Biodiesel fica competitivo frente ao diesel importado enquanto agro pede alta na mistura
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Por Roberto Samora e Marta Nogueira
SÃO PAULO/RIO DE JANEIRO, 9 Mar (Reuters) - Com a alta dos preços do petróleo em função da guerra no Irã, o valor do diesel importado pelo Brasil superou a cotação do biodiesel, em uma situação rara que poderia favorecer um aumento do percentual da mistura do biocombustível no combustível fóssil, apontou um levantamento da consultoria Raion obtido pela Reuters.
O movimento pode dar munição adicional aos defensores de uma alta da mistura de biodiesel no diesel no Brasil, notadamente integrantes do setor agrícola, antes de uma esperada reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), prevista para a próxima quinta-feira.
"Do ponto de vista técnico, tem espaço para o aumento da mistura, mas para fazer isso tem que convencer o governo...", disse o sócio-diretor da Raion Consultoria, Eduardo Oliveira de Melo, ponderando que a decisão normalmente é política.
Ele disse ainda que uma mistura maior de biodiesel poderia amenizar problemas de oferta de diesel. "Mas aí o governo teria de assumir que está faltando produto (diesel), que a Petrobras não está conseguindo entregar, e não vai assumir...", acrescentou ele.
Segundo a Raion, com base em dado atualizado nesta segunda-feira, o biodiesel no Brasil foi cotado a R$5,4881/litro em média, versus R$5,6740 do diesel importado. Até quinta-feira, antes de uma disparada mais acentuada no valor do petróleo, a situação era inversa --R$5,30 para o diesel importado versus R$5,582 para o biodiesel.
Procurado, o Ministério de Minas e Energia não comentou imediatamente se o aumento da mistura está na pauta da reunião do CNPE, na quinta-feira (12). Duas pessoas com conhecimento da situação confirmaram à Reuters a data do encontro.
Integrantes do setor agrícola e do segmento de combustíveis também têm afirmado que a reunião está prevista para quinta-feira.
Em um cenário de alta do preço do diesel, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) solicitou ao Ministério de Minas e Energia o aumento "urgente" da mistura obrigatória dos atuais 15% para 17% (B17), diante da escalada recente dos conflitos no Oriente Médio e seus impactos sobre o mercado de petróleo, como forma de amenizar impactos da alta do petróleo.
"O avanço da mistura de biodiesel representa medida importante e sustentável para ampliar a oferta de combustível no mercado doméstico, reduzir pressões sobre os custos logísticos e fortalecer a segurança energética nacional", disse o presidente da CNA, João Martins, em ofício ao ministério.
Entidades como a Aprosoja Brasil, que representa os produtores de soja, que estão apontando problemas de oferta de diesel e alta nos preços em pleno período de colheita da soja e o cultivo do milho segunda safra, afirmaram que "é urgente avançar no aumento da mistura de biodiesel, reduzindo a dependência externa, e ampliar o uso do etanol na matriz energética, inclusive no transporte de cargas e em máquinas agrícolas".
O analista de biodiesel da consultoria Safras & Mercado, Gabriel Viana, lembrou que a alta da mistura geralmente enfrenta obstáculos como questões inflacionárias, algo que não ocorreria no momento atual.
"Com o petróleo disparando, temos um biodiesel que não vai ser tão inflacionário", afirmou ele, lembrando que a maior parte da matéria-prima do biocombustível é o óleo de soja e o Brasil está colhendo uma safra recorde.
"Fica mais fácil ter o aumento da mistura", afirmou ele, acrescentando que, pelo cronograma legal, a mistura deveria subir um ponto percentual, para 16%, em 2026.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araujo, não é momento de aumentar a mistura, apesar de o biodiesel ter ganhado competitividade.
Ele ressaltou que biodiesel normalmente custa mais e ainda há despesas com a logística. "O diesel que sai da refinaria da Petrobras é mais barato", afirmou, destacando que um aumento da mistura elevaria o preço do combustível vendido na bomba.
Para Araujo, ainda são necessários mais testes para que as distribuidoras se sintam confortáveis em vender um diesel com uma mistura de 16%.
LIBERAÇÃO DA IMPORTAÇÃO
Distribuidores e importadores de combustíveis defendem que o CNPE delibere pela autorização de importação do biodiesel, uma proposta que enfrenta resistência entre os produtores nacionais.
Entidades como Abicom (importadores), Brasilcom e IBP (representantes dos distribuidores) e Fecombustíveis (dos postos) divulgaram nesta segunda-feira nota na qual defendem a liberação da importação até o limite de 20% da demanda nacional.
Eles ressaltaram que a manutenção da vedação vigente não encontra amparo nas conclusões técnicas do processo regulatório conduzido no âmbito da Resolução CNPE nº 09/2023, "além de suscitar questionamentos à luz dos princípios constitucionais e da Lei de Liberdade Econômica".
(Por Roberto Samora e Marta Nogueira, com reportagem adicional de Letícia Fuchuchima)
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