Dólar sofre maior queda em 2 anos; Bolsa tem novo dia de recuperação pós-Moro

Publicado em 28/04/2020 16:34 e atualizado em 28/04/2020 21:42 1260 exibições

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Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar sofreu nesta terça-feira a maior queda em quase dois anos, com o real na dianteira dos ganhos nos mercados globais de câmbio diante de um dia mais positivo para moedas de risco e com operadores realizando lucros após os recentes recordes do dólar.

Uma combinação de fatores pesou contra a moeda dos EUA nesta sessão, mas analistas destacaram a percepção de que, com a saída de Sergio Moro do governo, o presidente Jair Bolsonaro poderia se sentir mais "dependente" do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Moro e Guedes formavam a dupla de "superministros", ambos vistos como importantes suportes ao presidente junto à opinião pública e ao mercado financeiro.

A expectativa de maior apoio a Guedes por parte do presidente teria como base o entendimento de que uma turbulência contínua nos mercados --como a vista na semana passada na esteira da atribulada saída de Moro-- poderia prejudicar mais a avaliação geral sobre o governo.

Na sequência da demissão de Moro, aumentaram especulações de que Guedes poderia ser o próximo a deixar o governo, o que gerou grande volatilidade nos mercados e ditou fortes quedas na bolsa e altas acentuadas no dólar e nas taxas de juros de mercado.

Na véspera, porém, houve movimento de Bolsonaro no sentido de demonstrar mais alinhamento com o chefe da Economia. O presidente disse que "o homem que decide economia no Brasil é um só, chama-se Paulo Guedes".

Além do alívio no ruído sobre Guedes, o recente fortalecimento das intervenções do Banco Central no mercado de câmbio deu mais gás à realização de lucros pelo mercado.

"O BC finalmente atuou pesado no mercado de câmbio ontem e na sexta-feira, ajudando a conter a espiral negativa", disse Sergio Goldenstein, que já chefiou o Departamento de Operações de Mercado Aberto do Banco Central, citando ainda a queda do dólar ante outras divisas emergentes e alguma "acalmada" no cenário político frente à semana anterior.

No somatório de sexta e segunda-feira, o BC colocou 5,275 bilhões de dólares no mercado em dinheiro "novo" na forma de swaps cambiais e moeda spot.

O BC não realizou leilões de câmbio nesta sessão.

O nível "esticado" do dólar --após rali de 11,3% em apenas duas semanas, entre 9 e 24 de abril-- foi outro motivo alegado para o ajuste desta sessão.

"O real me parece muito subvalorizado", disse Robin Brooks, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês). Segundo ele, a desvalorização aproximou o prêmio de risco em real dos vistos em alguns países mais afetados, como Turquia, Ucrânia e África do Sul.

Na mínima desta terça-feira, às 15h13, o dólar desceu a 5,4720 reais na venda, baixa de 3,39%, antes de encerrar com desvalorização de 2,59%, a 5,5172 reais na venda. O recuo é o mais intenso desde 8 de junho de 2018 (-5,59%).

Na B3, o dólar futuro recuava 2,65%, a 5,5070 reais, às 17h30.

O dólar caía 0,1% ante uma cesta de moedas, enquanto peso mexicano, dólar australiano e rand sul-africano, "termômetros" de risco, subiam entre 0,4% e 1,6%.

Bolsa tem novo dia de recuperação pós-Moro: alta de 3,93%, aos 81.312,23 pontos

O Ibovespa deixou para trás o maremoto político da sexta-feira, 24, e encadeou a segunda sessão de retomada nesta semana final do mês, encerrando nesta terça-feira, 28, em alta de 3,93%, aos 81.312,23 pontos, não muito distante da máxima do dia. Assim, faltando duas sessões para o fechamento de abril, o índice de referência da B3 acumula agora ganho de 11,36% no mês, dos quais 7,94% colhidos nesta semana. O giro financeiro da sessão totalizou R$ 27,2 bilhões, com o índice saindo de mínima, na abertura, a 78.243,32 pontos. No ano, o Ibovespa acumula perda de 29,69%.

Uma combinação de fatores positivos contribuiu para que a melhora do humor observada no dia anterior, com a permanência do ministro Paulo Guedes, se estendesse à sessão desta terça-feira: a reação positiva do mercado ao balanço trimestral do Santander, que estimulou o desempenho das ações de bancos, bem como a assimilação tranquila das indicações do presidente Jair Bolsonaro para o Ministério da Justiça e a Polícia Federal, o que se refletiu também em desinclinação da curva de juros em relação à sexta-feira, quando foi consumada a saída de Sergio Moro do governo.

"Talvez a saída do Moro tenha agradado um pouco o Centrão e, assim, a gente volta a ter um governo (com presença política no Congresso), um país minimamente governável", aponta Rafael Bevilacqua, estrategista-chefe da Levante, observando também que eventual melhora da interlocução do Executivo com o Legislativo tende a favorecer a caminhada das reformas, uma vez superado o pior momento da pandemia, e mesmo evitar uma escalada de "custos" políticos e fiscais, como os do funcionalismo, no momento excepcional por que passa o País.

"A política é importantíssima para os movimentos da Bolsa, e pesquisa Datafolha mostrou manutenção do apoio a Bolsonaro, em meio à saída de Sergio Moro e nomeação de André Mendonça para o cargo de ministro da Justiça", aponta Cristiane Fensterseifer, analista de ações da Spiti. "O mercado parece estar mais disposto a tomar risco com base no alinhamento político que Bolsonaro está aparentemente costurando com o Centrão", acrescenta.

Assim, o Kit Brasil, ações com maior exposição ao risco político, voltou a figurar entre os destaques positivos da sessão, assim como no dia anterior. Petrobras ON fechou em alta de 7,26%, com a PN mostrando avanço de 4,86%, Eletrobras ON, de 7,22%, e Banco do Brasil ON, beneficiado como o resto do segmento pelo balanço do Santander, em alta de 13,43%. A unit do banco espanhol subiu 11,47%, enquanto Bradesco ON avançou 9,85% e Itaú Unibanco PN ganhou 8,25%. No Ibovespa, mais um dia de Via Varejo na ponta, em alta de 19,42% no fechamento, seguida por CVC (+14,48%) e Azul (+13,75%), em sessão na qual houve queda de 2,55% no dólar à vista, embora ainda em nível alto, a R$ 5,5151, tendo chegado a R$ 5,4733 na mínima do dia.

Na parte final da sessão, a relativa acomodação do petróleo ante as perdas acentuadas observadas mais cedo e o desempenho então levemente positivo de Wall Street deram fôlego adicional ao Ibovespa, levando o índice a renovar máxima da sessão, em alta pouco acima de 4%, aos 81.427,32 pontos, por volta das 16h.

Assim, no intradia, o índice de referência da B3 voltou a sondar a linha dos 81 mil pontos, a exemplo de quarta e quinta-feira passada, na véspera do explosivo desembarque de Moro. Hoje, contudo, o índice conseguiu se firmar e fechar acima da marca pela primeira vez desde 13 de março, quando foi aos 82.677,91 pontos naquele encerramento. Logo na abertura, o Ibovespa saiu dos 78,2 mil e rompeu com relativa facilidade a linha de resistência dos 80 mil pontos, passando de 79.554,78 pontos, ainda às 10h11, para 80.920,72 pontos no minuto seguinte.

Bolsas de NY fecham em queda, com balanços em foco e pressão sobre a Nasdaq

As bolsas de Nova York fecharam em território negativo nesta terça, 28. Os índices acionários chegaram a subir no início do pregão, mas não tiveram fôlego, com indicadores fracos e, sobretudo, atenção de investidores para balanços corporativos Houve ainda uma piora nos minutos finais do negócio, consolidando o movimento.

O índice Dow Jones fechou em queda de 0,13%, para 24.101,55 pontos, o Nasdaq recuou 1,40%, a 8.607,73 pontos, e o S&P 500 caiu 0,52%, a 2.863,39 pontos.

Entre alguns papéis em foco, Pfizer fechou em baixa de 1,10%, após a companhia registrar queda nas suas vendas no primeiro trimestre. Caterpillar chegou a cair em parte do pregão, mas subiu 0,23%, mesmo com recuo no lucro no trimestre passado, e Alphabet recuou 3,01%, porém esta companhia divulgou resultados após o fechamento.

A abertura em Nova York foi positiva, com maior atenção para as perspectivas de relaxamento gradual das medidas de distanciamento físico impostas pelo coronavírus. Alguns dados, contudo, tiraram fôlego dos índices ainda pela manhã. O índice atividade regional do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de Richmond, por exemplo, recuou a -53 pontos em abril, ante previsão de -42 dos analistas, e a confiança do consumidor também piorou, segundo o Conference Board.

Mais adiante, a Boeing chegou a inverter o sinal, após a notícia do Wall Street Journal, a partir de fontes, segundo a qual a empresa pode enfrentar mais demandas na Justiça americana por supostos problemas na fabricação dos modelos 737 MAX. A Boeing ainda voltou a ganhar fôlego ao longo do dia e fechou em alta de 2,04%.

O setor de tecnologia mostrou mais fraqueza, com Microsoft em baixa de 2,44% e Apple, de 1,62%. Já no setor de energia, ConocoPhillips subiu 3,58% e ExxonMobil, 2,34%, após o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, afirmar que o governo do presidente Donald Trump apoiará o setor, diante da forte queda recente do petróleo.

Fonte:
Reuters

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