EUA compram 42% mais carne brasileira em setembro, mas avanço não compensa queda das exportações totais
Os Estados Unidos ampliaram as compras de carne bovina brasileira em setembro, primeiro mês de vigência da cota adicional que permite importar determinados produtos com tarifa reduzida. Foram embarcadas 44,4 mil toneladas ao mercado americano, segundo levantamento da Terra Investimentos, com dados do Comex Stat/MDIC.
O volume supera em 42% as 31,3 mil toneladas destinadas aos EUA em agosto. São 13 mil toneladas adicionais em um mês, sinalizando aceleração dos embarques no início da janela comercial mais favorável. Em agosto, os americanos já haviam assumido a liderança entre os compradores da carne brasileira.
A comparação responde à principal questão sobre o período: os números mostram mais carne brasileira sendo enviada aos EUA em setembro. Entretanto, os dados de exportação, isoladamente, não permitem atribuir todo esse crescimento à redução tarifária nem identificar quanto do volume efetivamente entrou pela nova cota.
O resultado americano também contrasta com o desempenho geral das vendas externas. Enquanto os EUA aumentaram suas compras, o Brasil exportou 195,2 mil toneladas de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada, queda de 38% sobre setembro de 2025.
Com as 44,4 mil toneladas, os Estados Unidos responderam por aproximadamente 22,7% das exportações brasileiras de carne bovina no mês. Em agosto, considerando os números do levantamento anterior da Terra, essa participação era próxima de 16%.
O avanço tem relevância para a pecuária porque representa escoamento adicional de carne em um momento em que outros mercados oferecem menos sustentação ao volume total exportado.
Os americanos compraram mais que o dobro do segundo colocado, o Chile, e aproximadamente quatro vezes o volume destinado à China em setembro.
| Principais destinos em setembro de 2026 | Volume embarcado |
|---|---|
| Estados Unidos | 44,4 mil toneladas |
| Chile | 18,9 mil toneladas |
| México | 13,8 mil toneladas |
| Rússia | 11,5 mil toneladas |
| China | 10,9 mil toneladas |
| Países Baixos | 9,1 mil toneladas |
| Egito | 8,3 mil toneladas |
| Filipinas | 7,2 mil toneladas |
Fonte: Terra Investimentos com dados do Comex Stat/MDIC.
Os cinco principais compradores concentraram 51% dos embarques. A distribuição mostra a importância dos mercados alternativos, mas também evidencia que a liderança americana ocorre em um cenário de participação bastante reduzida da China, que respondeu por apenas 5,6% do volume de setembro.
Mas as regras de importação americana exigem uma distinção importante. Não se trata de uma retirada geral de tarifas sobre toda a carne bovina brasileira. A cota adicional contempla aparas e recortes magros destinados principalmente à fabricação de carne moída.
Segundo informação do Ministério da Agricultura divulgada pela Agência Estado, o produto enquadrado na cota passa a pagar US$ 44 por tonelada, em lugar da tarifa de 26,4% aplicada fora dela. A janela vai de 1º de setembro a 30 de novembro de 2026. São até 300 mil toneladas adicionais, distribuídas em parcelas de 100 mil toneladas, compartilhadas entre fornecedores elegíveis. O volume não é reservado exclusivamente ao Brasil. Geraldo Isoldi, analista da Terra Investimentos, explicou que o país integra o grupo de fornecedores sem cota própria e precisa disputar esse acesso com outros exportadores.
A redução do imposto melhora a competitividade da carne brasileira e ajuda a explicar o ambiente favorável às vendas. Contudo, as 44,4 mil toneladas embarcadas em setembro não podem ser tratadas automaticamente como utilização brasileira da cota adicional.
Também existe diferença entre a saída da mercadoria do Brasil e sua entrada no mercado americano. O mês registrado como exportação brasileira pode não coincidir com o desembaraço nos EUA, quando se define o tratamento tarifário.
Mais vendas aos americanos, mas sem recuperação do volume total
A expansão dos embarques aos EUA ajudou a absorver carne brasileira, mas não foi suficiente para devolver às exportações totais o ritmo observado nos últimos dois anos.
As 195,2 mil toneladas de setembro ficaram abaixo das 314,6 mil toneladas de setembro de 2025 e das 251,6 mil toneladas de setembro de 2024, conforme o levantamento da Terra.
O resultado também ficou 4,6% abaixo da média dos meses de setembro entre 2019 e 2025, de 204,6 mil toneladas. Na série , setembro de 2026 ocupa a quarta posição em volume.
Na comparação com agosto deste ano, quando o levantamento anterior apontou 195,7 mil toneladas, o total ficou praticamente estável. Ou seja, houve aumento expressivo das vendas aos americanos, mas pouca mudança no volume agregado. Isso indica que o ganho nos EUA foi acompanhado por redução dos embarques para outros destinos, considerados em conjunto.
Para o pecuarista, essa diferença é decisiva. O mercado americano está funcionando como uma importante sustentação comercial, mas seu crescimento ainda não representa uma recuperação ampla da demanda externa pela carne brasileira.
Preço mais alto amortece a queda da receita
Apesar da retração de 38% no volume frente a setembro do ano passado, o faturamento caiu em proporção menor: 30,6%, para aproximadamente US$ 1,23 bilhão.
O amortecimento veio do preço médio, que alcançou US$ 6.284,70 por tonelada, alta de 11,9% na comparação anual. Segundo a Terra, foi o maior preço médio para setembro na série apresentada.
Com isso, mesmo exportando menos que em 2024 e 2025, o Brasil registrou a segunda maior receita para setembro no histórico do levantamento. O aumento do valor exportado por tonelada não significa, necessariamente, valorização equivalente de todos os produtos ou repasse na mesma proporção ao preço do boi.
O que muda para o produtor brasileiro
O aumento das vendas aos EUA é um sinal favorável para a pecuária. Ao ampliar o escoamento externo, pode ajudar a sustentar a necessidade de compra de gado pelos frigoríficos que atendem esse mercado.
Mas o efeito sobre a arroba dependerá também da oferta de animais prontos, das escalas de abate, do câmbio, dos custos industriais e da demanda pelos demais cortes da carcaça. A expansão americana, concentrada em produtos destinados à carne moída no caso da cota adicional, não resolve sozinha a comercialização de toda a produção.
Outro cuidado é o prazo. A condição comercial mais favorável é temporária, e sua continuidade está sujeita às regras americanas. O Ministério da Agricultura informou que o benefício prevê monitoramento dos preços e possibilidade de cancelamento de parcelas remanescentes se as condições estabelecidas não forem cumpridas.
Por isso, outubro e novembro serão fundamentais para avaliar se o ritmo observado em setembro se mantém e se o ganho americano passa a elevar o volume total exportado.
* Com auxílio de IA
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