Açúcar dispara e bate máxima de 1 ano e meio em Nova York com risco climático no Brasil

Forte alta foi sustentada por riscos climáticos no Brasil e na Ásia, além das projeções de déficit global de açúcar nas próximas safras.
Publicado em 02/10/2026 16:13

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 Os preços do açúcar dispararam nesta sexta-feira (2) no mercado internacional, impulsionados principalmente pela preocupação com o clima nas principais regiões produtoras. Em Nova York, o açúcar bruto atingiu a maior cotação em um ano e meio, enquanto, em Londres, o açúcar branco alcançou o maior nível em duas semanas e meia.

 O contrato de açúcar mundial com vencimento em março, negociado em Nova York, fechou em alta de 99 pontos, a 19,93 centavos de dólar por libra-peso. Em Londres, o contrato de açúcar branco para dezembro avançou 242 pontos, para US$ 531,50 por tonelada.

 A alta ganhou força com a atuação de fundos no mercado futuro diante da previsão de chuvas para a próxima semana no Centro-Sul do Brasil, principal região produtora de cana-de-açúcar. O excesso de precipitações pode dificultar o trabalho das usinas e interromper temporariamente a moagem, reduzindo a oferta disponível no curto prazo.

 Déficit global entra no radar

 Além do clima brasileiro, as perspectivas para o balanço mundial de oferta e demanda também deram sustentação às cotações.

 A Organização Internacional do Açúcar (ISO) projetou, em 1º de setembro, um déficit global de 200 mil toneladas na safra 2026/27, após um superávit estimado em 1,1 milhão de toneladas em 2025/26.

 A situação também preocupa na Tailândia, segundo maior exportador mundial de açúcar. Em 7 de setembro, a Thai Sugar Millers Corp estimou que a produção tailandesa em 2026/27 pode cair 17%, para aproximadamente 10 milhões de toneladas.

 Outro ponto de atenção é o fenômeno El Niño. A preocupação é que um episódio intenso provoque redução das chuvas no Brasil, na Índia e na Tailândia, três dos principais polos mundiais de produção de açúcar. O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos afirmou que o El Niño surgido no Pacífico equatorial no mês passado provavelmente estará entre os mais fortes registrados em mais de 75 anos.

 Projeções apontam para oferta mais apertada

 As estimativas de outras consultorias reforçam o cenário de maior aperto no balanço global.

 Em 3 de agosto, a Covrig Analytics passou a projetar um déficit mundial de 300 mil toneladas em 2026/27, contra um superávit de 100 mil toneladas previsto anteriormente, em junho.

 Já a Czarnikow estimou, em 14 de agosto, um déficit de 2,9 milhões de toneladas em 2027/28. Segundo a projeção, a maior produção de etanol pelas usinas brasileiras, em detrimento do açúcar, contribuirá para reduzir a oferta mundial. A empresa prevê ainda queda de 0,7% na produção global, para 177 milhões de toneladas, principalmente em razão de problemas climáticos na Índia, na União Europeia e na Tailândia.

 Índia enfrenta queda nas chuvas

 Na Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar, o cenário climático também chama atenção.

 O Departamento Meteorológico indiano informou na quarta-feira que o acumulado das chuvas de monção, entre junho e setembro, estava 12,6% abaixo da média até 30 de setembro, o menor nível em 11 anos.

 O governo indiano também autorizou, em 20 de agosto, a importação de até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto, sem cobrança de impostos, até 31 de outubro. A decisão chama atenção porque a Índia normalmente é exportadora e não recorria a importações significativas desde a safra 2017/18.

 Em abril, a Associação Indiana de Fabricantes de Açúcar e Bioenergia (ISMA) havia reduzido sua previsão para a produção indiana em 2025/26 para 32 milhões de toneladas, ante 32,4 milhões de toneladas anteriormente. A entidade estimava exportações de 800 mil toneladas na temporada.

 Por outro lado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetou em abril um superávit de açúcar de 2,5 milhões de toneladas na Índia em 2026/27, o primeiro excedente em dois anos.

 Brasil também pesa sobre as cotações

 No Brasil, dados de produção já vinham contribuindo para o movimento de alta. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) informou em agosto que a produção de açúcar no Centro-Sul caiu 26,3% em junho, para 3,903 milhões de toneladas.

 Como o Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, alterações na moagem e na destinação da cana para açúcar ou etanol têm impacto direto sobre as perspectivas de oferta internacional.

 Mercado ainda carrega herança de superávit

 Apesar da disparada recente das cotações e das projeções de déficit para as próximas temporadas, o mercado ainda parte de uma expectativa de ampla oferta em 2025/26.

 A ISO projeta produção mundial recorde de 182 milhões de toneladas na temporada 2025/26, alta de 3,5% sobre o ciclo anterior. A entidade estima um superávit global de 1,1 milhão de toneladas, embora tenha reduzido essa previsão em relação aos 2,2 milhões de toneladas estimados em maio.

 O número representa uma recuperação depois de um déficit de 3,46 milhões de toneladas em 2024/25.

 Com isso, o mercado de açúcar entra em uma fase de maior sensibilidade ao clima. De um lado, a oferta recorde projetada para 2025/26 limita o aperto imediato; de outro, os riscos para as safras seguintes, especialmente no Brasil, Índia e Tailândia, aumentam a preocupação dos participantes e ajudam a explicar a forte valorização observada nos contratos futuros na sexta-feira.
 

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