Do excesso à falta de água: plantio da soja 2026/27 avança em ritmos diferentes pelo Brasil

Enquanto chuva destrava máquinas em MT, excesso de umidade interrompe trabalhos no PR e aperta janela do milho; veja fotos e vídeos
Publicado em 16/10/2026 11:08 | Atualizado em 16/10/2026 11:42
Plantio parado Paraná - Outubro 2026 (8)
Campos encharcados na região de Itambé/PR - Foto: Nivaldo Forastieri

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“Comecei a plantar dia 28 de setembro. De 28 de setembro até hoje, eu só consegui plantar durante quatro dias inteiros. Plantei dia 28, 29, 30 e depois mais um dia. E nada mais. Só chuva. Eu já tenho soja em que preciso começar a aplicação e não tem como entrar. Curva de nível cheia d'água, soja morrendo nas curvas, soja que nasceu amarelinha, feinha. Não tem luz, não tem sol e não seca o solo para a gente entrar plantando”. 

O relato é de Nivaldo Forastieri, produtor rural em Itambé, no Paraná, e resume um dos extremos que começam a marcar o plantio da safra brasileira de soja 2026/27. Forastieri está com apenas 30% da área plantada, enquanto estima que o município já tenha alcançado aproximadamente 50%.

E a preocupação não termina na soja que ainda precisa ser colocada no chão. Cada dia perdido agora começa a encurtar também o calendário da cultura seguinte. “Já está batendo desespero por causa da janela do milho”, afirma. “Meu carro-chefe de receita e lucro é o milho”.

Plantio parado Paraná - Outubro 2026 (2)Plantio parado Paraná - Outubro 2026 (1)Plantio parado Paraná - Outubro 2026 (3)Plantio parado Paraná - Outubro 2026 (4)Plantio parado Paraná - Outubro 2026 (7)Plantio parado Paraná - Outubro 2026 (8)

A quase dois mil quilômetros dali, o problema até poucos dias atrás era exatamente o contrário. Em Confresa, no nordeste de Mato Grosso, o produtor rural Rafael Antoniolli vinha de aproximadamente um mês de tempo seco e já cogitava colocar a plantadeira para trabalhar praticamente sem umidade no solo. Então a chuva chegou.


“Chegou uma boa chuva. Chegou. Deus é bom demais. Estava até arriscando plantar no pó. Mas ontem deu 140 milímetros. Chuva maravilhosa”, comemora. 

A precipitação destravou os trabalhos. Antoniolli está com aproximadamente 40% da área semeada e caminhando para perto de 50%. Segundo ele, boa parte dos produtores da região já alcançou entre 50% e 70%, enquanto alguns grupos maiores, que começaram mais cedo, aproximam-se do final do plantio. Em áreas menores ou locais onde as chuvas foram menos regulares, porém, ainda há produtores começando.

“A maioria está entre 50%, 60%, 70%. Já temos alguns companheiros terminando e os menorzinhos, ou regiões que chovem um pouco menos, estão começando”, relata.

Plantio em Confresa-MT - Outubro 2026 (2)
Plantio em Confresa/MT - Foto: Rafael Antoniolli


Plantio em Confresa-MT - Outubro 2026 (1)Plantio em Confresa-MT - Outubro 2026 (2)Plantio em Confresa-MT - Outubro 2026 (3)Plantio em Confresa-MT - Outubro 2026 (4)

Antoniolli ressalta que, tradicionalmente, começa a semeadura mais tarde do que alguns produtores da região e, por isso, não considera seu percentual um atraso. Depois da chuva, a expectativa é continuar avançando, desde que a umidade não se torne excessiva.

UM BRASIL DIVIDIDO

Da poeira de Confresa/MT, ao excesso de água de Itambé/PR, a safra brasileira de soja começa a mostrar que um único percentual nacional é insuficiente para contar o que está acontecendo no campo. Até o último dia 9, 15,6% da área brasileira prevista com soja havia sido semeada, segundo o acompanhamento mais recente divulgado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Do total já implantado, 57% estava em desenvolvimento vegetativo. Mato Grosso tinha 25,2% da área plantada, enquanto o Paraná chegava a 36%. Estes são os dois maiores estados produtores do país, porém, nos demais também há ressalvas sobre o clima e sobre o ritmo dos trabalhos de campo. 

A estimativa da instituição é de que o Brasil plante 49,3 milhões de hectares de soja em 2026/27, expansão de 1,4% sobre os 48,6 milhões de hectares da temporada anterior. Trata-se da menor expansão da área destinada à oleaginosa em duas décadas, reflexo de um sojicultor que precisou colocar seus custos ainda mais na ponta do lápis nesta temporada, arriscando menos ou quase nada frente a margens ainda muito ajustadas. 

No primeiro levantamento da nova safra, a Conab projeta uma produção de 181,6 milhões de toneladas, apenas 0,7% acima das 180,4 milhões de toneladas colhidas em 2025/26. A diferença entre o crescimento da área e o avanço mais tímido da produção está na produtividade. A estimativa inicial trabalha com 3.683 quilos por hectare (aproximadamente 61,4 sacas/ha), queda de 0,8% frente ao registrado na safra passada. 

Mesmo com quase 700 mil hectares adicionais destinados à soja, portanto, o incremento projetado para a produção é de pouco mais de 1,2 milhão de toneladas. E os relatos vindos do campo ajudam a mostrar porque o clima continuará determinante para transformar área plantada em produtividade.

No Centro-Oeste, setembro terminou com umidade insuficiente em várias áreas. Segundo a Conab, grande parte da região recebeu volumes inferiores a 90 milímetros no mês, insuficientes para recompor satisfatoriamente a umidade do solo. Foi nesse ambiente que produtores como Rafael Antoniolli chegaram ao início de outubro esperando chuva suficiente para acelerar as máquinas.

Há duas semanas, o Notícias Agrícolas esteve no norte do estado e também pôde registrar, in loco, essa irregularidade do clima. Enquanto em algumas áreas como Cláudia e União do Sul conseguiam dar andamento ao plantio dentro dos cronogramas previstos, em Tabaporã, por exemplo, a semeadura estava começando a ser paralisada e alguns talhões corriam o risco do replantio, por exemplo. 

Reveja: 

No Sul, o problema pode aparecer pelo outro extremo. O excesso de umidade relatado por Forastieri em Itambé não impede apenas o avanço das plantadeiras. Nas áreas já implantadas, o produtor relata pontos encharcados, plantas morrendo nas curvas de nível e soja emergindo amarelada, além da impossibilidade de entrar na lavoura para realizar as primeiras aplicações.

O resultado é que o percentual de avanço de um estado ou mesmo de um município nem sempre revela a qualidade da implantação da safra. Na região de Pato Branco, importante região produtora de soja no Paraná, a situação também é bastante delicada, com relatos até mesmo de lavouras com as raízes começando a apodrecer pelo excesso de umidade no solo. 

JANELA DO MILHO CADA VEZ MAIS APERTADA

Além da soja, há ainda outra variável importante nesta conta que é a janela para a segunda safra de milho.
Quanto mais tempo a soja levar para ser implantada, mais apertado poderá ficar o calendário para o milho segunda safra. Para produtores como Nivaldo Forastieri, que têm no cereal uma parcela importante do resultado econômico da propriedade, o atraso deixa rapidamente de ser apenas uma preocupação agronômica.

E a dimensão nacional dessa janela é grande. Para 2026/27, a Conab estima que o Brasil plante 18,49 milhões de hectares de milho segunda safra, expansão de 3,7%, com produção inicialmente projetada em 113,25 milhões de toneladas.

Assim, o ritmo do plantio da soja nas próximas semanas terá consequências que vão além do potencial produtivo da própria oleaginosa. Nas regiões onde predomina o sistema soja-milho, eventuais atrasos agora podem reduzir posteriormente o espaço disponível para semear o cereal dentro da janela considerada mais favorável.

CONTRASTES CLIMÁTICOS CONTINUARÃO 

E as diferenças observadas neste início de plantio podem continuar acompanhando a safra.

Para o trimestre entre outubro e dezembro, as projeções climáticas apresentadas pela Conab apontam irregularidade das chuvas no Centro-Oeste, com possibilidade de precipitações abaixo da média em áreas do noroeste e nordeste de Mato Grosso e do centro-norte de Goiás e Distrito Federal, especialmente em outubro e novembro.

Para o Sul, a sinalização é oposta: volumes acima da média em boa parte da região e possibilidade de excesso de umidade em algumas áreas principalmente durante outubro e novembro. 

As temperaturas também deverão permanecer acima da média histórica em grande parte do país, outro fator que mantém a disponibilidade hídrica do solo no radar ao longo da implantação e do desenvolvimento inicial das lavouras. boletim-de-safras-1o-levantamen…
O cenário climático ajuda a explicar por que a mesma safra pode conviver, praticamente ao mesmo tempo, com produtor esperando água para plantar e produtor esperando o solo secar para voltar ao campo.

"O que me preocupa mais é de novembro em diante, quando olhamos para centro-oeste, norte, nordeste, os mapas mostram poucas chuvas, ou bem abaixo da média, e no sul com muitas chuvas. Vamos acompanhando", afirma o analista de mercado Rafael Silveira, da Safras & Mercado.  A consultoria estima a safra 2026/27 em 181,837 milhões de toneladas, 2% maior do que a anterior. A produtividade média esperada é de 61,48 sacas por hectare, contra 61,53 da temporada 2025/26. 

Previsão de chuvas - Novembro
Previsão de chuvas - Novembro

 

Previsão de chuvas - Dezembro
Previsão de chuvas - Dezembro
Previsão de chuvas - Janeiro
Previsão de chuvas - Janeiro


Números divulgados em outubro, todavia, são o ponto de partida, e não o resultado da temporada, ainda como explica Silveira. As estimativas serão revisadas à medida que o plantio avançar e novas informações sobre área e produtividade forem incorporadas. 

Por isso, as mais de 180 milhões de toneladas de soja projetadas para 2026/27 ainda são uma safra a ser construída no campo. E os primeiros hectares mostram que essa construção não acontece da mesma maneira em todo o país. Em Confresa, a chegada de 140 milímetros transformou a poeira em condição para acelerar as máquinas de Rafael Antoniolli. Em Itambé, é justamente a água em excesso que impede Nivaldo Forastieri de continuar.

Entre um extremo e outro, o Brasil avança sobre os 49,3 milhões de hectares previstos para esta temporada. Mais do que a velocidade do plantio, porém, as próximas semanas começarão a revelar a qualidade dessa semeadura e quanto da janela necessária para a segunda safra de milho estará preservada quando a soja finalmente estiver toda no chão.

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