Soja: Apesar de queda na CBOT, preços se mantêm firmes no Brasil

Publicado em 18/07/2014 16:31 e atualizado em 18/07/2014 17:37 2933 exibições

O mercado internacional da soja registrou uma semana de intensa volatilidade e, depois de trabalhar muitas vezes nos campos positivo e negativo na sessão desta sexta-feira (18), o mercado acabou encerrando os negócios em queda na Bolsa de Chicago. As perdas nas posições mais negociadas ficaram entre 6,25 e 8,75 pontos e o vencimento novembro ficou abaixo dos US$ 11 por bushel, valendo US$ 10,85.

Mercado no Brasil - Dólar x Real

Essa falta de direção para os preços em Chicago deixou o mercado brasileiro também um pouco mais volátil. Enquanto as cotações apresentavam baixas na CBOT, no Brasil os preços eram beneficiados pelos altos prêmios pagos nos portos, pela demanda aquecida - para exportação e também interna - e pela valorização do dólar frente ao real. Dessa forma, nas três primeiras semanas de julho, as baixas dos valores praticados em Chicago aliados aos prêmios são bem menores do que as registradas só pelos preços da CBOT. 

De acordo com um levantamento do Notícias Agrícolas, o prêmio para o vencimento agosto fechou o período com 42,73% de alta; contra uma queda de 11,37% para o preço em Chicago. Já para  o valor da CBOT mais o prêmio caiu 7,23%. Assim, a saca de soja cotada em reais registrou uma queda de 6,22%. Para o contrato setembro, a alta do prêmio foi de 28,13%. Em Chicago, o valor da oleaginosa caiu 6,72%, porém, com o valor do prêmio, a queda é de 2,57%.  Além disso,  nesse mesmo intervalo de tempo, o dólar registou uma valorização de 1,09%. 

Gráfico Soja - Soja Chicago x Soja Chicago + Prêmio

O ritmo de negócios no Brasil foi um pouco mais acelerado nessa semana do que nas últimas, entretanto, ainda está bem abaixo do registrado em anos anteriores. Da safra 2013/14, de acordo com o último levantamento da agência Safras & Mercado, 82% já havia sido comercializada e, do que resta, o produtor tem se mostrado mais retraído em busca de melhores oportunidades de comercialização. 

Embora os preços tenham tentado se manter firmes nos portos por conta desse cenário de bons prêmios mais alta do dólar, no interior do país, em importantes praças. Ainda segundo números da Safras, em Passo Fundo/RS, o valor da saca de soja disponível caiu de R$ 63,50 para R$ 62,00; em Cascavel a baixa foi de R$ 62,00 para R$ 60,50. Em contrapartida, houve alta em Rondonópolis/MT - de R$ 57,00 para R$ 58,00 -, em Dourados/MS, onde o valor foi de R$ 58,00 para R$ 58,50 e Rio Verde/GO, com alta de R$ 59,00 para R$ 60,00 por saca.    

A preocupação maior do produtor brasileiro tem sido, nesse momento, os valores praticados para a safra nova - 2014/15 - diante desse novo patamar de negócios em Chicago. Porém, mesmo com as perspectivas de uma grande oferta na próxima temporada, os prêmios para essa safra também se mostram positivos em Paranaguá. Para março/15, o valor é de US$ 0,65 acima dos valores praticados em Chicago e, para abril/15 o número atual é de US$ 0,45. 

Como explicou o consultor de mercado Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, esse é um sinal de que o mercado brasileiro de soja continua sendo bastante demandado e que é necessário que o produtor rural se atente a mais fatores além da movimentação dos preços na CBOT. Em Mato Grosso, por exemplo, a diferença entre o preço que o produtor quer receber pela sua soja da safra nova e o valor que o comprador pretende pagar está baixo nesse momento. 

O sojicultor colocou um nível de preços entre US$ 21,00 e US$ 23,00, mas os compradores têm oferecido algo entre US$ 18,00 e US$ 19,00. "O grande diferencial agora é que os compradores querem comprar em reais agora - entre R$ 60,00 e R$ 62,00 nos portos, e os vendedores querem fazer fechamento em dólares, na faixa de US$ 30,00. Então, nesse momento o que temos visto, com esses prêmios atrativos, há um diferencial só de moeda (...) porque o produtor está apostando na soja como um ativo financeiro", explica Brandalizze. 

Segundo explicou o consultor, esses preços mais altos pedidos pelo produtor brasileiro já contabilizam o aumento nos custos de produção que serão sentidos nessa próxima safra, além das flutuações que o câmbio apresenta e que deverão se intensificar nos próximos meses, principalmente com um nervosismo maior no mercado financeiro, pelas intervenções do governo e frente à corrida eleitoral.

"O governo tem fôlego para forçar o câmbio para baixo, mas certamente, no médio prazo, terá que deixá-lo evoluir para patamares mais próximos da realidade, que deveriam ser superiores a R$ 2,40, e por isso os produtores querem fechar suas posições em dólar. Os níveis de moeda, portanto, são os principais obstáculos", diz. 

Área de Plantio no Brasil

Para Brandalizze, mesmo com um mercado mais pressionado e diante de um significativo aumento nos custos de produção - que está na casa dos 5% ao ano -  o Brasil não deverá registrar uma redução na área de plantio, como vinha sendo esperado por algumas consultorias privadas internacionais. 

A demanda dá significativas indicações de crescimento e muitos países, além da China, vem melhorando sua dieta, aumentando o consumo de proteína animal e, consequentemente, um consumo maior de rações. Somente na China, a demanda por alimentação animal deverá apresentar deverá crescer para 25 milhões de toneladas. 

"O produtor, nos últimos quatro anos, se capitalizou bem e tem áreas de pastagens degradadas para plantar mais. Além disso, temos uma parcela de produtores que está em fase de crescimento de área, de potencial produtivo, e uma fatia de produtores mais jovens, que também querem crescer, ou seja, estamos em um momento de crescimento", diz Vlamir Brandalizze. 

O consultor explica também que muitas áreas foram preparadas para essa nova safra em estados como Mato Grosso, Piauí, Tocantins, e o produtor não deixará de plantá-las e acredita ainda que ele não aposta em um mercado somente baixista. "O mundo vai precisar de soja do ano que vem e é importante que o Brasil continue produzindo cada vez mais para se consolidar como o maior exportador mundial". Assim, Brandalizze acredita que possam ser cultivados 1 milhão de hectares a mais, com esse aumento podendo chegar até a 2 milhões. 

Atualmente, o mercado da soja conta com mais de 200 compradores e há, basicamente, apenas quatro países - Brasil, Estados Unidos, Argentina e Paraguai - para fornecer soja para o mundo. "Já temos uma demanda de mais de 300 milhões de toneladas, o potencial de crescimento para os próximos 10 anos é de mais 100 milhões e quem pode produzir esse volume a mais é o Brasil", explica.

Falta de direção em Chicago

Nesta sexta, o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) anunciou novas vendas de soja da safra 2014/15 e essa informação trouxe algum fôlego para as cotações. O órgão informou que foram vendidas 464 mil toneladas para destinos desconhecidos e mais 116 mil toneladas para a China, neste caso com contrato de opção de origem. 

Por outro lado, o desenvolvimento das lavouras nos Estados Unidos continua sendo bastante satisfatório e as perspectivas seguem indicando para uma grande safra no país. A última estimativa do USDA é de que sejam colhidas mais de 103 milhões de toneladas, com uma produtividade recorde superior a 51 sacas por hectare.

Apesar disso, os olhos do mercado e dos investidores seguem atentos ao comportamento e desenvolvimento do clima no país, principalmente para esse mês de agosto, que é o mais importante para o cultivo da soja. Nas próximas semanas, as plantações passam da fase de floração para a a formação de vagens e enchimento de grãos, e isso deve exigir boas temperaturas e chuvas de bons volumes e bem distribuídas. 

Algumas previsões vêm temperaturas mais altas para o próximo mês em algumas regiões, e talvez um tempo um pouco mais seco na região oeste do Corn Belt. No entanto, ainda são informações prematuras que não chegam com tanta força ao mercado nesse momento.  

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Por:
Carla Mendes
Fonte:
Notícias Agrícolas

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