Flávio Bolsonaro testa a capacidade de perpetuar o legado do pai na disputa pela Presidência
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Por Luciana Magalhaes
SÃO PAULO, 28 Set (Reuters) - Da cela de 12 metros quadrados onde cumpria pena de 27 anos de prisão por uma tentativa fracassada de golpe de Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro passou seu bem mais precioso para o filho mais velho: sua bênção para que ele ocupasse seu lugar na eleição presidencial deste ano.
"Vamos lá, é você, está decidido", lembra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal candidato de direita na votação de outubro, repetindo as palavras ditas por seu pai no final de 2025.
Flávio imediatamente aceitou a missão: "Ele estava sob um sistema de tortura, humilhado, condenado, simplesmente porque o sistema não quis que ele permanecesse na vida pública", disse o senador em entrevista à Reuters em dezembro passado, logo após anunciar sua candidatura à Presidência.
Pai e filho agora têm a chance de se vingar dos políticos, juízes e grupos de interesse que eles culpam por ter afastado Jair Bolsonaro da vida pública.
O senador, de 45 anos, aparece em quase todas as pesquisas em empate técnico em um eventual segundo turno contra o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A força da candidatura de Flávio e a lealdade do eleitorado de direita a seu pai transformaram o Brasil em um teste exemplar para uma crença compartilhada por muitos na esquerda ao redor do mundo: a de que processar e prender um líder populista pode conter o movimento que ele construiu.
Para Carlos Melo, professor de ciência política do Insper, o ex-presidente tornou-se provavelmente o porta-voz mais expressivo de um fenômeno que já existia no Brasil -- e no mundo -- e que transcende a sua própria figura.
"A extrema-direita vai além de Bolsonaro", acrescentou.
"TINHA QUE TER O NOME BOLSONARO"
A competitividade da candidatura do Flávio foi uma surpresa para muitos.
Ao contrário de seus irmãos, ele enfrentou acusações de corrupção, incluindo a de liderar um suposto esquema de propinas que, segundo os promotores, envolveu parentes de Adriano da Nóbrega, um ex-policial acusado de chefiar uma quadrilha de assassinos de aluguel.
Dos três filhos mais velhos do ex-presidente, o senador também era o menos combativo, suavizando a postura que foi central para a ascensão de seu pai e apresentando-se como um "Bolsonaro mais centrado".
O anúncio de sua candidatura abalou os mercados, com investidores e banqueiros alternando entre reuniões de alto nível e uma postura cautelosa e distante durante grande parte da campanha.
Outros partidos conservadores também se mostraram céticos, com alguns políticos de direita anunciando suas próprias candidaturas à Presidência.
Durante meses, Flávio tentou, sem sucesso, convencer outros partidos a se juntarem à sua chapa, acabando por escolher um parlamentar pouco conhecido do seu próprio Partido Liberal (PL) como seu vice.
"Faltou comunicação no início, talvez por esta ser a primeira candidatura presidencial do Flávio", disse a senadora Tereza Cristina (PP-MS), uma importante líder do agronegócio que foi impedida pela direção de seu partido de aceitar o papel de vice de Bolsonaro.
Ainda assim, os membros do PL defenderam a escolha.
"Tinha que ter o nome Bolsonaro", disse o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, à Reuters.
APOIO GLOBAL CONSERVADOR
Apesar da recepção inicial morna no Brasil, a candidatura de Flávio foi rapidamente abraçada pelo movimento conservador global, que anseia ver o Brasil se juntar à onda regional de direita que levou ao poder Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, e Daniel Noboa no Equador.
Flávio seguiu a mesma estratégia de muitos populistas de direita da América Latina, unindo os conservadores em torno do tradicionalismo cristão, da economia de livre mercado e de uma forte hostilidade à esquerda.
Ele promete cortar impostos e implementar um ajuste fiscal agressivo para reduzir os juros no Brasil. A plataforma agradou a comunidade empresarial e os investidores, embora economistas afirmem que as propostas carecem de detalhes.
"Flávio compreendeu que o que está em jogo é um rearranjo estratégico mundial, e ele quer participar dele", disse Paulo Kramer, cientista político e ex-conselheiro de campanha de Jair Bolsonaro.
Com a ajuda de seu irmão Eduardo Bolsonaro, que foi destituído do cargo de deputado federal após se mudar para os Estados Unidos, Flávio conseguiu, no final de maio, uma reunião com o presidente norte-americano, Donald Trump, que o descreveu como "um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!".
Durante seu primeiro mandato na Casa Branca, Trump estabeleceu uma estreita amizade política e pessoal com Jair Bolsonaro. A tentativa de Flávio de reacender essa aliança, no entanto, não agradou a muitos brasileiros.
Seu encontro com Trump foi precedido pelo anúncio de Washington sobre altas tarifas de importação para produtos brasileiros, dando a Lula a oportunidade de rotular Flávio e Eduardo de "traidores da pátria".
As pesquisas mostraram que os brasileiros culpam mais os Bolsonaro do que Lula pelas tarifas, que foram impostas em julho.
"Não acho que o presidente Trump tenha ajudado Flávio em nada", disse Thomas Shannon, que foi embaixador dos EUA no Brasil durante o governo Obama. "Acho que isso foi mais prejudicial para o Flávio."
"DARK HORSE"
Superado o ceticismo inicial em relação à sua candidatura, a campanha de Flávio sofreu seu maior revés em maio, após uma investigação revelar que ele havia pedido dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro, acusado de liderar um esquema de fraude bilionário, para financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro em Hollywood.
Os contratos de produção detalhavam transferências de US$12 milhões de um fundo ligado a Vorcaro para um fundo norte-americano administrado por um advogado que representa Eduardo Bolsonaro.
Após negar inicialmente qualquer envolvimento, Flávio admitiu que o banqueiro havia financiado o filme, mas afirmou que não houve irregularidades, apenas um "financiamento privado, sem absolutamente nenhuma contrapartida".
A revelação, no entanto, provocou uma reação imediata. O apoio ao senador caiu nas pesquisas e alguns de seus aliados se tornaram abertamente críticos. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), que também concorre à Presidência pela direita, chamou o ocorrido de "tapa na cara dos brasileiros de bem".
Documentos judiciais recentemente divulgados revelaram que a Polícia Federal abriu, em julho, uma investigação contra Flávio por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e fuga de capitais relacionada ao projeto cinematográfico.
Ele classificou a investigação como um ataque político-eleitoral e, desde então, recuperou-se nas pesquisas a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições, em 4 de outubro. Um segundo turno será realizado em 25 de outubro, caso nenhum candidato obtenha maioria simples dos votos válidos.
Se Bolsonaro vencer, tomará posse cerca de quatro anos depois de milhares de apoiadores de seu pai terem invadido o Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Palácio do Planalto, destruindo janelas, móveis e obras de arte em um ataque contra a derrota de Bolsonaro na eleição de 2022.
A possibilidade de um Bolsonaro retornar ao Planalto aumenta a probabilidade de novos conflitos institucionais.
Caso eleito, Flávio provavelmente agiria rapidamente para desfazer duas decisões judiciais contra sua família: a prisão domiciliar de seu pai em Brasília e a condenação de Eduardo Bolsonaro por coação relacionada a uma campanha de lobby nos EUA que, segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), buscava pressionar ministros do STF a não condenarem o ex-presidente.
Libertar seu pai é o principal objetivo de Flávio, algo que o senador mencionou durante um comício no Dia da Independência no início deste mês.
"Peço a Deus a oportunidade de subir a rampa no ano que vem do Palácio do Planalto junto com o presidente Jair Messias Bolsonaro para que ele coloque essa faixa no meu peito", disse.
(Reportagem de Luciana MagalhãesEdição de Manuela Andreoni)
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