Norte de MT é exemplo de desenvolvimento energético para o país

Publicado em 22/04/2009 11:57

Para uma população de quase 30 municípios do Nortão de Mato Grosso a redenção para o progresso, qualidade de vida e avanço civilizatório na década de 1990 era materializada em torres e cabos de aço energizados que deveriam ligar Sinop a Cuiabá, dando acesso a eles a um “pedacinho do céu” proporcionado pela energia elétrica. A história mostra que não erraram no sonho: em 1996 a Eletronorte energizou 446 quilômetros de linha de transmissão em 230 kV que, tal como uma artéria para o corpo humano, irrigou a região com a força vital que faltava para ela desenvolver seu potencial econômico e social. Para se ter uma idéia do potencial local, Sinop, o município pólo da região, viu sua população crescer 544% da década de 1970 para a de 80. Na década seguinte o fenômeno continuou e o número da população dobrou. Depois manteve o índice sempre positivo, porém, no patamar de crescimento de um dígito.
     
     Migrantes do Sul do país vieram em massa para a região, incentivados pelo governo federal, que na década de 70, doou e vendeu a preços baixos terras tidas como excelentes para a agricultura e em extensão suficiente para desenvolver a pecuária. Terra agricultável e extensa na mão de um povo que em 1995 somava 397.720 pessoas com gana, experiência e muita vontade de “vencer na vida”, foram elementos que associados às possibilidades que a energia elétrica oferece, fizeram com que a região hoje colabore com 35% do PIB do estado, de R$ 52 bilhões. “A nossa vida pode ser dividida em antes e depois do funcionamento dessa linha de transmissão. Antes vivíamos num inferno e depois, posso dizer que entramos no céu. Eu vim para Sinop em 1986 para trabalhar com madeireira e ficava por dias na mata, no escuro, com luz de lampião. Quando voltávamos para a cidade era raro um final de semana que não tinha blecaute. Eram de quatro a cinco por dia. A cidade de Sinop era abastecida por geradores a diesel da distribuidora estatal Cemat, com uma energia de péssima qualidade, que tinha dia sim, dia não”, lembra o presidente do Sindicato Rural de Sinop, Antônio Galvan.
     
     Se o “céu” é considerado maior capacidade de sobrevivência, conforto e condições para desenvolver, Galvan está certo, pois para instalar hospitais que precisam manter bancos de sangue, vacinas, produtos conservados a uma temperatura adequada e Unidades Intensivas de Tratamento (UTIs), energia elétrica é fundamental. Para instalar semáforos, tratamento de esgoto e atividades industriais, energia firme e de qualidade é requisito básico. E foi desse estágio, de energia fraquejando, com transmissão interrompida ao longo do dia, com uma rede de distribuição quase inexistente e sem condições de atender à indústria, que a região saiu a partir em 1996, para uma condição de acesso à energia firme, constante e de qualidade com a chegada do linhão. Isso possibilitou que o crescimento populacional na região fosse de 18% em 10 anos entre 1995 e 2005 e que chegasse em 2008 a 543.393, 19% da população do estado. Alguns municípios como Feliz Natal e Carlinda nem existiam até a chegada do linhão, que funcionou como um incentivo para que crescessem. Hoje juntos eles somam 22.791 habitantes.
     
     Após a chegada da energia a população pôde instalar indústrias moveleiras, de transformação, de beneficiamento de soja, de carne, usinas de biodiesel, entre outras atividades que exigiam continuidade e firmeza de energia. “Para indústria e para o crescimento da atividade econômica a vinda de energia por essa linha foi uma revolução que impactou no aumento da qualidade das atividades e no tamanho delas. Saímos das famosas serrarias para as indústrias de beneficiamento de madeira, fábricas de arroz, de processamento de carne bovina e de aves. E passamos a contribuir com as exportações para o mercado externo. Mas, para a população residencial também foi uma revolução. Só com essa linha a comunidade pode entrar na era do ar condicionado, as escolas puderam ter aulas à noite e as donas de casa ganharam em tempo com as máquinas de lavar, encerar, entre outros confortos”, avalia o economista e doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), José Manuel Marta.
     
     O crescimento no consumo de energia da região, composta por 28 municípios, nos 10 anos após a energização da linha Nobres/Sinop é um dos indicadores que apontam o progresso local. Dados da Rede Cemat, hoje empresa do setor privado, mostram o aumento de 370% no consumo de energia de 1994 para 2004, quando era fornecido para região 18 megawatts e 74 megawatts respectivamente. Hoje, a carga que a região recebe por essa linha é de 170 megawatts. O índice de crescimento no consumo é considerado um dos mais espantosos, não só se comparado a outras regiões de Mato Grosso, mas também com a de qualquer outra do país, afirma um dos primeiros técnicos de operação da Eletronorte em Mato Grosso, Sebastião Pereira Rosa, com base em análises da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
     
     Ao considerar os municípios que tiveram maior crescimento de carga, os números soam como algo estupendo. Em 10 anos, o que teve o maior aumento de carga foi Nova Mutum, com crescimento de 1.435%. Ele foi criado oficialmente em 1988 e, segundo a classificação do PNUD, está entre as regiões consideradas de alto desenvolvimento humano (IDH maior que 0,8). No período 1991 a 2000, o IDH-M de Nova Mutum cresceu 12,34%, passando de 0,713 em 1991 para 0,801 em 2000. O Produto Interno Bruto (PIB) do município foi de 535 milhões em 2006, o 13º maior do estado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
     
     A base econômica de Nova Mutum é a agricultura com o plantio e armazenamento de soja, arroz e milho. A pecuária também é tida como destaque no local, além da suinocultura e da avicultura. Já o município que teve o segundo maior crescimento de consumo de energia, Sorriso, é também o que tem o melhor IDH de Mato Grosso: no período 1991-2000, o índice cresceu 11,05%, passando de 0,742 em 1991 para 0,824 em 2000. A dimensão que mais contribuiu para o crescimento foi a longevidade, com 38,0%, seguida pela renda, com 32,7% e pela educação, com 29,4%. Se mantivesse esta taxa de crescimento do IDH-M, o município levaria nove anos para alcançar São Caetano do Sul (SP), o município com o melhor IDH-M do Brasil (0,919).
     
     O PIB de Sorriso é o quinto maior do estado: 1,016 bilhão. O da capital naquele ano foi de 7,1 bilhões e o de Rondonópolis, o segundo maior, de 2,7 bilhões. “O processo de desenvolvimento do Nortão pode, sem dúvida nenhuma, ser dividido em antes e depois dessa linha. Antes se queimava diesel para o abastecimento doméstico, o que dizer então para atrair indústrias. Após a linha veio o desenvolvimento que desde então se consolida ano após ano. A região ali hoje tem frigoríficos, indústrias, processamento de matéria prima de origem animal e vegetal. As cidades se consolidaram. Tinha cidade ali que nem existia e algumas que antes do linhão eram apenas embriões, como Nova Mutum. Hoje lá tem Perdigão, tem Bunge”, avalia o deputado federal (PR/MT) e ex-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Homero Pereira.
     
     O doutor José Marta lembra que no final da década de 1970, com exceção de Rondonópolis e alguns municípios da Baixada Cuiabana, que abrange a capital de Mato Grosso e municípios do seu entorno, o resto do estado era todo abastecido com energia elétrica produzida por geradores a diesel. Em cidades como Pontes e Lacerda, 442 quilômetros de Cuiabá, ele recorda que a energia era fornecida das 18h até às 22h. “Foi no contexto da crise do petróleo que o governo federal passou a planejar a construção de usinas hidrelétricas e consequentemente dos linhões para fazer o transporte dela. Energia naquela época era um artigo de luxo, caro, pois era gerada com a queima de diesel e além de tudo isso, tinha péssima qualidade. O linhão foi um marco da entrada do estado em outro patamar econômico”, reforça o doutor.
     
     O gerente da Divisão de Operação da Eletronorte em Mato Grosso, José Martins do Prado, corrobora a declaração do estudioso. Ele afirma que na capital, até 1978, usava-se grupo gerador diesel e que só com a chegada da linha de 138 kV, de Rio Verde/Rondonópolis e a continuidade dela até Cuiabá, no final da década de 70 é que a capital e os municípios do seu entorno passaram a ter energia gerada em hidrelétricas. “Naquela época o fornecimento era apenas das 7h às 22h e na região central da cidade. Em bairros e nas cidades do interior usava-se lampião e vela depois das 22h. Só depois da chegada dessas linhas que a distribuição passou a se estruturar. E no Nortão, a dificuldade era maior ainda. Mas como a migração foi muito intensa, a população começou a pressionar e então foi definida a construção da linha”, lembra.
     
     Sem a linha, Marta lembra que além de se preocuparem com a atividade fim de suas pequenas e micro empresas, os empresários do Nortão tinham que se ocupar da estrutura de geradores de energia, da mão de obra empregada nessa atividade e da manutenção dos motores, que viviam sendo substituídos em função das constantes oscilações da carga. “Isso não era nada animador e as atividades industriais demandavam um custo muito maior”.
     
     A demanda da região por energia elétrica quando a linha Nobres/Sinop começou a operar era de 15 megawatts, que percorriam 446 quilômetros de extensão passando pelos municípios de Nobres, Nova Mutum, Sorriso e Sinop. Na obra foram investidos R$ 88 milhões, mais de dois anos de trabalho e, caso ela fosse avaliada apenas do ponto de vista mercadológico, não sairia do papel. “Esse foi um empreendimento que nasceu pela pressão do povo que vivia no que chamavam à época de nova fronteira agrícola. Gente que via na falta de energia um entrave para o seu crescimento e que exigiu essa ponte com o resto do Brasil. A necessidade de energia era cada vez mais crescente e a concessionária do estado alegava não ter recursos para esse tipo de investimento. Foi assim que o estado pediu a ajuda ao governo federal, que determinou que a Eletronorte se responsabilizasse pela obra”, conta o primeiro gerente da Regional de Transmissão da Eletronorte em Mato Grosso, Francisco Sperandeo.
     
     E foi assim que no ano de 1991, com o projeto feito por Brasília na mão, o traçado marcado pelas torres e pelos cabos de alta tensão começaram a fazer o caminho pelo cerrado mato-grossense rumo ao Nortão, seguindo a BR-163, rodovias e estradas. Cerca de mil homens trabalharam nas obras, terceirizadas para empreiteiras, na fundação das torres autoportantes que sustentavam os cabos de alta tensão que transmitem em corrente alternada. A distância entre uma torre e outra é de 400 metros e segundo um dos engenheiros eletricistas que trabalhou na obra, o hoje gerente de obras de Mato Grosso, Hélio Monti, seguir o traçado não foi muito difícil, porque a área já estava bastante desmatada. Mas, ele afirma que a grande dificuldade da época era a de conseguir materiais. “O governo estadual foi nosso parceiro, pois tínhamos que buscar materiais e equipamentos em almoxarifados de outras unidades e para fazer isso usamos aviões que eles fretavam. Tudo para adiantar o trabalho que levou mais tempo do que queríamos”.
     
     Hélio lembra que construir essa linha foi marcante para todos os membros da equipe, que eram encarados como “heróis” e recebidos com entusiasmo nas regiões por onde passavam. “É muito diferente construir uma linha num lugar onde o abastecimento de energia é muito esperado. A população não colocava dificuldades em nos receber e em ajudar. Faziam galinhadas, festas e sempre nos convidavam. Os políticos e autoridades se colocavam à disposição para solucionar qualquer entrave. Para se ter uma idéia, quando cheguei em Sinop para marcar a obra da subestação, a imprensa descobriu que estávamos lá e rádio, tevês e jornais foram logo atrás das novidades. A linha era um anseio muito grande da população da região e qualquer informação nova sobre ela era notícia”, relembra.
     
     O gerente de Obras da Eletronorte à época, Gustavo Reis Vasconcelos, lembra que mesmo durante a colocação das torres durante as obras, a população não acreditava que ela viraria realidade. “Foi uma conquista muito grande para eles, afinal, era uma solicitação que vinha de mais de 10 anos, com o povo sofrendo sem energia. Os que podiam mais tinham geradores, quem não podia, vivia mesmo a base de velas e lamparinas. E foi uma obra difícil para viabilizarmos equipamentos. Trouxemos muito material de Rondônia, de seis a sete carretas, numa época que era difícil logística, acesso e material”.
     
     Mas, com a presença de autoridades e com a expectativa de toda uma população, entrou em operação no dia oito de dezembro de 1994 a linha de transmissão de Nobres/Sinop (326 quilômetros), operando no primeiro momento com tensão de 138 kV. Gustavo Vasconcelos lembra que para a inauguração veio o presidente Itamar Franco, o ministro das Minas e Energia Delcídio do Amaral, o então governador de Mato Grosso Jaime Campos e toda a população de Sinop, que se posicionou na praça central. “O marco simbólico da ligação da linha foi uma lâmpada, acendida pelo presidente. Foi uma festa no dia. E dois anos depois, a inauguração de um novo trecho foi feito, dessa vez com o presidente Fernando Henrique Cardoso, para mudar a tensão para 230 kV”, conta.
     
     E por conta da determinação da população e da crença do governo federal na força de vontade um povo, que relembra Sperandeo, “trabalhava de domingo a domingo na construção das cidades”, é que o Nortão é hoje o que é, avalia Gustavo. “O desenvolvimento dessa região ocorreu com a chegada da energia. Na mão daquele povo, ela foi a responsável pelo desenvolvimento”, conclui.
     
     Lucas do Rio Verde
     
     Um exemplo do que os gestores de Mato Grosso desejam para o desenvolvimento do estado nos próximos 20 anos é encontrado hoje, num dos municípios por onde a linha de transmissão da Eletronorte passa, antes de chegar no seu destino final. Lucas do Rio Verde, 350 quilômetros de Cuiabá, está no Centro-Norte do estado e junto com outras cinco cidades concentra o maior PIB per capta de Mato Grosso: R$ 27,103 mil. Por ter na produção de soja, milho e outros grãos a principal atividade do agronegócio, ela conseguiu atrair a maior fábrica da Sadia na América Latina para o seu território e vive atualmente sua segunda explosão de crescimento. Na planta da empresa consta um frigorífico de aves, que na sua capacidade máxima tem previsão de abater 500 mil frangos por dia; um frigorífico de suíno; uma fábrica de ração e uma indústria de derivado, os chamados embutidos (presunto, salsichas, apresentados, entre outros). Atualmente o frigorífico de aves abate de 100 a 120 por dia.
     
     A partir de 2007, quando os planos da empresa começaram a se concretizar na cidade, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Lucas do Rio Verde, Raimundo Dantas Filho, afirma que o lugar experimentou um crescimento populacional de 20% ao ano e passou a receber outras indústrias, empresas e serviços. “Tudo mudou depois da Sadia. Hoje nossa demanda por escolas é de duas por ano, com vagas para 600 alunos cada. Postos de Saúde teremos que fazer em mesma quantidade. Só para a Sadia começar a operar aqui ela teve que contratar 2,5 mil pessoas, sendo que a maioria veio de fora da cidade. O que nos obrigou a construir um conjunto habitacional com 1,5 mil casas, que devem chegar a 3 mil”, relata.
     
     Nada disso, avalia o secretário adjunto de planejamento do estado de Mato Grosso, Arnaldo Alves de Souza Neto, seria possível sem a energia elétrica. “Duas coisas são fundamentais para verificarmos esse fenômeno que assistimos na região: uma é a energia elétrica de qualidade e a outra é a estrutura de escoamento, pois não adianta nada produzir sem ter como escoar essa produção. E depois da década de 1990 pudemos ter essas duas condições na região”.
     
     Até 2010, a previsão é que a Sadia empregue 6,8 mil pessoas diretamente e gere 18 mil empregos indiretos. Depois que ela se instalou, Lucas do Rio Verde também passou a ter uma fábrica de biodiesel, uma esmagadora de soja e uma indústria dinamarquesa de produção de telhas isotérmicas. “Junto disso tudo veio também a mão-de-obra qualificada, o crescimento dos serviços e da demanda por serviço público. Para não termos um crescimento desordenado, já concluímos o nosso Plano Diretor, documento que nos indicará como crescer de forma planejada, pois temos que manter a nossa qualidade. Hoje somos a única cidade 100% asfaltada de Mato Grosso”.
     
      O secretário adjunto de planejamento lembra que o Estado desenvolveu um documento chamado “MT+20”, que consiste num plano de desenvolvimento para Mato Grosso. Um dos itens do documento estabelece como meta a redução, em 20 anos, de ao menos 10% da dependência da economia local em relação ao produto primário do agronegócio. “Queremos que outras cidades do estado vivam o que Lucas está vivendo hoje, a capacidade de manufaturar seus produtos primários. A Sadia se instalou ali diante da capacidade de transformar proteína vegetal em proteína animal. Isso agrega valor e traz complexidade para a economia. Podemos chamar o município hoje de um pólo de transformação do produto primário em manufaturado e é isso que buscamos”.

 

Fonte: 24 Horas News

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Fonte:
24 Horas News

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1 comentário

  • Rafael Casonatto Lucas do Rio Verde - MT

    só falta o governo do estado baixar um pouco os impostos da energia e telefonia

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