Custos da ração pressionam a suinocultura e exigem estratégia do produtor em 2026

Publicado em 11/02/2026 06:18 e atualizado em 11/02/2026 07:33
Milho segue como principal vilão dos custos, enquanto eficiência e gestão ganham ainda mais importância nas granjas

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O custo de produção da suinocultura brasileira voltou a acender um sinal de alerta para o produtor rural. Após um primeiro semestre de 2025 marcado por alívio nos gastos, a segunda metade do ano trouxe novamente pressão, puxada principalmente pela alta do milho, insumo que responde por mais de 70% do custo total da atividade.

Esse movimento reforça a necessidade de planejamento e tomada de decisão mais estratégica dentro das granjas. Em um setor que não define preços e depende fortemente do mercado, pequenas variações nos insumos podem fazer grande diferença no resultado final do produtor.

Segundo dados da Embrapa, o comportamento dos custos em 2025 foi dividido em dois momentos bem distintos. O pesquisador da Embrapa Aves e Suínos, Marcelo Miele, explica que a queda inicial deu lugar a uma reversão clara no segundo semestre, com impacto direto sobre a rentabilidade.

Ração representa mais de 70% do custo e dita o ritmo da atividade

“A ração representa mais de 70% do custo total e hoje é o principal fator de pressão sobre o custo do suíno vivo”, destacou Miele. De acordo com ele, o primeiro semestre de 2025 foi marcado pela redução nos preços do milho e do farelo de soja, trazendo certo alívio ao caixa do produtor.

No entanto, esse cenário mudou rapidamente. “A partir do início do segundo semestre, verificamos a reversão dessa tendência, sobretudo puxada pela questão do milho”, afirmou o pesquisador. O fator cíclico da disponibilidade do grão voltou a pesar não apenas na suinocultura, mas também na produção de frangos e ovos.

A Embrapa trabalha com preços de mercado de cada mês para retratar a realidade média do setor. Isso significa que o impacto pode variar conforme a estratégia adotada por cada produtor. Mesmo assim, a pressão foi sentida de forma generalizada no segundo semestre.

Estratégias de compra fazem diferença no impacto dos custos

Marcelo Miele explica que produtores com capacidade de estocagem e gestão de risco conseguem reduzir parte desse impacto. “O valor do milho no custo vai depender muito da estratégia de aquisição e de proteção de risco de cada produtor ou cooperativa”, afirmou.

Segundo ele, quem consegue formar estoque em momentos de preços mais baixos enfrenta oscilações menos intensas. Ainda assim, mesmo esses produtores sentiram a pressão típica do período de entressafra, quando a oferta do grão se torna mais restrita.

Para o especialista, a orientação é clara. “Buscar ter um mínimo de estocagem disponível e capital de giro para aproveitar momentos de preços atrativos é a principal forma de se proteger dessas variações cíclicas”, ressaltou.

Outros custos avançam de forma silenciosa na suinocultura
Além da ração, outros itens vêm ganhando peso ao longo dos últimos anos. Em Santa Catarina, por exemplo, o custo de produção subiu quase 1% em dezembro, novamente impulsionado pelo milho. No entanto, há uma tendência estrutural de aumento em despesas menos visíveis.

“Quando olhamos outros itens, como mão de obra, energia elétrica, construções e equipamentos, vemos uma tendência histórica de alta”, explicou Miele. Esses custos, embora menores que a ração, impactam a depreciação e o custo de capital.

O mercado de trabalho rural também passa por mudanças importantes. “Hoje o mercado rural e urbano são vasos comunicantes, o que leva a uma maior equalização dos salários”, afirmou. Esse movimento pressiona a folha de pagamento e exige mais eficiência da gestão.

Diferença entre produtor independente e integrado
O impacto desses custos varia conforme o perfil do produtor. Para quem atua de forma independente ou no mercado spot, a atenção se concentra principalmente na ração e na genética. “Esses são os principais itens de gestão para esse produtor”, destacou o pesquisador.

Já no sistema de integração, onde a ração e a genética ficam sob responsabilidade da agroindústria, outros custos ganham maior relevância. “Fica muito claro o impacto da mão de obra, da energia e da estrutura”, explicou Miele.

Essa diferença reforça a importância de o produtor conhecer bem sua realidade e focar nos pontos que realmente fazem diferença dentro do seu modelo de produção.

Alta dos custos nem sempre significa menor rentabilidade

Ao longo de 2025, o custo de produção acumulou alta de 4,39%. Mesmo assim, isso não significou, automaticamente, perda de rentabilidade.

“Não necessariamente maiores custos vão prejudicar a rentabilidade, porque tudo depende do outro lado da equação, que é a renda”, explicou Miele.

Segundo ele, até setembro e outubro, a relação entre o preço do suíno vivo e o custo da ração foi favorável. O avanço das exportações e o bom consumo interno sustentaram os preços pagos ao produtor.

Essa relação começou a se deteriorar apenas no final do ano, com custos mais altos e recuo nos preços do suíno. Ainda assim, os patamares seguem melhores que a média histórica.

O que esperar para os custos em 2026

Para 2026, a expectativa é de maior estabilidade, pelo menos no curto prazo. “Devemos manter um patamar semelhante ao final de 2025 e início de 2026”, avaliou o pesquisador.

Segundo Miele, o primeiro semestre tende a ser marcado por custos estáveis, com pequenas oscilações ligadas ao mercado do milho. A maior incerteza está do lado da oferta e dos preços do suíno no mercado interno e internacional.

“Questões climáticas, geopolíticas e até políticas internas podem afetar tanto a disponibilidade de grãos quanto às exportações”, alertou.

Principais desafios econômicos da suinocultura

Entre os desafios, o especialista destaca dois grandes grupos. O primeiro é interno à granja. “Buscar eficiência, reduzir custos e produzir com sustentabilidade é fundamental”, afirmou Miele, lembrando a importância do bem-estar animal e da sucessão familiar.

O segundo desafio é macroeconômico. “Equilibrar o alojamento de matrizes com a demanda do mercado é um exercício complexo”, explicou. Qualquer descompasso pode gerar excesso de oferta e pressionar os preços.

Além disso, fatores sanitários seguem no radar. “Qualquer evento que afete a exportação pode gerar desequilíbrios importantes”, alertou.

Recado final ao produtor rural

Para encerrar, Marcelo Miele deixou uma mensagem direta ao produtor: “O principal é se valer de boas informações e de especialistas para definir o melhor momento de compra dos grãos”.Ele também destacou o trabalho da Embrapa com ingredientes alternativos ao milho. “Esses estudos são fundamentais, especialmente em regiões com maior déficit de grãos”, ressaltou.

Por fim, reforçou que eficiência, redução de desperdícios e sustentabilidade seguem como pilares para manter o equilíbrio econômico da atividade no longo prazo.

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Por:
Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

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