Seca ameaça mistura de etanol na Índia e pode reduzir percentual de 20% para até 15%

Escassez de milho e cana-de-açúcar pressiona custos, enquanto governo prioriza abastecimento alimentar e reduz incentivos à produção do biocombustível
Publicado em 04/11/2026 08:56

A Índia pode registrar uma redução significativa na mistura de etanol à gasolina durante o ano de abastecimento iniciado em novembro, depois que a seca associada ao El Niño comprometeu a produção agrícola e elevou os preços das matérias-primas utilizadas na fabricação do biocombustível. Segundo reportagem da Reuters publicada nesta quarta-feira (4), representantes da indústria projetam que o percentual poderá recuar dos 20% alcançados anteriormente para uma faixa entre 15% e 17%.

O possível recuo representa uma mudança importante para o programa indiano de biocombustíveis, que havia atingido antecipadamente sua meta de mistura de 20%. A iniciativa busca reduzir a dependência de petróleo importado, mas agora enfrenta dificuldades diante da necessidade de preservar a disponibilidade de alimentos e conter a inflação.

As chuvas de monção ficaram quase 13% abaixo da normalidade neste ano, prejudicando as perspectivas de produção de milho e cana-de-açúcar. A preocupação com o abastecimento contribuiu para uma valorização de aproximadamente 40% nos preços domésticos do milho e do açúcar, enquanto o arroz também registrou aumento de cerca de 20%.

O cenário levou o governo indiano a modificar as condições de abastecimento das destilarias. Para a nova temporada, as companhias petrolíferas foram orientadas a não adquirir etanol produzido a partir de determinadas matérias-primas da indústria açucareira, incluindo caldo de cana e melaço B.

Também houve redução no preço de aquisição do etanol fabricado com milho, de 71,86 para 68,86 rúpias por litro, diminuindo a remuneração das unidades produtoras.

Escassez de milho preocupa indústria e produção animal

A redução da demanda por etanol poderá afetar investimentos realizados nos últimos anos para ampliar a capacidade industrial indiana. O setor expandiu suas instalações para atender ao crescimento da mistura obrigatória e agora enfrenta a possibilidade de operar abaixo do potencial instalado.

O milho ocupa posição central nessa disputa por matérias-primas. Além de atender às destilarias, o cereal é utilizado na alimentação animal, especialmente na avicultura, ampliando a competição entre diferentes segmentos consumidores.

Em avaliação divulgada no final de outubro pela S&P Global, representantes da indústria indiana de rações defenderam mecanismos de proteção ao abastecimento de milho antes de novos aumentos na utilização de grãos para biocombustíveis. O setor alerta que a elevação dos custos de alimentação pode comprometer a produção de carnes e ovos.

As dificuldades climáticas também limitam a possibilidade de ampliar rapidamente a oferta agrícola. Estimativas de representantes do mercado apontam risco de redução da produção de milho, enquanto a disponibilidade de água permanece como obstáculo para novos plantios.

O arroz aparece como uma alternativa para suprir parte das necessidades das destilarias, diante dos estoques existentes no país. Entretanto, sua utilização envolve custos adicionais para o governo, que subsidia o fornecimento do cereal à indústria de etanol.

A possível redução da mistura também amplia a preocupação com a dependência indiana de combustíveis fósseis importados. Por enquanto, a queda para 15% a 17% permanece como uma expectativa de participantes do setor, sem anúncio oficial de alteração da meta de 20%.

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