Chuvas prejudicam qualidade da aveia-branca no RS e levam parte dos grãos para alimentação animal
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As chuvas frequentes no Rio Grande do Sul estão comprometendo não apenas o andamento da colheita da aveia-branca, mas também a qualidade comercial de parte dos grãos produzidos no Estado. Na região de Ijuí, a deterioração do produto já tem uma consequência concreta: lotes que apresentam dificuldades para atender à indústria alimentícia estão sendo destinados à alimentação animal, conforme o levantamento mais recente da Emater/RS-Ascar.
O Informativo Conjuntural divulgado em 15 de outubro aponta que 22% da área estadual de aveia-branca havia sido colhida. A estimativa da Emater é de 387.697 hectares cultivados e produtividade média projetada de 2.322 quilos por hectare, mas os resultados apresentam diferenças expressivas entre as regiões, com lavouras afetadas por excesso de umidade, ventos e granizo.
Em Ijuí, as precipitações impediram o avanço da colheita durante a semana. Os grãos retirados do campo anteriormente permanecem armazenados nas propriedades, mas a baixa qualidade tem dificultado sua destinação à indústria alimentícia, levando ao direcionamento para alimentação animal.
O cenário representa um novo desdobramento dos problemas observados no início de outubro, quando a Emater já havia identificado, na região, grãos escurecidos, acidez elevada e peso do hectolitro (PH) inferior a 50. Naquele momento, a preocupação estava concentrada nas dificuldades de comercialização industrial. Agora, o relatório registra a destinação do produto para outro mercado.
A mudança é relevante porque a aveia-branca pode atender diferentes segmentos consumidores, com exigências específicas de qualidade. A perda de características adequadas a determinados usos industriais não significa necessariamente ausência de aproveitamento comercial, mas pode alterar as possibilidades de venda do produto.
Umidade compromete qualidade e muda destino dos grãos
Os problemas de qualidade em Ijuí já vinham sendo registrados pela Emater desde o início de outubro. Naquele momento, a instituição relatava grãos de coloração escura, acidez elevada e peso do hectolitro inferior a 50, características que dificultavam a comercialização para a indústria alimentícia. No levantamento de 15 de outubro, o cenário ganhou uma consequência concreta, com a destinação do produto colhido anteriormente à alimentação animal.
O peso do hectolitro (PH) é um dos indicadores utilizados na classificação comercial dos cereais. Embora valores mais baixos possam dificultar o atendimento às exigências da indústria alimentícia, o PH isoladamente não determina a destinação de um lote, que também depende de outros parâmetros de qualidade e das especificações dos compradores.
Ainda não há, nos documentos analisados, quantificação do volume de aveia-branca que deixou de atender à indústria alimentícia nem dos valores obtidos com a comercialização para alimentação animal.
Temporais provocam perdas superiores a 50% em áreas de Santa Rosa
Além da qualidade comercial, os eventos climáticos recentes também afetaram diretamente a produtividade de parte das lavouras gaúchas.
Na região de Santa Rosa, os cultivos em final de ciclo e maturação, especialmente na porção leste, sofreram danos expressivos com a ocorrência de ventos fortes e granizo. Segundo a Emater, os ventos provocaram o acamamento das plantas, enquanto o granizo causou debulha das panículas, com perda de grãos antes da colheita.
Nas áreas mais adiantadas atingidas pelos temporais, as perdas superam 50% da produção esperada. Entretanto, a situação não é uniforme: lavouras com boa sanidade e nutrição apresentaram danos mais brandos, mantendo expectativa de preservar mais de 70% da produtividade inicialmente prevista.
A diferença entre esses resultados mostra que o impacto dos temporais depende das condições de cada lavoura, incluindo seu estágio de desenvolvimento e o manejo adotado.
Em Frederico Westphalen, a colheita havia alcançado 53% da área, com outros 45% em maturação e 2% em enchimento de grãos. A Emater também identificou acamamento em diversas propriedades após o excesso de chuvas, granizo e ventos fortes, comprometendo a produtividade e a qualidade.
Já na região de Soledade, apenas 3% da área havia sido colhida. Apesar das diferenças entre lavouras, a instituição avaliou o padrão produtivo como satisfatório, ressaltando a influência do nível tecnológico empregado.
O conjunto dessas informações reforça que, embora a produtividade média estadual permaneça projetada em 2.322 quilos por hectare, a colheita poderá apresentar resultados bastante distintos entre propriedades e regiões. As perdas superiores a 50% relatadas em Santa Rosa representam situações específicas de lavouras atingidas pelos temporais e não podem ser aplicadas à produção total do Rio Grande do Sul.
Cenário contrasta com qualidade registrada em 2025
O desempenho da aveia-branca em 2026 também apresenta diferenças relevantes em relação à temporada anterior. No fim de novembro de 2025, a Emater relatava condições favoráveis à preservação da qualidade dos grãos, com a colheita praticamente concluída no Rio Grande do Sul. Naquele levantamento, a produtividade média estadual estava estimada em 2.445 quilos por hectare.
Na região de Ijuí, onde os problemas de qualidade agora provocam redirecionamento comercial, a avaliação de 2025 era positiva. A Emater classificava a qualidade dos grãos como excelente, favorecendo o atendimento à indústria alimentícia.
A diferença entre os relatos evidencia como as condições climáticas na fase final do ciclo podem interferir no resultado comercial da cultura. Enquanto em 2025 o produto da região apresentava características favoráveis ao processamento industrial, em 2026 parte dos grãos colhidos enfrenta dificuldades para atender a esse destino.
As estimativas estaduais de produtividade também apresentam diferença entre as temporadas. Os 2.322 quilos por hectare projetados atualmente estão aproximadamente 5% abaixo dos 2.445 quilos por hectare informados no levantamento do fim de novembro de 2025.
A comparação, entretanto, envolve momentos diferentes do acompanhamento das safras: a estimativa de 2025 já refletia uma colheita praticamente concluída, enquanto a de 2026 ainda poderá ser revisada conforme o avanço dos trabalhos.
O contraste mais relevante, portanto, não está apenas na produtividade média, mas na mudança das condições de qualidade observadas em Ijuí e nas consequências para a destinação dos grãos.
Destinação comercial muda, mas impacto econômico ainda não está dimensionado
O levantamento de 15 de outubro também apresenta diferenças nas referências de comercialização da aveia-branca entre regiões do Rio Grande do Sul.
Em Ijuí, o preço médio informado pela Emater foi de R$ 50,40 por saca de 60 quilos. Em Soledade, a referência foi de R$ 66,00, enquanto Frederico Westphalen registrou R$ 72,00 por saca.
Essas cotações, entretanto, não permitem calcular um deságio específico pela perda de qualidade. Os valores correspondem a referências regionais distintas e não constituem uma comparação entre produtos de mesma qualidade e diferentes destinações comerciais.
Também não há informações suficientes sobre volumes comercializados, contratos, custos de produção e preços efetivamente recebidos pelos agricultores para estimar o impacto sobre a renda.
O que já está documentado é uma mudança nas possibilidades de comercialização de parte da safra: grãos que enfrentam dificuldades para atender à indústria alimentícia estão sendo direcionados a outro uso, enquanto lavouras de outras regiões apresentam perdas físicas provocadas pelos temporais.
Com apenas 22% da área estadual colhida até o levantamento de 15 de outubro, os resultados finais ainda dependerão da evolução das condições meteorológicas e da qualidade dos grãos retirados do campo nas próximas semanas.
Para os produtores, o avanço da colheita deverá esclarecer não apenas quanto será produzido, mas também quanto do volume obtido terá condições de atender aos diferentes mercados consumidores. Na safra 2026, a experiência de Ijuí mostra que, além da produtividade, a qualidade do produto pode se tornar determinante para definir seu destino comercial.
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