Mercado da soja dá "sinais de adequação" para garantir oferta no fim do ano, diz presidente da Cargill/BR

Publicado em 26/08/2020 10:17 492 exibições

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Com volume recorde de exportação nos últimos meses, o mercado de soja mostra em agosto "sinais de adequação" para garantir a disponibilidade interna de grão, farelo e óleo para o fim do ano, diz o presidente da Cargill no Brasil, Paulo Sousa, em entrevista exclusiva ao Broadcast Agro. "A safra foi muito boa, mas não recorde, e os volumes de exportação, sim, foram recordes", afirma o executivo. Segundo ele, o ritmo de embarques de soja em grão ao exterior até o momento é "fantástico, mas insustentável" nos próximos meses, já que o estoque de soja brasileira está diminuindo e o grão está ficando menos competitivo no mercado internacional.

O executivo lembra que, dentro de cerca de 30 dias, começará a entrar no mercado a nova safra norte-americana. "Agora é o momento que o mercado muda do Hemisfério Sul para o Hemisfério Norte como principal fornecedor." Segundo Sousa, os estoques que ficaram no País tendem a abastecer as necessidades locais até a chegada da próxima safra, que deve começar a ser plantada mês que vem. No mercado interno, afirma, a demanda também é firme, puxada pelo uso do farelo para ração, com o bom momento do setor de proteína animal, e de óleo para biodiesel, apesar das polêmicas recentes sobre a mistura no diesel. "Não existe um cenário folgado para o fim do ano, mas o mercado está fazendo o que tem que fazer para garantir que essa oferta (de soja) esteja disponível", afirma.

Para a safra 2020/21, Sousa vê crescimento de área plantada no Brasil, com substituição de cana-de-açúcar por soja em áreas do norte do Paraná, São Paulo e Triângulo Mineiro e conversão de áreas de pastagem em soja em Goiás e Mato Grosso. Sem falar em números, ele aponta "um porcentual recorde" de venda antecipada da oleaginosa por parte de produtores, que atribui a uma relação de troca por insumos atrativa. Na avaliação do executivo, após o ritmo acelerado de vendas da safra 2020/21 até o momento, a expectativa para os próximos meses é de comercialização de produtores um pouco mais lenta. Segundo ele, o País tende a se aproximar da colheita com um porcentual de soja negociado "ainda um pouco acima da média histórica, mas menos descolado da média de comercialização do que agora".

De acordo com Sousa, o ano de 2020 para o setor exportador de grãos do Brasil tem sido "uma grata surpresa, superando a expectativa em termos de volume e competitividade". Por um lado, houve interesse de países importadores em antecipar compras para garantir oferta e se precaver contra problemas de logística durante a pandemia de covid-19. Por outro lado, a recuperação da produção de carne suína da China após a peste suína africana e o aumento da produção de frango chinesa contribuíram para o maior apetite do país pela oleaginosa, segundo o executivo.

Mesmo em momentos em que a China buscava menos soja no Brasil, outros destinos demandavam o grão brasileiro, diante dos valores atrativos do produto do País em dólar. "A desvalorização do real trouxe agressividade na ponta vendedora, no caso o produtor brasileiro, em negociar grãos, com preços em reais fantásticos", afirma Sousa. Paralelamente, o produtor argentino, principal concorrente no Hemisfério Sul, evitava negociar a sua safra logo após a colheita devido ao receio da inflação e ao aumento das tarifas de exportação. Além disso, a logística brasileira funcionou "muito bem", segundo o executivo, com a conclusão do asfaltamento da BR-163, operação eficiente de ferrovias e um outono seco sem muitas chuvas no País, que permitiu agilidade nos carregamentos. "Foi uma combinação muito positiva, que fez o Brasil exportar volumes recordes de soja praticamente todos os meses desde fevereiro."

Quanto ao milho, o executivo evitou fazer previsões quanto às exportações brasileiras. "Ainda é bem presente na mente de todos o cenário de três a quatro anos atrás de aperto no mercado doméstico, com o Brasil tendo que importar bastante milho, então todo mundo está olhando com bastante cuidado para garantir o suprimento doméstico", destacou. Para o executivo, se o preço do milho doméstico subir muito, é possível que haja "washout", com a venda no mercado interno de milho adquirido para exportação e o cumprimento de compromissos de fornecimento ao exterior com o cereal da região do Mar Negro, dos Estados Unidos ou da Argentina.

Riscos - Sousa não vê risco para as exportações brasileiras com o fato de China ter adquirido grãos dos Estados Unidos. "A China precisa tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos para o seu suprimento de soja", diz, afirmando que as ofertas dos dois países são complementares. "O mundo não pode ficar só no Hemisfério Sul nem só do Hemisfério Norte, é uma competição saudável global que existe no fornecimento."

Conforme Sousa, o maior risco para o agronegócio brasileiro está relacionado à falta de alinhamento entre a realidade do setor e a percepção no exterior no que tange à sustentabilidade. A Cargill anunciou recentemente o mapeamento georreferenciado de 100% de sua cadeia de suprimentos no Brasil, o que permite à empresa identificar e localizar todos os fornecedores diretos e indiretos, e calculou, pela primeira vez, a participação estimada de sua soja no Brasil cultivada em terras livres de desmatamento e conversão (95,68%).

O executivo, que participou de reuniões com o Conselho Nacional da Amazônia Legal, disse que há "interesse do governo de conversar e ouvir" o que a empresa escuta de clientes de outros países. Sousa considera positiva a preocupação de outras empresas além do segmento do agro sobre a imagem do Brasil no exterior. "Ter grande parte da economia consciente de que esse cenário atual não é sustentável para a nossa visão de País de longo prazo é o primeiro grande fator a forçar mudança", afirma. "Com isso, a fase 2 é, de mãos dadas com o governo, fazer a mudança acontecer."

Para Sousa, o Brasil precisa mostrar um Código Florestal "amplamente implementado e em execução". "Se não tivermos a visão clara e conseguirmos mostrar, por meio da aplicação do Código Florestal, que quem compra produto agro de origem brasileira está comprando algo produzido dentro de normas sustentáveis, é complicado. Temos que sair um pouco só do discurso e ir para a prática."

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Fonte:
Estadão Conteúdo

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