Um dia após condenação pelo STF, Bolsonaro anuncia perdão a Daniel Silveira
![]()
Por Alexandre Caverni e Lisandra Paraguassu
(Reuters) - Um dia depois de o Supremo Tribunal Federal condenar, por 10 votos a 1, o deputado Daniel Silveira pelos crimes de coação no curso do processo e atentado ao Estado Democrático de Direito, o presidente Jair Bolsonaro anunciou nesta quinta-feira um decreto concedendo perdão ao parlamentar por meio de uma "graça constitucional", em uma medida com potencial para abrir nova crise com a cúpula do Judiciário.
Silveira foi condenado à pena de 8 anos e 9 meses de reclusão, em regime inicial fechado, além de multa e da perda do mandato parlamentar. A denúncia contra Silveira citava vídeos postados pelo parlamentar em que constam "ameaças e impropérios dirigidos aos ministros do Supremo, mas também uma incitação à animosidade entre as Forças Armadas e o tribunal".
O decreto com a graça foi publicado em edição extra desta quinta-feira do Diário Oficial da União.
Bolsonaro anunciou sua decisão em duas transmissões nas redes sociais, antes mesmo do trânsito em julgado do processo contra Silveira. Nas duas, o presidente leu o decreto e também citou artigos de leis e da Constituição usados para basear sua decisão.
Bolsonaro disse ainda que sua decisão estaria amparada em jurisprudência do ministro do STF Alexandre de Moraes, que foi o relator do julgamento de Silveira.
"É um direito do presidente da República conceder a graça", disse Bolsonaro no final da segunda live. "O decreto é constitucional e será cumprido."
Entre as considerações apresentadas no decreto para a concessão da graça estão a de "que a liberdade de expressão é pilar essencial da sociedade em todas as suas manifestações" e a de que a sociedade estaria "em legítima comoção diante da condenação de parlamentar resguardado pela inviolabilidade de opinião deferida pela Constituição que somente fez uso de sua liberdade de expressão".
Procurado pela Reuters, o STF não comentou de imediato a decisão de Bolsonaro.
Entre parlamentares de oposição, no entanto, a reação foi rápida.
"Bolsonaro é um golpista que atenta contra os Poderes o tempo todo. O indulto beneficiando Daniel Silveira é afronta ao STF e claramente inconstitucional. Entrarei com medida judicial ainda hoje contra o decreto ilegal. O fascismo não passará. O Congresso precisa se manifestar", tuitou o senador Renan Calheiros (MDB-AL).
"O decreto de Bolsonaro é uma afronta ao STF e à separação de Poderes! Além de não se sustentar juridicamente, por desvio de finalidade, o indulto de Daniel Silveira permite que aqueles que atentam contra a nossa democracia não sejam devidamente responsabilizados", publicou o deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), em sua conta no Twitter.
Para o ex-governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite (PSDB), "defender invasão ao STF e agressão a ministro não é liberdade de opinião, é crime".
"Garantias constitucionais não podem ser escudo para atacar a democracia e a CF (Constituição Federal). O indulto presidencial ao condenado afronta o STF, a democracia e os brasileiros que respeitam os limites constitucionais", acrescentou Leite no Twitter.
Cristiano Vilela, sócio do escritório Vilela, Miranda e Aguiar Fernandes Advogados, e da Confederação Americana dos Organismos Eleitorais Subnacionais, lembra que o presidente tem a prerrogativa constitucional de conceder indulto, mas destaca que "uma concessão de graça específica e anterior à condenação definitiva é totalmente inusual".
"O ponto que deve pautar a discussão nos próximos dias é: o referido decreto de graça é constitucional? O presidente teria feito a interpretação adequada do dispositivo constitucional que lhe permite editar tal medida?, aponta Vilela.
Para ele, embora Bolsonaro tenha essa prerrogativa, "não é constitucional a concessão dessa medida a quem ainda não possui condenação efetiva".
"A concessão dessa medida viola a separação de Poderes e as prerrogativas constitucionais do Judiciário. Sem contar no evidente interesse político do presidente na concessão da graça a um aliado político”, acrescenta Vilela.
0 comentário
Minério de ferro sobe com aumento da demanda por petróleo e matérias-primas
Importações de óleo de palma pela Índia caem 19% em março, ao menor nível em três meses
JBS chega a acordo provisório com trabalhadores em greve em fábrica nos EUA
Forças Armadas de Israel terão controle total de cidade do sul do Líbano em alguns dias, diz autoridade
Irã diz que bloqueio naval dos EUA é ilegal e ameaça retaliação
Milho/Cepea: Indicador segue estável, na casa dos R$ 69/sc