El Niño ganha força e redesenha o risco climático na agricultura global

Publicado em 22/04/2026 14:07
Com o enfraquecimento da La Niña e avanço da probabilidade de El Niño, impactos deixam de ser concentrados e passam a afetar de forma desigual regiões produtoras; no Brasil, cenário indica perdas pontuais e maior variabilidade nas condições de safra

A agricultura global entra em um novo ciclo climático marcado menos por um choque uniforme e mais por uma mudança gradual na forma como o risco climático se distribui ao longo do ano. Segundo Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, “o mercado entra em uma fase em que o risco climático deixa de permanecer concentrado no mesmo lugar e passa a mudar de endereço ao longo do calendário”.

Esses fenômenos fazem parte do chamado ENSO (El Niño–Oscilação Sul), um sistema climático que ocorre no Oceano Pacífico e influencia diretamente o regime de chuvas e temperaturas em várias regiões do mundo. De forma simplificada, a La Niña e o El Niño representam fases opostas desse sistema. Enquanto a La Niña costuma resfriar as águas do Pacífico e alterar padrões de clima de uma forma, o El Niño aquece essas águas e provoca efeitos diferentes, mudando o comportamento das chuvas e temperaturas em diversas áreas agrícolas.

Entre março e junho deste ano deve predominar uma fase neutra, período em que não há atuação nem de La Niña nem de El Niño. A partir do meio do ano, porém, o El Niño ganha força, saindo de níveis mais baixos no primeiro semestre para probabilidades acima de 60% no inverno e superando 80% entre agosto e dezembro de 2026.

Essa transição muda a forma como o clima afeta a produção agrícola. Em vez de um risco concentrado em uma única região, os impactos passam a ser mais distribuídos e desiguais. “O que se forma é uma rotação do risco”, afirma a analista. “Algumas origens podem recuperar produtividade, outras podem ganhar volatilidade sem necessariamente perder volume”, explica.

No Brasil, os efeitos não devem ser iguais em todas as regiões. No curto prazo, a safrinha ainda depende mais de como a chuva se distribui do que diretamente do ENSO. O Centro-Oeste apresenta condições relativamente melhores, com maior disponibilidade de umidade, enquanto áreas como Mato Grosso do Sul, Bahia e parte do Matopiba enfrentam maior irregularidade. Neste momento, o principal risco não é uma quebra de safra a nível nacional, mas perdas pontuais causadas por essa irregularidade.

O cenário fica mais sensível olhando para a próxima safra, em 2026/27. “Um El Niño mais organizado tende a elevar a instabilidade climática ao longo do desenvolvimento da próxima safra. No Sul, isso aumenta o risco de excesso hídrico, doenças, perda de qualidade e dificuldade operacional. No centro do país, o problema deixa de ser só volume e passa a ser retomada irregular das chuvas, maior oscilação térmica e dificuldade de manter padrão produtivo uniforme. No Norte e em parte do Nordeste, o risco de estresse hídrico volta a ganhar peso”, comenta Isabella.

 

Nos Estados Unidos, a situação é diferente. Como o país ainda está no início do plantio, há menos espaço para antecipar problemas climáticos neste momento. Além disso, em anos de El Niño, especialmente quando o fenômeno não é extremo, o histórico mostra condições geralmente mais favoráveis para a produção, o que reduz a pressão inicial sobre o mercado.

Na Argentina, a mudança climática tende a reduzir o risco de seca, mas aumenta a atenção para o excesso de chuva, seguindo um padrão parecido com o que observamos no Rio Grande do Sul. Isso pode não afetar apenas o volume produzido, mas também a qualidade dos grãos e o ritmo da colheita, gerando desafios operacionais.

Oportunidades e riscos em um ambiente mais disperso

Um El Niño mais definido pode ajudar na recuperação de áreas que foram mais prejudicadas pela seca nos últimos anos, como o sul do Brasil, mas também traz novos desafios, em especial para nossa principal área produtora, o Centro-Oeste. “Os principais riscos são quatro: produtividade, qualidade, janela operacional e logística”, destaca a analista.  

Por outro lado, os riscos continuam relevantes e aparecem de diferentes formas. Em regiões mais secas, as perdas estão ligadas à falta de chuva e ao calor. Em áreas mais úmidas, os problemas vêm do excesso de precipitação, que pode causar doenças nas lavouras, atrasar a colheita e comprometer a qualidade dos produtos.

De forma geral, 2026 deve ser um ano que exige mais atenção ao clima e maior capacidade de adaptação. A variabilidade entre regiões tende a aumentar, e decisões ligadas ao manejo, ao planejamento da safra e à execução das operações no campo serão fundamentais para lidar com esse novo cenário.

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Fonte:
Biond Agro

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