Do agro à energia: Brasil tem janela para liderar transição energética global
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O Brasil reúne uma combinação de recursos que poucos países conseguem reproduzir: produção agrícola em larga escala, biomassa abundante, matriz elétrica majoritariamente renovável e uma cadeia de biocombustíveis desenvolvida ao longo de décadas. Para Raphaella Gomes, CEO da New Gaia, essa integração coloca o país diante de uma janela de oportunidade na transição energética mundial, mas o potencial, sozinho, não garante liderança.
Segundo ela, a principal vantagem brasileira está justamente na capacidade de conectar agricultura, energia e escala industrial. O modelo construído a partir do Proálcool, lançado na década de 1970 como resposta à crise do petróleo, criou uma cadeia que hoje vai muito além do etanol.
“O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma vantagem competitiva estrutural difícil de replicar: a integração entre energia, agricultura e escala industrial.”
Na avaliação da executiva, a cana-de-açúcar sintetiza essa vantagem. A mesma matéria-prima pode gerar açúcar, etanol de primeira e segunda geração, bioeletricidade e, com novos investimentos, também combustível sustentável de aviação (SAF) e alternativas para o transporte marítimo.
Para Raphaella, essa integração também muda a forma como a descarbonização deve ser encarada pelo setor produtivo. Em vez de representar apenas uma exigência ambiental ou regulatória, a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis pode reduzir a exposição das empresas brasileiras a choques externos.
“Descarbonização não é um custo que o setor produtivo precisa absorver por pressão regulatória ou reputacional. É, antes de tudo, uma estratégia de segurança energética”, afirma.
Biometano ainda tem espaço para crescer
Entre as oportunidades mais imediatas está o biometano. O combustível renovável pode ser produzido a partir de resíduos agrícolas e industriais e utilizado em substituição ao gás natural e ao diesel em diferentes aplicações.
A executiva considera que o mercado já deixou de ser uma promessa, embora ainda esteja distante de explorar todo o potencial disponível no país. Ela cita avanços regulatórios, como a equiparação do biometano ao gás natural, o marco do Combustível do Futuro e a criação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB).
“É uma realidade que está se consolidando, mas que ainda não chegou à escala que deveria”, avalia.
Na visão de Raphaella, os gargalos estão principalmente na infraestrutura de conexão aos gasodutos, na previsibilidade regulatória e na valorização econômica do atributo ambiental do combustível.
Ela também destaca uma característica estratégica do biometano: a capacidade de oferecer geração de energia firme e despachável, complementando fontes como solar e hidrelétrica.
SAF abre nova fronteira para o etanol
Se o biometano aparece como uma oportunidade de curto e médio prazo, o combustível sustentável de aviação surge como uma das principais apostas para a próxima década.
Entre as diferentes tecnologias em desenvolvimento, Raphaella aponta a rota Alcohol to Jet (ATJ), que transforma etanol em SAF, como uma alternativa particularmente relevante para o Brasil por utilizar uma matéria-prima já disponível e uma cadeia produtiva consolidada.
“SAF via rota Alcohol to Jet é a oportunidade mais concreta e imediata para o Brasil”, afirma.
A regulamentação brasileira também começa a criar um mercado para esse combustível. O Pro-BioQAV estabelece metas para utilização de SAF na aviação a partir de 2027, criando uma referência de demanda para os projetos nacionais.
Para a executiva, porém, a oportunidade não está restrita ao mercado interno. A expansão dos mandatos internacionais de SAF pode abrir espaço para exportações brasileiras, desde que o país avance em rastreabilidade, certificação e contratos de longo prazo.
Raphaella estima que o Brasil possa chegar a uma produção de 2 bilhões de litros de SAF por ano até 2035, caso os investimentos necessários sejam realizados e o setor seja tratado como parte de uma estratégia industrial de longo prazo.
Outro ativo ainda pouco explorado, segundo a CEO da New Gaia, é o CO₂ biogênico gerado em processos como a produção de biometano e etanol.
A captura desse carbono poderia criar novas fontes de receita para projetos de bioenergia, seja por meio de aplicações industriais, seja pela participação em mercados de carbono, desde que haja certificação e metodologias reconhecidas.
“O CO₂ biogênico é um ativo subestimado”, afirma.
A avaliação é que projetos que hoje apresentam dificuldades de viabilidade econômica podem ganhar novas possibilidades ao combinar receitas provenientes de energia, combustíveis, coprodutos e atributos ambientais.
Agro deixa de ser apenas fornecedor de matéria-prima
Essa transformação também muda o papel do agronegócio na economia de baixo carbono. Para Raphaella, o setor tem condições de atender à demanda crescente por combustíveis renováveis, graças à disponibilidade de cana, milho, resíduos agrícolas e áreas que podem ser recuperadas para novas culturas energéticas.
O avanço do etanol de milho é citado como exemplo da capacidade de adaptação da agroindústria brasileira. A executiva também menciona o potencial de matérias-primas como a macaúba para a produção de SAF.
“Precisamos ver esses ativos não apenas como commodities de alimento, mas como matéria-prima de energia limpa de alto valor agregado”, afirma.
Nesse cenário, a integração entre produção agrícola e energética pode ampliar o valor econômico gerado no campo, principalmente quando os projetos conseguem aproveitar coprodutos, resíduos e atributos ambientais.
A disponibilidade de capital, entretanto, é um dos pontos decisivos para que esse potencial se transforme em projetos de grande escala.
De acordo com Raphaella, investidores internacionais reconhecem as vantagens estruturais brasileiras, mas ainda existe uma distância entre o potencial do país e a capacidade de transformar esse potencial em retorno previsível.
“Com interesse crescente, mas com ceticismo estrutural que precisa ser gerenciado com dados, não com retórica”, resume.
Na avaliação da executiva, três elementos são fundamentais para aproximar os projetos brasileiros do capital internacional: segurança jurídica, rastreabilidade de impacto e liquidez dos ativos.
A modelagem financeira também precisa acompanhar essa evolução. Projetos de baixo carbono, segundo ela, precisam apresentar premissas robustas de investimento e operação, análise de riscos e uma precificação adequada dos atributos ambientais.
Infraestrutura é um dos principais gargalos
A falta de infraestrutura aparece entre os obstáculos mais importantes para acelerar a transição energética no país.
Gasodutos, conexões à rede elétrica, ferrovias e portos são citados como estruturas necessárias para que novas cadeias de energia consigam ganhar escala.
A questão é especialmente relevante para o biometano, cuja expansão depende da capacidade de conexão e distribuição, e para projetos de biocombustíveis voltados à exportação.
“Para desbloquear a transição energética no Brasil, infraestrutura deveria ser a prioridade número um do governo”, afirma Raphaella.
Ela também aponta a instabilidade regulatória como um fator que eleva o risco percebido pelos investidores. Projetos de energia e infraestrutura exigem capital de longo prazo e, por isso, dependem de regras capazes de permanecer estáveis durante todo o ciclo de investimento.
Na visão da executiva, as mudanças recentes no setor sucroenergético fazem parte de uma transformação mais ampla do modelo de negócios.
A usina do futuro, nesse cenário, não dependerá de uma única commodity. Açúcar, etanol, bioeletricidade, biometano, SAF, biofertilizantes e créditos de carbono podem compor um portfólio de receitas.
“As grandes empresas do setor estão descobrindo que a bioenergia não é mais uma indústria de commodity singular. É uma plataforma de múltiplos produtos e múltiplas receitas”, afirma.
Essa diversificação, porém, exige novas competências de gestão, avaliação de risco e alocação de capital.
Próximos cinco anos serão decisivos
Para Raphaella, o Brasil reúne condições para ocupar uma posição relevante na transição energética global, mas também enfrenta o risco de deixar oportunidades serem capturadas por outros países.
Entre as prioridades, ela cita uma política industrial integrada, estabilidade regulatória, investimentos em infraestrutura e maior coordenação entre as diferentes cadeias de energia renovável.
Na visão da executiva, tratar etanol, biometano, SAF, hidrogênio, solar e eólica como agendas isoladas reduz a capacidade de aproveitar justamente o diferencial brasileiro: a integração entre diferentes fontes e setores.
As oportunidades para os próximos cinco a dez anos, segundo ela, passam principalmente por biometano associado a biofertilizantes, combustíveis para transporte pesado, combustível marítimo, SAF e captura e utilização de CO₂ biogênico.
Para o agronegócio, isso significa que a transição energética pode representar uma nova etapa de agregação de valor à produção rural e agroindustrial.
“O Brasil tem hoje, neste momento, a janela para ser não a promessa da transição energética global, mas a resposta”, conclui Raphaella.
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