Soja 26/27: retração na expansão de área indica um teto para o crescimento?
Depois de anos avançando sobre novas áreas e estabelecendo sucessivos recordes de produção, a soja brasileira chega à safra 2026/27 diante de uma mudança importante de ritmo. Diferentes projeções privadas apontam para um crescimento excepcionalmente pequeno da área cultivada, enquanto relatos de produtores em várias regiões do país mostram margens mais apertadas, dificuldade de acesso ao crédito e redução dos investimentos nas lavouras.
A AgRural estima 49,006 milhões de hectares destinados à soja, avanço de 0,9% sobre a temporada anterior. A Datagro trabalha com 49,3 milhões de hectares, crescimento de apenas 0,3%, enquanto a StoneX projeta 49,5 milhões, alta de 0,76%. Já a Safras & Mercado estima 49,1 milhões de hectares, expansão de 1,2%.
Embora os números variem entre as consultorias, todos apontam na mesma direção: o ritmo de crescimento da área perdeu força. Diante desse cenário, uma pergunta começa a ganhar espaço: o Brasil está encontrando um teto para continuar ampliando sua produção de soja no mesmo ritmo dos últimos anos?
Para João Vitor Aguiar, analista de mercado da Pátria Agronegócios, a desaceleração tem raízes principalmente econômicas. Segundo ele, a rentabilidade da soja caiu para cerca de 14%, muito abaixo do pico de 51% observado entre 2020 e 2022.
“Quando nós somamos uma dificuldade de crédito, uma rentabilidade muito baixa, são os dois pilares que de fato freiam o nosso ímpeto de expandir as áreas”, afirma.
O cenário descrito pelo analista aparece também nos relatos reunidos pelo Notícias Agrícolas em diferentes regiões produtoras. Além de restringir a abertura de novas áreas, margens menores e crédito mais caro começam a influenciar também o nível de investimento realizado dentro das lavouras.
No Maranhão, por exemplo, a desaceleração ocorre justamente depois de um período de forte avanço da agricultura sobre antigas áreas de pecuária. Gesiel Dal Pont, presidente da Aprosoja MA, relata que regiões que ainda estavam consolidando essa expansão passaram a enfrentar o estreitamento das margens ao mesmo tempo em que produtores ainda carregam investimentos realizados nos últimos anos.
Segundo Dal Pont, a safra 2026/27 pode ser implantada em torno de 1,4 milhão de hectares no estado, sem expansão relevante em relação à temporada anterior. Ele também relata produtores que ainda não conseguiram fechar a compra de fertilizantes diante da restrição de crédito.
No Pará, o cenário também aponta para maior seletividade. A perspectiva é de que expansões já estruturadas possam continuar, mas áreas de menor produtividade ou com retorno econômico mais apertado sejam deixadas de lado. Em São Paulo, além da pressão dos custos, a soja enfrenta competição com outras culturas em determinadas regiões, aumentando a necessidade de avaliar qual atividade oferece melhor retorno por hectare.
Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins também apresentam sinais de cautela para a próxima temporada. Os relatos passam pela redução do uso de fertilizantes, maior aproveitamento da fertilidade já construída nos solos, dificuldade de crédito e peso elevado dos custos operacionais. No Paraná, a preocupação se concentra ainda mais na gestão da safra, com necessidade de travamento de custos e maior atenção às oportunidades de comercialização.
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Menos investimento por hectare
O movimento não está limitado à área plantada. Segundo Aguiar, produtores também vêm ajustando o pacote tecnológico para reduzir o custo de implantação da soja.
“Esse ano não faltam exemplos de redução de 100 pontos para 50 pontos de fósforo”, afirma. De acordo com o analista, a demanda nacional relacionada às adubações com fosfatos estaria aproximadamente 20% menor.
A redução, entretanto, não significa necessariamente perda imediata de produtividade. Aguiar destaca que muitas áreas brasileiras passaram por vários anos de construção de fertilidade e que parte dos ajustes atuais pode significar uso mais eficiente dos nutrientes já disponíveis no solo.
“Não necessariamente uma redução de adubação significa uma diminuição de teto produtivo, porque muitas vezes nós estamos colocando aquilo que de fato a planta necessita”, explica.
Para o analista, há investimentos que podem ser ajustados com maior facilidade, enquanto outros oferecem risco maior quando reduzidos. Entre os pontos menos administráveis, ele destaca a qualidade das sementes e o correto posicionamento das cultivares.
Essa diferença é importante porque separa duas situações distintas: o produtor pode reduzir custos sem necessariamente comprometer o potencial da lavoura quando melhora a eficiência de manejo, mas cortes realizados apenas pela falta de recursos podem começar a cobrar preço caso atinjam componentes essenciais da produção.
Freio econômico não significa esgotamento produtivo
É justamente nesse ponto que a discussão sobre um possível teto para a soja brasileira ganha uma segunda dimensão.
Para Rogério Coimbra, professor da UFMT em Sinop, a desaceleração do investimento não significa que o país tenha esgotado sua capacidade de aumentar produtividade. Os avanços tecnológicos obtidos ao longo dos últimos anos, a evolução genética, o manejo e a própria construção da fertilidade dos solos ainda oferecem espaço para novos ganhos.
Assim, o limite que começa a aparecer na safra 2026/27 parece estar mais relacionado à economia da expansão do que à capacidade agronômica brasileira.
O produtor continua tendo acesso à tecnologia capaz de elevar produtividade, mas o investimento precisa se justificar diante de uma relação mais apertada entre custo e preço. Da mesma forma, novas áreas ainda podem ser incorporadas, mas regiões marginais ou que exigem investimentos elevados para entrar em produção passam a enfrentar uma seleção econômica muito maior.
Aguiar considera natural que o ritmo de crescimento diminua depois da forte expansão recente da oferta mundial. Segundo os dados citados pelo analista, a produção global aumentou 76 milhões de toneladas entre 2010 e 2020 e mais 85 milhões de toneladas apenas entre 2020 e 2025.
“Tem muita oferta no mercado e essa oferta que é precificada reduzindo o preço”, afirma. Para ele, diante desse crescimento, não seria natural esperar que a expansão continue ocorrendo de maneira tão agressiva indefinidamente.
Ainda assim, o analista acredita que uma nova produção recorde continua possível em 2026/27. Mesmo com avanço de área próximo de 0,8%, um cenário de produtividade dentro da normalidade seria suficiente para elevar novamente o volume produzido, desde que o clima não imponha perdas importantes.
A discussão, portanto, não aponta necessariamente para um teto absoluto da produção brasileira de soja. O que começa a ficar mais evidente é um limite econômico para manter o ritmo de expansão registrado nos últimos anos.
Com menos espaço para simplesmente incorporar novas áreas e produtores mais criteriosos na aplicação de capital por hectare, a produtividade tende a assumir papel cada vez mais importante para sustentar novos recordes. A soja brasileira pode continuar crescendo, mas cada novo hectare, e cada investimento realizado dentro dele, terá de justificar cada vez melhor a própria conta.
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