Inmet: Excesso de chuva e umidade elevada dificulta as operações em campo na Região Sul
O fenômeno El Niño segue se intensificando no Oceano Pacífico Equatorial. Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 atingiu +2,06 °C no último mês. De acordo com a atualização divulgada pelo CPC em 8 de outubro, a previsão é de que o fenômeno permaneça nas categorias forte a muito forte até o trimestre janeiro-fevereiro-março de 2027. As projeções indicam 83% de probabilidade, que durante o trimestre outubro-novembro-dezembro, o episódio atual supere, em intensidade, os eventos anteriores de El Niño registrados desde 1950.
Na Região Sul, a ocorrência do El Niño geralmente está associada a chuvas acima da média, especialmente durante o inverno e a primavera, além de aumentar a frequência de eventos extremos e o risco de cheias. O episódio iniciou-se em junho, e os seus efeitos já são evidentes nos principais polos tritícolas da região, onde observa-se maior frequências de precipitação e período prolongado de umidade. Em setembro de 2026, as estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) localizadas nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, apresentaram volumes de chuva entre 60% e 135% acima da normal climatológica de 1991–2020 (Figura 1). Os maiores desvios em relação à média histórica foram observados em Dois Vizinhos (PR), Santana do Livramento (RS) e Santa Maria (RS), com 135%, 98% e 94% acima da média (Figura 1). Para o trigo, o excesso de umidade representa um fator limitante, sobretudo nas fases de floração, enchimento dos grãos e maturação. Nessas condições, aumentam os riscos de encharcamento do solo, ocorrência de doenças fúngicas, perda de qualidade dos grãos e dificuldades nas operações de manejo e colheita. Os impactos tendem a ser expressivos nos meses de setembro e outubro, período crítico para a cultura na Região Sul. Os levantamentos recentes indicam que esse cenário já está refletindo na safra 2026.
De acordo com o primeiro levantamento da safra de grãos 2026/2027, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a produção brasileira de trigo está estimada em aproximadamente 5,73 milhões de toneladas, o que representa uma redução de 27,2% em relação à safra 2025/2026. Essa retração está associada à diminuição tanto da área cultivada quanto da produtividade (Figura 2). Até 9 de outubro, a colheita havia alcançado 40,3% da área cultivada no País, percentual próximo à média dos últimos cinco anos (38,8%). Entretanto, o ritmo dos trabalhos apresentava diferenças expressivas entre os estados da Região Sul, refletindo as particularidades do calendário agrícola e as condições meteorológicas observadas ao longo da safra. No Paraná, a colheita atingia 70% da área cultivada, superando a média histórica para o período (65,2%). Em contrapartida, no Rio Grande do Sul, os trabalhos ainda estavam em fase inicial, com apenas 1% da área colhida. Essas diferenças evidenciam a influência das condições meteorológicas e dos estádios de desenvolvimento das lavouras sobre o andamento da colheita nos principais estados produtores da Região Sul.
De acordo com o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar, publicado em 15 de outubro, o Rio Grande do Sul cultivou 814.220 hectares, com produtividade média projetada de 2.701 kg/ha. Neste contexto, a colheita alcançava 9% da área cultivada, percentual inferior à média de 15% dos últimos cinco anos para o período. O avanço das operações ocorreram de forma irregular devido às frequentes interrupções causadas pelas chuvas, que têm dificultado o acesso das máquinas às lavouras e comprometido a continuidade dos trabalhos no campo. Nas lavouras em fase de enchimento de grãos, o excesso de precipitação, elevada umidade do ar e baixa disponibilidade de radiação solar têm limitado a formação e o acúmulo de matéria seca nos grãos. Nas lavouras próximas da maturação, foram relatados descoloração da palha e enrugamento dos grãos. As chuvas nessa fase aumentam o risco de perda de qualidade e de redução do peso hectolítrico (PH), importante indicador da qualidade comercial do trigo. Segundo esse informativo, foi relatada maior incidência de giberela, brusone e bacterioses, além de acamamento das plantas e quebra de espigas após temporais com granizo e ventos fortes, no noroeste do estado. As produtividades observadas variam entre as regiões: em Itaqui, ficaram entre 1.200 e 1.500 kg/ha, abaixo das estimativas iniciais; em Frederico Westphalen e Santa Maria, situaram-se em torno de 2.500 kg/ha; e, em Ijuí, ficaram pouco acima de 2.400 kg/ha.
A análise dos dados de produtividade do trigo abaixo da média histórica, considerando as diferentes fases do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS) no período de 1996 a 2025, evidencia diferenças regionais na resposta da cultura às condições climáticas. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, 80% dos anos sob influência do El Niño apresentaram produtividade inferior à média histórica, indicando maior vulnerabilidade das lavouras aos efeitos do excesso de chuva e da elevada umidade, especialmente durante as fases críticas do ciclo da cultura. No Paraná, essa ocorrência foi de 40%, resultado que contrasta com o cenário da safra atual, caracterizado pelo predomínio de lavouras em boas condições e pelo avanço da colheita.
Em anos de La Niña, a frequência de produtividades abaixo da média histórica foi inferior a 20% nos três estados da Região Sul. Esses resultados reforçam a importância da variabilidade climática na produção de trigo e indicam que períodos mais chuvosos, frequentemente associados ao El Niño na região, podem elevar os riscos de perdas de rendimento e de qualidade dos grãos.
Nesse contexto, o monitoramento contínuo das previsões e dos avisos meteorológicos do INMET, aliado ao acompanhamento do desenvolvimento das lavouras, é fundamental para subsidiar as decisões de manejo fitossanitário, orientar o planejamento da colheita e minimizar os impactos adversos sobre a produtividade e a qualidade da produção.
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