Chuvas elevam risco para a safra de trigo no Sul e acendem alerta para perdas de qualidade dos grãos

Publicado em 03/07/2026 09:56 e atualizado em 03/07/2026 10:33
Previsão de maior volume de precipitações durante o desenvolvimento das lavouras preocupa especialistas. Histórico de anos com El Niño mostra impactos na produtividade, na qualidade industrial e na comercialização do cereal

Logotipo Notícias Agrícolas

As previsões de aumento das chuvas sobre os principais estados produtores de trigo do Brasil colocam o mercado em estado de atenção. O cenário preocupa especialmente porque coincide com uma fase decisiva para o desenvolvimento da safra e pode comprometer não apenas a produtividade das lavouras, mas também a qualidade industrial dos grãos, fator determinante para a comercialização do cereal.

O alerta é da Ampere Consultoria, que acompanha com preocupação as condições climáticas no Paraná e no Rio Grande do Sul, responsáveis pela maior parte da produção nacional de trigo. Segundo a agrometeorologista Amanda Balbino, o retorno das condições de El Niño aumenta o risco de excesso de umidade justamente em um período sensível para a cultura.

"O histórico mostra que, em anos de El Niño, o excesso de umidade pode comprometer tanto a produtividade como principalmente a qualidade dos grãos", destaca Amanda Balbino.

As projeções meteorológicas indicam que, apenas na segunda quinzena de julho, os acumulados de chuva podem superar 70 milímetros em áreas do Rio Grande do Sul e do centro-sul do Paraná. A tendência é de maior frequência de frentes frias sobre a Região Sul, favorecendo volumes elevados de precipitação durante os próximos meses.

Embora o trigo necessite de boa disponibilidade hídrica durante o desenvolvimento vegetativo, o excesso de chuva pode favorecer doenças fúngicas, reduzir o peso dos grãos, aumentar a ocorrência de grãos ardidos e germinados e dificultar as operações de colheita, principalmente quando as precipitações persistem na reta final do ciclo.

Histórico reforça preocupação

Os impactos já foram observados em anos anteriores.

No Paraná, em 2015, as chuvas durante o florescimento e a colheita contribuíram para uma produção cerca de 8% menor em relação à safra anterior, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Já em 2023, a produção ficou aproximadamente 17% abaixo do potencial inicialmente esperado, com perdas associadas tanto ao aumento da incidência de doenças quanto às chuvas persistentes durante a colheita, que comprometeram a qualidade industrial dos grãos.

No Rio Grande do Sul, o excesso de precipitações registrado em 2015 provocou germinação dos grãos ainda na espiga, redução do peso específico e aumento do percentual de impurezas. Em diversas regiões, a produtividade caiu de médias entre 40 e 60 sacas por hectare para aproximadamente 15 sacas por hectare nas áreas colhidas após as chuvas intensas de outubro. Além da queda de rendimento, parte da produção perdeu qualidade e deixou de atender aos padrões exigidos pela indústria moageira.

Segundo Amanda Balbino, os exemplos mostram que, em anos de El Niño, o maior prejuízo para o trigo nem sempre está apenas na quantidade produzida.

"Os exemplos reforçam que, para o trigo, o maior risco em anos de El Niño nem sempre está apenas na quantidade produzida, mas também na qualidade dos grãos, fator que impacta diretamente a comercialização", afirma.

Qualidade ganha ainda mais importância nesta temporada

A preocupação com a qualidade da safra ganha peso em um momento em que o mercado brasileiro trabalha com oferta restrita de trigo da safra velha, situação que mantém as cotações do grão sustentadas durante a entressafra.

Segundo o analista de mercado Elcio Bento, da Safras & Mercado, a menor disponibilidade de trigo no mercado interno, somada à necessidade de reposição dos estoques pela indústria, tem sustentado os preços do cereal. Ao mesmo tempo, a qualidade do produto torna-se um diferencial importante para atender às exigências da moagem.

O analista destaca que a indústria segue cautelosa nas compras devido ao ritmo mais lento da moagem e às dificuldades para repassar custos ao consumidor, mas ressalta que a disponibilidade limitada de trigo de boa qualidade continua dando sustentação ao mercado.

Esse cenário reforça a importância das condições climáticas nas próximas semanas. Caso o excesso de chuvas comprometa o padrão industrial da nova safra, pode haver redução da oferta de trigo com qualidade panificável, aumentando a necessidade de misturas com trigo importado e elevando os custos da cadeia de moagem.

Enquanto isso, o mercado segue acompanhando a evolução do clima no Sul do país. A combinação entre lavouras em desenvolvimento, previsão de chuvas acima da média e expectativa de influência do El Niño coloca a safra de trigo de 2026 sob monitoramento constante, especialmente em relação aos impactos sobre a qualidade dos grãos, que poderá ser decisiva para o desempenho do setor ao longo da comercialização.

Já segue nosso Canal oficial no WhatsApp? Clique Aqui para receber em primeira mão as principais notícias do agronegócio
Por:
Priscila Alves I instagram: @priscilaalvestv
Fonte:
Notícias Agrícolas

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

Ao continuar com o cadastro, você concorda com nosso Termo de Privacidade e Consentimento e a Política de Privacidade.

0 comentário