China e EUA endurecem o discurso e mercado da soja cede mais de 2% em Chicago

Publicado em 19/11/2018 17:59 e atualizado em 20/11/2018 02:41
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A semana começou com muito temor no mercado sobre mais uma rodada de fracassadas negociações entre China e Estados Unidos em torno de uma guerra comercial que já se estende desde meados de maio. A disputa tem promovido uma série de impactos nos cenário global e um dos mercados que mais tem sentido essa pressão é o da soja. Com as expectativas de que as duas maiores economias do mundo não deverão logo costurar e efetivar um acordo sobre suas taxações impostas um pelo outro, somente nesta segunda-feira (19), os futuros da oleaginosa cederam mais de 2% na Bolsa de Chicago. 

Os preços da commodity perderam mais de 17 pontos entre seus principais vencimentos, com o janeiro/19 encerrando o dia com US$ 8,74 e o maio/19, referência para as cotações no Brasil, com US$ 9,01 por bushel. 

Há meses o mercado na Bolsa de Chicago vem caminhando de lado, sem forças pra uma recuperação. E os movimentos mais intensos se dão na medida que novas informações chegam sobre as conversas entre China e Estados Unidos e têm sido, de uma forma geral, em campo negativo. 

Reflexo disso são os baixos números referentes à demanda pela soja norte-americana, principalmente por parte da China. "Na medida em que se vai o sentimento de um acordo, vai também a força do mercado da soja", diz Britt O'Connell, consultor da Commodity Risk Management Group. 

O total de soja comprometido pelos EUA da nova safra é 43% menor do que o registrado no mesmo período do ano anterior. As vendas para exportação vêm marcando seu ritmo mais lento em anos. Do mesmo modo, os embarques norte-americanos também são bem menores do que os observados na temporada anterior. Até este momento, são 11.032,297 milhões de toneladas, contra pouco mais de 19,3 milhões do mesmo período do ano comercial 2017/18. 

Para o Brasil

No Brasil, as expectativas também são elevadas, uma vez que a demanda chinesa que não está nos EUA está no Brasil. Os otimismos das últimas semanas em relação ao acordo chegaram, inclusive, a pressionar os prêmios no Brasil. 

Todavia, analistas e consultores voltam a afirmar que o mercado da soja em 2019 será sim favorável ao produtor brasileiro. Afinal, firmado um acordo entre China e Estados Unidos, voltam a subir as cotações na Bolsa de Chicago. Sem consenso, os prêmios pagos pela oleaginosa brasileira devem voltar a se fortalecer, uma vez que o Brasil se manteria como principal fornecedor da commodity para o país asiático. 

Nos portos, as cotações cederam e também terminaram o dia perdendo mais de 2,3% tanto em Paranaguá, quanto em Rio Grande. No terminal paranaense a soja disponível perdeu 2,35% e fechou com R$ 83,00 por saca, enquanto a safra nova foi a R$ 77,00, com queda de 2,53%. No gaúcho, baixa de 2,34% no spot, para R$ 83,50, e de 2,31% no dezembro, que encerrou em R$ 84,50 por saca. 

Expectativas - China x EUA

Ao contrário do que se esperava no meio da semana passada, a retórica entre líderes dos dois países foi mudando mais uma vez e se endurecendo frente aos movimentos da guerra, o que acabou tirando parte do otimismo dos participantes do mercado em torno de uma possibilidade de acordo. 

Um dos sinais que indicou essa possível falta de consenso veio com a falha que os líderes da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec, na sigla em inglês) não conseguiram chegar a um acordo pela primeira vez desde sua primeira reunião em 1993. Um dos líderes do grupo atribuiu essa falha aos "profundos desentendimentos entre a China e os Estados Unidos". 

Donald Trump não compareceu ao evento e mandou seu vice, Mike Pence. O político afirmou que o país não irá recuar das tarifas até que os chineses anunciem mudanças. A China, porém, também tem se mostrado bastante resiliente. 

"Nós tomamos ação decisiva para lidar com o nosso desequilíbrio com a China. Colocamos tarifas sobre 250 bilhões de dólares em bens chineses, e podemos mais do que dobrar esse número", disse durante a cúpula, e a declaração não agradou o mercado. Na semana anterior, Trump havia dito que seu governo não poderia impor mais tarifas sobre a nação asiática. 

Os olhos todos agora se voltam para o novo encontro que acontece entre Donald Trump e Xi Jinping, durante a reunião do G20, na Argentina, em 30 de novembro e 1º de dezembro. Até lá, as especulações crescem - assim como seu impacto sobre os preços de produtos de ambos os países no mercado internacional - e as pesquisas de quais os resultados reais já são observados e quais ainda podem ser esperados. 

Noticiada pela agência internacional Bloomberg, uma pesquisa EconPol Europe, uma rede de pesquisadores da União Europeia, mostrou que a China está, de fato, pagando a maior parte do custo gerado por essa guerra comercial. Segundo os autores do estudo, Benedikt Zoller-Rydzek e Gabriel Felbermayr, empresas e consumidores americanos só pagarão 4,5% a mais sobre os produtos depois que os EUA impuseram tarifas de 25% sobre US$ 250 bilhões em mercadorias chinesas. Os outros 20,5% cairão sobre os produtores chineses. 

Dessa forma, ainda segundo os especialistas, Trump alcança um de seus objetivos, que é o de reduzir as importações americanas de produtos chineses tarifados em mais de um terço e reduzir seu déficit comercial bilateral em cerca de 17%. Os pesquisadores mostraram ainda que com os custos econômicos transferidos para a China, as contribuições dos EUA levarão a um ganho líquido de US$ 18,4 bilhões para o governo americano. 

Com informações da Bloomberg e do Sucessful Farming.

A China cancela compras dos EUA e amplia as importações do Brasil e da Argentina

(por MAURO ZAFALON, na FOLHA DE S. PAULO)

Maior produtor mundial de soja, os Estados Unidos conseguiram colocar apenas 21,5 milhões de toneladas da oleaginosa no mercado externo nesta safra 2018/19.

Em igual período do ano passado, as exportações dos americanos somavam 30,4 milhões. Na média das últimas cinco safras, eram 31,6 milhões no mesmo período.

Essa queda nas vendas externas americanas foi provocada pela taxação de produtos chineses pelos EUA. Em contrapartida, os asiáticos retaliaram os americanos.

A China, que havia comprado 16 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos na safra 2017/18, até outubro do ano passado, adquiriu apenas 271 mil toneladas nesta safra.

O pedido chinês, de 1,5 milhão de toneladas —feito antes do início da guerra comercial entre os dois países—, já foi reduzido para 964 mil, sem garantias de que realmente essa soja seja adquirida.

Os chineses vinham mantendo uma média de compra de 18 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos até outubro de cada ano.

O apetite chinês fez com que o Brasil exportasse 5,4 milhões de toneladas de soja no mês passado, um recorde para o período do ano.

O maior volume colocado no mercado externo nos meses de outubro havia sido o de 2015, quando as vendas somaram 2,6 milhões de toneladas.

De janeiro a setembro deste ano, ao comprar 55 milhões de toneladas do Brasil, a China ficou com 80% da soja nacional exportada. Em 2017, eram 48 milhões, conforme dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior).

Se não houver uma solução para essa guerra comercial entre as duas potências até o período de plantio do ano que vem, os produtores dos EUA vão apostar mais no milho do que na soja.

Eles imaginavam que a China pudesse reagir às medidas de Trump, mas não que ela fosse tão radical. Para compensar possíveis estragos nas exportações agropecuárias dos Estados Unidos, o presidente liberou US$ 11 bilhões em subsídios para o setor.

As receitas brasileiras com as exportações de soja em grão somaram US$ 2,1 bilhões no mês passado, superando em 114% as de igual período do ano passado, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. A China liderou as compras.

A demanda mundial por soja deverá atingir 700 milhões de toneladas em 2050, o dobro da atual. Assim como já ocorre atualmente, o Brasil será um dos principias fornecedores da oleaginosa no mundo.

A soja já é, de longe, o principal produto agrícola do país. Ela representa 36% do valor bruto de produção e 33% das exportações do agronegócio. (Mauro Zafalon).

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas/FolhadeSPaulo

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