StoneX vê açúcar acima de 37,5 milhões de toneladas no Centro-Sul, mas ATR preocupa

Mesmo com a moagem abaixo do esperado e o ATR em queda, consultoria considera possível atingir 38 milhões de toneladas de açúcar, mas alerta para os impactos das chuvas e da recuperação da sacarose.
Publicado em 19/10/2026 15:38

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A produção de açúcar do Centro-Sul na safra 2026/27 ainda pode alcançar 38 milhões de toneladas, mas o resultado dependerá principalmente da recuperação da sacarose da cana-de-açúcar nos próximos meses. A avaliação é de Marcelo Di Bonifácio Filho, representante da StoneX, que vê espaço para uma produção acima de 620 milhões de toneladas de cana, apesar dos desafios impostos pelas chuvas e pelo desempenho abaixo do esperado do Açúcar Total Recuperável (ATR).

Segundo o analista, os dados mais recentes de moagem e qualidade da matéria-prima reforçam as preocupações com a oferta, mas não justificam, neste momento, projeções mais pessimistas para o encerramento do ciclo.

“Diante das previsões de chuva para outubro e da potencial revisão na recuperação de sacarose, eu, particularmente, não descartaria uma produção de 37,5 milhões de toneladas”, afirma Di Bonifácio Filho. Ele também considera exageradas as estimativas que apontam uma produção de apenas 36 milhões de toneladas.

Os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura na quinta-feira (15), referentes à segunda quinzena de setembro, mostraram moagem de 38,6 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, volume 1,2 milhão de toneladas inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. O resultado também ficou abaixo da expectativa da StoneX, que projetava um processamento próximo de 42 milhões de toneladas.

Outro ponto de atenção é o ATR acumulado, que chegou a 134 quilos por tonelada de cana, três quilos abaixo do registrado na safra 2025/26.

O indicador mede a quantidade de açúcares recuperáveis da matéria-prima e influencia diretamente o potencial de produção de açúcar e etanol.

Apesar do desempenho mais fraco da moagem e do ATR, o mix açucareiro avançou para 53,1% na segunda quinzena de setembro, alta de 3,8 pontos percentuais em relação à quinzena anterior. O movimento foi favorecido pelo tempo mais seco e pelos preços do açúcar, que estimulam as usinas a direcionar uma parcela maior da cana para a fabricação do adoçante.

No acumulado da temporada, porém, o mix está em 47%, ainda 5,2 pontos percentuais abaixo do observado no ciclo anterior.

Chuvas podem dificultar moagem no fim do ano

Para alcançar a estimativa de 635 milhões de toneladas de cana processadas na safra 2026/27, a StoneX calcula que será necessário moer pelo menos 125 milhões de toneladas entre outubro e dezembro. Até o fim de setembro, o acumulado estava em 482 milhões de toneladas, queda de 1,6% na comparação anual.

O desafio aumenta diante da possibilidade de um trimestre mais chuvoso. Em um cenário hipotético de precipitações acima do normal, a consultoria estima que as usinas poderiam perder cerca de 45 dias de colheita entre outubro e dezembro, acima da média de 31 dias calculada para o período nos últimos dez anos.

Mesmo nessa condição, Di Bonifácio Filho considera possível atingir o volume necessário. Para ele, ainda é cedo para apostar em uma moagem muito menor, próxima de 610 milhões de toneladas. O cenário mais provável, na avaliação do analista, é de um resultado superior a 620 milhões de toneladas, com possibilidade de alcançar 630 milhões.

O fechamento da temporada também dependerá da antecipação do início da safra 2027/28 e da disposição das usinas em manter o processamento nos primeiros meses do próximo ano.

ATR será decisivo para a produção de açúcar

Embora a moagem continue sendo um fator importante, a recuperação da sacarose é apontada pela StoneX como o principal obstáculo para que o Centro-Sul alcance a meta de 38 milhões de toneladas de açúcar.

A consultoria havia projetado, em setembro, um ATR de 136 quilos por tonelada para a temporada. Agora, a expectativa é de que o indicador fique mais próximo de 134 quilos por tonelada, podendo até terminar abaixo desse nível.

Em contrapartida, o mix açucareiro, estimado anteriormente em 46,1% para o ciclo completo, poderá ficar entre 46,5% e 46,8%, ajudando a compensar parte das perdas relacionadas à qualidade da matéria-prima.

Para atingir a produção de 38 milhões de toneladas, o Centro-Sul precisará fabricar 9,1 milhões de toneladas de açúcar entre outubro e março.

O volume é superior à média de 7 milhões de toneladas registrada nesse intervalo nas últimas 15 safras, embora abaixo do recorde de 10,1 milhões de toneladas alcançado em 2012/13.

“Embora possível, esse resultado esbarra muito mais no ATR do que na moagem ou no mix, na minha opinião”, avalia o representante da StoneX.

Preços do açúcar refletem preocupação com a oferta

As incertezas sobre a produção brasileira também ajudam a explicar a valorização recente dos contratos de açúcar em Nova York. Na semana passada, o contrato de março de 2027 chegou a superar 21 centavos de dólar por libra-peso, embora tenha recuado na sexta-feira (16), quando tocou 20,50 centavos de dólar por libra-peso.

Na avaliação de Di Bonifácio Filho, o mercado continua precificando um cenário de oferta mais apertada no médio prazo. O posicionamento dos fundos especulativos também contribui para sustentar as cotações, embora aumente o risco de correções caso os fundamentos mudem.

O analista destaca que os próximos números de moagem serão determinantes para avaliar se os preços já incorporam uma quebra excessiva da produção ou se a preocupação com a oferta continuará sustentando o mercado.

“A ver se os dados de moagem de outubro e novembro serão capazes de corrigir o mercado ou se esse trem do Centro-Sul já partiu e os agentes seguem olhando para outras variáveis”, conclui.
 

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