Café: Estimativas baixistas estimulam novos recuos nas cotações em NY

Publicado em 02/06/2014 18:01 e atualizado em 02/06/2014 18:31 856 exibições

As cotações do café arábica na Bolsa de Nova Iorque (Ice Future US) fecharam com forte queda nesta segunda-feira (2), com os três primeiros contratos perdendo o patamar dos US$ 1,80 a libra-peso. De acordo com analistas, além do avanço da colheita, novas estimativas mais conservadoras para a safra brasileira, publicadas nos últimos dias, podem ter estimulado as quedas. 

O contrato julho fechou em 172,35 centavos de dólar por libra-peso e setembro encerrou em 174,75 cents, ambos com queda de 515 pontos. O vencimento dezembro perdeu 505 pontos e encerrou valendo 178,15 cents / libra-peso. O contrato maio manteve-se em 180,90 cents / libra-peso.

A trading Mercon Coffee Group divulgou sua estimativa para a safra brasileira 2015/15 em 50,5 milhões de sacas, sendo 33,45 milhões de sacas de arábica e 17,05 milhões se sacas de conilon. Apesar de representar uma queda de 8,35% (4,95 milhões de sacas) em relação à estimativa anterior do grupo, a previsão ainda está bastante acima das previsões de agências governamentais como a Conab e CNC, que estima safra entre 40 a 44,5 milhões de sacas.  

O analista de mercado Airton Neves, da Sancafé, em Varginha-MG, essas previsões geram mais insegurança no mercado. “Há falta de notícias e muita incerteza em relação ao tamanho da safra... As estimativas estão muito diferentes, enquanto tem analistas falando de uma safra de 40 milhões, outros apontam para 48 a 50 milhões de sacas... O mercado não sabe em quem acreditar”. 

No mercado físico, os preços recuaram na maior parte das praças comercializadoras. O café tipo 6, bebida dura, caiu 7,14% em Espírito Santo do Pinhal-SP, onde a saca é vendida a R$ 390,00. Em Patrocínio-MG, a queda foi de 4,65% e a saca vale R$ 410,00. Apenas as praças de Maringá-SP e Franca-SP tiveram alta de 1,39% e 2,44%, respectivamente.   

Colheita lenta
Apesar das informações iniciais de que as colheitas estariam adiantadas e avançando rapidamente no país, as principais regiões produtoras de café do Sul de Minas, como Varginha e Guaxupé, começam suas colheitas oficialmente no início de junho. “O que foi colhido até agora é insignificante... Há uma tradição aqui de que junho é a melhor época para se iniciar as colheitas, por isso muitos produtores só começam agora e consideramos hoje como o primeiro dia de colheita”, afirmou Fernando Barbosa, presidente do Conselho Regional de Café da região de Guaxupé-MG. Airton Neves também afirmou que as colheitas em Varginha-MG começam, efetivamente, este mês.  

Estoques nas mãos da origem
O analista de mercado Marcus Magalhães, da Maros Corretora, informou hoje em sua análise diária de mercado que os estoques de café estão cada vez mais em poder dos países produtores, o que dá maior segurança e controle para as vendas e o controle dos preços. “Os grandes estoques de café hoje estão muito mais em origens produtoras do que em portos consumidores... Essa rédea do jogo começa a mudar e isso vai fazer com que se houver um escalonamento da oferta no contexto internacional não só por parte do Brasil, mas por parte de todas as origens produtoras, é possível que as cotações internacionais ganhem com a sustentação, porque quem vai definir o volume de café que vai entrar no mercado não será mais o comprador, mas sim o vendedor”. 

De acordo com o relatório mensal do CNC (Conselho Nacional do Café), os estoques certificados de café da Bolsa de Nova York apresentaram redução de 26,6 mil sacas, encerrando o mês em 2,55 milhões de sacas. Esse volume é 7,2% inferior ao registrado em maio de 2013, quando o montante armazenado totalizava 2,76 milhões de sacas.

Mercado internacional continua observando quebra
Apesar das quedas nas cotações, o mercado internacional, analistas e informativos financeiros continuam observando e ressaltando a expectativa de uma grande quebra na safra brasileira de café. O site norte-americano Barron’s publicou neste segunda-feira (2) mais uma matéria que mostra a tensão do mercado consumidor de café, principalmente o norte-americano, diante da previsão de alta dos preços. 

Barron’s informa que “A falta de chuvas no Brasil acabou com a esperança de uma safra cheia, situação que deve manter os preços do arábica em alta este ano”. O site ressalta ainda que a seca deve frustrar as expectativas de uma produção favorável na safra seguinte (2014/15)  

O Brasil, que é fonte de mais da metade do café arábica produzido no mundo, produziu duas safras cheias nos dois últimos ano. Este ano, a seca prejudicou os cafezais, fazendo com que traders, analistas e agências governamentais reduzissem as estimativas de produção para esta safra que deveria ser “recorde”. 

A Barron’s entrevistou Danilo Silva Fernandes, presidente da cooperativa Cooperavitae, em Minas Gerais. Sua estimativa é que a seca resulte em uma queda de 30% na produção este ano. 

“Muitos cafeicultores brasileiros contam que, embora as cerejas estejam vermelhas, o que é normal para esta época do ano, quando são abertas, não há grãos de café dentro”. 

Qualidade afetada
Além da redução da produção, o mercado observa também a qualidade dos cafés, que também foi afetada pelo clima adverso. Embora agências como a Cecafé prevejam estoques “confortáveis” para atender a demanda este ano, compradores e analistas apontam para os problemas no rendimento e na qualidade dos grãos. “Esta reserva irá desaparecer quando levarmos em conta a qualidade do café (este ano)”, afirmou a analista Judy Ganes, presidente da J. Ganes Consulting.  

Barron’s informou também que a seca “atrofiou o crescimento” dos grãos de café, o que significa que eles estarão muito pequenos ou mal-desenvolvidos para serem usados em certos blends. “Embora o Brasil tenha aumentado seus embarques de café, o país não deverá ter volume suficiente do tipo de café que algumas torrefadoras precisam”. O café arábica é usado para a produção de café de alta qualidade, como os comercializados pela Starbucks e pela Illycaffè, da Itália. 

Situação preocupante na América Central
O site Barron’s ressalta que a produção na América Central está ainda pior. “Embora a região responda por menos de 10% da produção mundial, ela é a fonte dos cafés mais raros e caros. O novo surto de ferrugem deve reduzir a produção em até 14% este ano”. 

A analista Judy Ganes continua defendendo que o café arábica poderá chegar aos US$ 3,00 a libra-peso ainda este ano, e que o mercado global de café deverá sofrer um déficit de abastecimento em 2015, como resultado da seca. “As temperaturas altas impediram o crescimento vegetativo, comprometendo a capacidade das árvores produzirem safras futuras”. 
 

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Por:
Fernanda Bellei
Fonte:
Notícias Agrícolas

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