de articulação do setor”, diz. Ainda de acordo com Rafaela, nesse contexto, o Luncheon organizado pelo Cotton Brazil representou “uma importante oportunidade para ampliar o protagonismo brasileiro no cenário internacional, não apenas como um dos maiores fornecedores mundiais de algodão, mas também como uma voz de liderança na promoção das fibras naturais e na construção de uma indústria da moda mais sustentável”, concluiu.

“Conquistamos uma posição de liderança no mercado internacional, mas sabemos que mantê-la exige um trabalho contínuo. No ICA Trade Event, renovamos o compromisso de continuar oferecendo ao mundo um algodão de qualidade, produzido com responsabilidade e transparência. Estar próximo dos nossos compradores e parceiros é fundamental para compreender as demandas do mercado, fortalecer a confiança na fibra brasileira e construir novas oportunidades para toda a cadeia produtiva”, destaca Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa.

Estados Unidos buscam recuperar mercado

Como em todos os anos, uma das apresentações mais aguardadas da conferência foi a do trader Joe Nicosia, da Louis Dreyfus Company (LDC), que, nesta edição, enfatizou as mudanças no comércio internacional de algodão e as estratégias norte-americanas para recuperar competitividade. Desta vez, o Brasil ocupou lugar ainda mais importante em sua análise. Nos últimos 20 anos, a produção nacional cresceu aproximadamente 171%. Considerando as exportações de algodão de alta qualidade do Brasil, Estados Unidos e Austrália, a participação brasileira passou de 13% para 49% na última década, enquanto a norte-americana recuou de 70% para 37%. Diante desse cenário, os Estados Unidos buscam estimular a demanda por sua fibra por meio de acordos comerciais e incentivos à indústria têxtil.

Nicosia apontou três iniciativas com potencial para alterar a dinâmica do mercado: a retomada das negociações comerciais entre Estados Unidos e China, possíveis isenções tarifárias previstas na Seção 301 da legislação comercial norte-americana e a aprovação do Buying American Cotton Act (BACA), projeto que prevê incentivos fiscais para produtos têxteis fabricados com algodão dos Estados Unidos.

Segundo a análise apresentada, a implementação das três medidas poderia impulsionar os preços internacionais para patamares superiores a 100 centavos de dólar por libra-peso. Caso não avancem, o mercado poderá enfrentar novas pressões, com preços na faixa inferior dos 70 centavos de dólar ou até abaixo desse nível.

As perspectivas globais também apontam para um cenário de maior equilíbrio entre oferta e demanda. Segundo projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apresentadas na conferência, a produção mundial em 2026/27 deverá alcançar 118 milhões de fardos, diante de um consumo estimado em 123,1 milhões. Apesar da perspectiva de redução dos estoques, a demanda têxtil enfraquecida, os custos de energia e as tensões geopolíticas continuam limitando a recuperação dos preços.

Participação de mercado

Se a disputa pela liderança das exportações mobilizou parte dos debates, outra preocupação ganhou destaque entre os participantes, a perda contínua de participação do algodão no mercado mundial de fibras. Nas últimas duas décadas, o consumo global de fibras passou de 69 milhões para 124 milhões de toneladas, enquanto o consumo de algodão permaneceu próximo de 26 milhões. Com isso, a participação da fibra natural recuou de 37% para 21%.

Para Dawid Wajs, esse é um desafio que exige uma atuação conjunta dos países produtores, independentemente da concorrência comercial entre eles.

"Temos que batalhar pelo crescimento do consumo mundial de algodão. Precisamos buscar negócios mais sustentáveis para todos, porque o aumento do consumo também vai impulsionar a produção brasileira e nossas exportações. É um trabalho que não pode ficar restrito ao Brasil. Precisamos envolver nossos clientes e parceiros ao redor do mundo", destacou.

O presidente da Anea também defendeu maiores investimentos em pesquisa e inovação para ampliar as possibilidades de utilização da fibra pela indústria, especialmente em segmentos nos quais os materiais sintéticos ainda predominam, como o vestuário esportivo. "A tecnologia é a chave para abrirmos novos mercados e permitir que a indústria utilize o algodão de forma mais ampla e versátil. Nem todos dispõem dos mesmos recursos, mas cada um precisa fazer a sua parte. Não podemos esperar que as oportunidades apareçam sozinhas", afirmou.

Microplásticos

A preocupação com a poluição causada pelos microplásticos também foi abordada na ICA como uma oportunidade para a valorização das fibras naturais, ao lado de iniciativas de sustentabilidade, rastreabilidade e promoção do algodão junto aos consumidores. Dentre as iniciativas citadas por Joe Nicosia, estava a campanha lançada pela Abrapa no Congresso Brasileiro do Algodão, em setembro, batizada de “Microplástico é o fim da linha”.

Políticas públicas

Para o presidente da Anea, a ampliação do consumo também depende de políticas públicas que estimulem o uso das fibras naturais. Nesse sentido, Dawid defendeu o avanço da proposta da Cide Têxtil, que prevê a tributação progressiva de produtos têxteis acabados importados conforme a participação de fibras sintéticas em sua composição, com recursos destinados ao desenvolvimento de alternativas mais sustentáveis.

"Precisamos avançar na aprovação da Cide Têxtil e investir em pesquisas que tornem o algodão mais versátil, permitindo sua utilização em segmentos nos quais ainda temos pouca participação. Se queremos que a fibra natural recupere espaço, temos que criar condições para isso, tanto por meio da inovação quanto de políticas que incentivem seu consumo", afirmou.

 

São Paulo 2027

Para Dawid Wajs, a experiência em Istambul mostrou que o Brasil já ocupa uma posição de protagonismo no comércio internacional, mas precisa participar cada vez mais das discussões sobre o futuro da fibra. Nesse contexto, a realização da ICA 2027 em São Paulo terá um significado especial para o setor.

"Estamos nos consolidando como líderes mundiais das exportações e precisamos assumir plenamente essa posição. Isso significa puxar a conversa, trabalhar junto com nossos clientes e ajudar a construir oportunidades para toda a cadeia do algodão. Receber a ICA pela primeira vez no Brasil, em 2027, será uma oportunidade extraordinária de mostrar ao mundo o que construímos até aqui, aproximar ainda mais nossos parceiros internacionais e ampliar essa discussão sobre o futuro do algodão. Queremos que o mundo venha conhecer de perto não apenas a força da nossa produção, mas também a qualidade, a capacidade de inovação e o compromisso de toda a cadeia brasileira", concluiu.

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