Safra 2027 de café entra no radar do mercado com risco climático crescente e produtores já correm para proteger produtividade e qualidade
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O mercado de café começou a olhar com mais atenção para a safra 2027. A possibilidade de formação de um El Niño forte ou até de um Super El Niño no segundo semestre de 2026 acendeu o alerta entre agrônomos, produtores e compradores internacionais, principalmente porque os efeitos podem atingir justamente o período de florada e enchimento dos grãos da próxima safra brasileira. As preocupações se somam a um inverno de 2026 mais úmido que o normal em importantes regiões produtoras, que já vem atrasando a colheita, dificultando a secagem e provocando estresse fisiológico nas lavouras.
Segundo Jonas Leme Ferraresso, engenheiro agrônomo especializado em cafeicultura, parte do potencial produtivo da próxima safra pode já ter sido comprometido pelo quadro observado neste ano. Em áreas do Sul de Minas, especialmente na região da Cooxupé e Nova Resende, ele relata desfolha intensa em lavouras de carga média e alta, situação considerada incomum para esta época do ano. Ferraresso avalia que o efeito combinado da carga da safra e da maior incidência de doenças, agravado pelas dificuldades de aplicação de defensivos durante a colheita, reduziu a capacidade de recuperação das plantas. Para ele, o maior risco agora é a combinação de estiagens com temperaturas elevadas durante a florada e o início do enchimento dos frutos, cenário semelhante ao observado na safra 2024, quando houve forte redução do tamanho dos grãos.
A preocupação faz sentido quando se observa o calendário fisiológico do cafeeiro. Luiz Saldanha, engenheiro agrônomo, produtor de cafés especiais no Paraná e presidente da Brazil Specialty Coffee Association (BSCA), lembra que a safra colhida em 2027 começará a ser definida entre setembro e outubro de 2026, período de florada. Se o fenômeno climático provocar falta de chuvas nesse momento, haverá menor número de floradas e maior desuniformidade de florescimento, o que tende a resultar em maturação irregular dos frutos e dificuldades na colheita seletiva, especialmente nos cafés especiais. Além disso, temperaturas muito altas podem danificar folhas, reduzir o enchimento dos grãos e antecipar a maturação, comprometendo o desenvolvimento completo da qualidade sensorial da bebida.
O risco climático ganha relevância em um mercado já sensível à oferta global. A Organização Internacional do Café (OIC) estima que a produção mundial de café em 2024/25 alcance cerca de 174,9 milhões de sacas, enquanto o consumo global deve ficar próximo de 177 milhões de sacas, mantendo um quadro de oferta apertada. Nos últimos quatro ciclos, a alternância de episódios de La Niña e El Niño reduziu estoques de arábica e canéfora e ajudou a sustentar preços historicamente elevados. Saldanha afirma que o mercado esperava uma recuperação mais robusta da produção brasileira em 2026, mas o atraso da colheita e os problemas de qualidade já começaram a gerar apreensão sobre a disponibilidade de cafés de alta qualidade, e o risco climático para 2027 passou a ser incorporado às discussões comerciais.
Além do volume, a qualidade do café pode sofrer impactos diferentes dependendo do momento em que ocorrer o estresse climático. Ferraresso explica que, quando a seca e o calor atingem a fase de enchimento, os grãos tendem a ficar menores, reduzindo a peneira. Se o problema ocorre mais tarde, na fase de enrijecimento, o grão pode manter o tamanho, mas perde densidade e peso. Ele lembra que a safra passada apresentou problemas de densidade e que em 2026 já se observam novamente perdas de peneira em algumas regiões.
No segmento de cafés especiais, o impacto pode ser ainda mais amplo. Saldanha ressalta que praticamente todas as características de qualidade são sensíveis às variações climáticas: tamanho de peneira, aspecto físico dos grãos, uniformidade de maturação e desenvolvimento da qualidade sensorial. Tanto a falta quanto o excesso de chuvas podem causar problemas. Menos precipitação associada a calor elevado pode prejudicar florada, enchimento e maturação; excesso de chuva durante a colheita dificulta a secagem e aumenta o risco de defeitos físicos e sensoriais.
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As projeções climáticas ainda carregam incerteza. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicava em julho de 2026 condições neutras no Pacífico, com probabilidade de manutenção da neutralidade durante boa parte do segundo semestre. No entanto, modelos climáticos seguem monitorando a possibilidade de aquecimento mais intenso das águas do Pacífico, o que mantém o risco de um El Niño forte no radar do setor cafeeiro.
Diante desse cenário, o manejo da lavoura passa a ser decisivo. Ferraresso destaca que plantas bem nutridas e enfolhadas suportam melhor períodos de estresse. Ele recomenda equilíbrio na adubação, aumento da matéria orgânica, manutenção do solo coberto, controle preventivo de pragas e doenças e, onde houver viabilidade econômica, expansão gradual da irrigação. O agrônomo observa que eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos, exigindo sistemas de produção mais resilientes.
Saldanha acrescenta que as práticas de agricultura regenerativa têm mostrado os melhores resultados na adaptação das lavouras. Entre as estratégias citadas estão o uso de plantas de cobertura, compostos orgânicos, manejo para evitar compactação do solo, estímulo ao aprofundamento das raízes, quebra-ventos e até sombreamento em situações específicas. O objetivo é aumentar a infiltração e retenção de água no solo, reduzir a temperatura do ambiente e diminuir o estresse oxidativo das plantas.
Outro ponto de atenção é o custo de produção. Saldanha chama atenção para a necessidade de planejamento financeiro, principalmente diante da volatilidade do mercado e dos preços dos fertilizantes, em especial os nitrogenados. Segundo ele, a confirmação do potencial produtivo da safra 2027 dependerá não apenas do clima, mas também da capacidade do produtor de ajustar fertilização, investir em manejo eficiente e aproveitar janelas de comercialização mais favoráveis.
Apesar das incertezas, os especialistas concordam que ainda há tempo para reduzir riscos. A florada de setembro e outubro será o primeiro grande teste para a safra 2027. Se as chuvas ocorrerem de forma regular e as temperaturas permanecerem dentro da média, parte do potencial produtivo pode ser preservada. Mas, se o calor excessivo e a falta de água se confirmarem nesse período crítico, o Brasil poderá voltar a enfrentar perdas de produtividade e qualidade justamente em um momento em que o mercado mundial continua dependente da oferta brasileira de café.
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