Queda nos abates em julho limita oferta e ajuda a sustentar preços do boi mesmo com desaceleração das exportações

Publicado em 07/08/2026 10:36
Levantamento preliminar de Safras & Mercado aponta redução de 21,6% nos abates em julho e queda de 32% entre as fêmeas

O mercado brasileiro do boi gordo começa a enfrentar uma combinação que merece atenção: a demanda externa perde força, mas os preços da arroba encontram sustentação na redução da oferta de animais para abate.

Os números preliminares de julho levantados pela Consultoria Safras & Mercado, elaborado pelo analista Fernando Henrique Iglesias, ajudam a explicar esse aparente paradoxo. O Brasil abateu aproximadamente 2,99 milhões de bovinos no mês, considerando os sistemas de inspeção federal, estadual e municipal. O volume representa uma queda de 21,6% em relação a julho de 2025, quando os abates alcançaram 3,81 milhões de cabeças.

A retração na oferta é importante porque acontece justamente quando o mercado começa a lidar com uma mudança da demanda com a redução do ritmo das exportações para a China, diante do esgotamento da cota que permite a entrada da carne brasileira no mercado chinês sem a tarifa adicional prevista pela salvaguarda.

Em outras circunstâncias, uma desaceleração das exportações poderia aumentar a disponibilidade de carne no mercado interno, reduzir a necessidade de compra dos frigoríficos e, consequentemente, pressionar a arroba.

Mas não é exatamente isso que está acontecendo.

Oferta menor muda a equação

O mercado está mostrando que não basta olhar apenas para a demanda para entender o comportamento da arroba. Se os frigoríficos reduzem o ritmo de compra, mas encontram também menos animais disponíveis, o ajuste necessário sobre os preços pode ser bem menor.

Em outras palavras, a China pode comprar menos carne, mas também há menos boi chegando ao gancho.

E julho trouxe uma sinalização particularmente relevante sobre a oferta futura.

Abate de fêmeas despenca 32%

O dado mais expressivo do relatório está no abate de fêmeas.

Foram abatidas 760,6 mil fêmeas sob inspeção federal em julho, contra aproximadamente 1,119 milhão no mesmo mês de 2025. Uma redução de 32% em apenas um ano. Trata-se, segundo a Safras & Mercado, da menor quantidade mensal de fêmeas abatidas desde dezembro de 2024.

A mudança fica ainda mais evidente quando observada a sequência dos últimos meses.

Abate de fêmeas – SIF Cabeças
Março/26 1.095.365
Abril/26 1.005.699
Maio/26 994.808
Junho/26 972.073
Julho/26 760.637

Fonte: Safras & Mercado/SIF.

Ou seja, entre março e julho, o abate mensal de fêmeas caiu em aproximadamente 335 mil cabeças.

O movimento é relevante porque as fêmeas tiveram participação importante na ampliação da oferta de animais nos últimos anos. Agora, a forte desaceleração desse fluxo começa a retirar parte dessa disponibilidade do mercado.

No acumulado de janeiro a julho, o abate de fêmeas sob inspeção federal soma 6,696 milhões de cabeças, queda de 9,6% frente às 7,409 milhões registradas no mesmo intervalo de 2025.

Julho pode representar uma mudança importante para a pecuária

O movimento ganha relevância porque acontece depois de anos de oferta elevada de animais, especialmente de fêmeas.

A redução do abate de fêmeas era o fundamento que precisava se consolidar para confirmar a virada definitiva do ciclo pecuário, menos fêmeas enviadas aos frigoríficos pode significar maior retenção nas propriedades e, posteriormente, menor disponibilidade de animais para abate.

E é justamente essa expectativa de oferta mais apertada que começa a ganhar peso na formação das expectativas para a arroba.

Os próprios números gerais mostram uma mudança expressiva. Depois de 3,49 milhões de bovinos abatidos em junho, o volume estimado para julho caiu para 2,99 milhões, redução de aproximadamente 500 mil cabeças de um mês para outro.

Ainda assim, Iglesias não projeta necessariamente uma repetição desse piso em agosto. A expectativa é de que os abates apresentem alguma recuperação em relação a julho, embora permaneçam abaixo dos níveis registrados em agosto de 2025.

E se a China comprar menos?

Essa talvez seja agora a pergunta mais interessante para o pecuarista.

O esgotamento da cota chinesa e a incidência da tarifa adicional sobre volumes excedentes tendem a limitar o apetite das indústrias exportadoras. Portanto, existe um componente baixista do lado da demanda.

Mas julho mostrou que a redução da oferta pode funcionar como contrapeso.

É uma disputa entre duas forças: de um lado, frigoríficos mais cautelosos diante da desaceleração das exportações; de outro, pecuaristas oferecendo menos animais e uma disponibilidade de gado que já não parece tão confortável quanto em 2025.

Por isso, a eventual redução das compras chinesas não necessariamente se traduzirá, na mesma proporção, em queda da arroba.

O comportamento dos abates passa a ser tão importante quanto o desempenho das exportações para determinar os próximos movimentos do mercado.

E há um número que resume bem essa nova equação: em julho, o Brasil abateu 822 mil bovinos a menos que no mesmo mês do ano passado.

Se a demanda perde força, mas a oferta encolhe praticamente ao mesmo tempo, o mercado pode encontrar um novo ponto de equilíbrio — com menos boi disponível justamente no momento em que todos esperavam que a China tivesse força para pressionar os preços para baixo.

* Com auxílio de IA

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Por:
Aleksander Horta - Notícias Agrícolas
Fonte:
Notícias Agrícolas

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