El Niño forte aumenta riscos para a safra brasileira no fim de 2026, aponta StoneX

Calor e falta de chuva preocupam produtores de soja e milho no Cerrado e no Matopiba, enquanto excesso de umidade pode dificultar o plantio no Sul; café também exige atenção
Publicado em 09/10/2026 14:50

O avanço de um El Niño de forte intensidade deve ampliar os desafios climáticos para o agronegócio brasileiro no último trimestre de 2026. Enquanto o excesso de chuva pode atrapalhar o plantio e as operações no campo no Sul do país, períodos de calor intenso e precipitações irregulares ameaçam o desenvolvimento das lavouras de soja e milho no Cerrado e no Matopiba. O café cultivado no Sudeste também entra no radar de atenção, devido às temperaturas elevadas previstas para novembro e dezembro.

Os riscos fazem parte da análise climática da 37ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, divulgado em 8 de outubro. O estudo considera a influência do El Niño, a possível configuração positiva do Dipolo do Oceano Índico (IOD) e as temperaturas acima da média no Atlântico tropical.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño já está estabelecido, com probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027. O fenômeno aumenta o risco de eventos extremos, como ondas de calor, chuvas intensas e períodos de estiagem, embora seus efeitos variem de acordo com a região.

Para a analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Carolina Giraldo, a intensidade do fenômeno não determina, sozinha, os impactos sobre a produção agrícola.

“O mercado costuma associar automaticamente o El Niño a determinados padrões climáticos, mas os impactos reais dependem da interação entre diversos fatores oceânicos e atmosféricos. Neste ano, o Dipolo do Oceano Índico e o Atlântico tropical mais aquecido também podem alterar significativamente a forma como a chuva e a temperatura se distribuem sobre as principais regiões produtoras”, afirma.

Soja e milho: excesso de chuva no Sul e risco de estiagem no Cerrado

No Sul do Brasil, a expectativa de chuvas acima da média pode favorecer o desenvolvimento inicial das lavouras de soja e milho. Por outro lado, volumes elevados e períodos prolongados de umidade podem dificultar o avanço do plantio, o trânsito de máquinas e a logística nas propriedades rurais.

O cenário exige atenção principalmente ao ritmo das operações agrícolas e às condições de acesso às áreas de cultivo.

Já no Cerrado e no Matopiba, região que abrange áreas produtoras do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a preocupação é diferente. A combinação de temperaturas elevadas e chuvas abaixo do necessário em novembro e dezembro pode aumentar o risco de estresse hídrico para soja e milho.

O problema ganha importância porque a disponibilidade de água é determinante para o estabelecimento e o desenvolvimento das plantas. Caso o calor persista e as chuvas sejam mal distribuídas, as lavouras poderão enfrentar condições desfavoráveis em fases importantes do ciclo produtivo.

“O maior risco para os produtores não é apenas a quantidade de chuva prevista para a estação. A preocupação está na ocorrência de períodos prolongados de calor acompanhados por deficiência hídrica, especialmente nas regiões produtoras do Cerrado e do Matopiba, onde a demanda por água pelas plantas aumenta consideravelmente”, explica Carolina.

Café pode sofrer com temperaturas elevadas no Sudeste

Para o café, o relatório chama a atenção para as condições meteorológicas no Sudeste brasileiro. Embora não haja indicação clara de déficit de chuva para toda a região, as temperaturas mais altas esperadas para novembro e dezembro podem intensificar o estresse das plantas e afetar etapas importantes do ciclo produtivo.

Nesse cenário, o comportamento das chuvas e das temperaturas ao longo dos próximos meses será determinante para avaliar os possíveis impactos sobre as lavouras.

Na cana-de-açúcar do Centro-Sul, por sua vez, as perspectivas são relativamente favoráveis. A previsão de chuvas acima da média, acompanhadas de temperaturas próximas ou ligeiramente superiores aos padrões históricos, tende a contribuir para o desenvolvimento da cultura. A ressalva fica para eventuais excessos prolongados de umidade, que podem prejudicar as condições de campo.

Mudança no padrão de chuvas aumenta a incerteza

Os últimos meses já mostraram diferenças importantes na distribuição das chuvas na América do Sul. Em julho e agosto, o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina registraram volumes significativamente superiores às médias históricas, enquanto áreas mais ao norte do continente tiveram precipitações reduzidas.

Em setembro, porém, o padrão mudou. Nos primeiros 23 dias do mês, São Paulo acumulou volumes de chuva 273% acima da média, enquanto o Paraná registrou precipitações 181% superiores ao normal. No mesmo período, o Uruguai enfrentou uma das condições mais secas já observadas para a época.

De acordo com a StoneX, a inversão entre os padrões registrados em agosto e setembro tem poucos precedentes históricos e reforça a necessidade de acompanhar a evolução do clima ao longo do trimestre.

A mudança também evidencia a dificuldade de estabelecer uma tendência única para todas as regiões produtoras, mesmo sob a influência de um fenômeno climático de grande intensidade.

Regiões Produtoras

O cenário climático preocupa outras regiões produtoras que disputam espaço nos mercados internacionais de commodities agrícolas.

No Paraguai e no Uruguai, as perspectivas para soja e milho se aproximam das observadas no Sul brasileiro: as chuvas podem favorecer o início do ciclo, mas o excesso de umidade também representa um risco para as operações no campo.

No sul da África, a combinação de calor e precipitações limitadas em novembro e dezembro pode comprometer o potencial produtivo das lavouras de milho.

No mercado de café, as condições meteorológicas nas principais origens também merecem atenção. Períodos mais secos podem facilitar a colheita na América Central, no México, na Colômbia e no Vietnã. No entanto, a persistência do calor associada à falta de água pode prejudicar o desenvolvimento das plantas e as próximas floradas.

Para o cacau, a previsão de condições mais quentes na Costa do Marfim e em Gana pode representar um desafio aos produtores. Já na Indonésia e na Malásia, o óleo de palma poderá enfrentar impactos associados ao estresse climático.

O trigo também permanece no radar, especialmente na Argentina, na Índia e na Austrália, onde as temperaturas elevadas podem influenciar o desenvolvimento das lavouras durante o trimestre.

Monitoramento do clima será decisivo para o produtor

Diante da diversidade de cenários, a StoneX destaca que o acompanhamento das condições meteorológicas será fundamental para avaliar os impactos sobre a produção agrícola no fim de 2026.

Mais do que observar as médias de chuva e temperatura para o trimestre, será necessário acompanhar a distribuição das precipitações, a duração dos períodos de calor e a umidade do solo em cada região produtora.

“O quarto trimestre exigirá acompanhamento constante das condições meteorológicas. Mais do que observar médias trimestrais, será fundamental monitorar mês a mês a evolução das chuvas, das temperaturas e da umidade do solo, porque os impactos para as commodities dependerão diretamente da fase de desenvolvimento ou colheita de cada cultura”, conclui Carolina Giraldo.

Para o produtor brasileiro, a principal preocupação será a diferença entre as regiões: enquanto o excesso de chuva pode comprometer o ritmo das atividades no Sul, a irregularidade das precipitações e o calor podem aumentar os riscos para as lavouras do Cerrado e do Matopiba. A evolução desses fatores ao longo de outubro, novembro e dezembro deverá orientar a avaliação das condições de desenvolvimento das culturas e dos riscos para a safra.

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