Fatores que impedem o Brasil de se tornar um importante exportador de leite

Publicado em 06/12/2021 18:53 e atualizado em 15/12/2021 09:18
Conexão Campo Cidade
Paulo Martins, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, falou sobre a complexidade desse mercado e explicou porque o país não consegue atingir níveis mundiais de produção como acontece em outros setores da pecuária

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O agronegócio e os setores urbanos estão intrinsecamente conectados, já que as cadeias produtivas de alimentos influenciam diretamente no cotidiano das cidades. Porém, muitos ruídos de comunicação entre as duas pontas geram discussões e desentendimentos que merecem atenção. Nesse contexto, o site Notícias Agrícolas e a consultoria MPrado desenvolveram o projeto Conexão Campo e Cidade, que visa debater diversas questões relacionadas aos negócios que envolvem os ambientes urbanos e rurais.

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Assim, na última segunda-feira (06), o programa teve convidado o pesquisador da Embrapa Gado de Leito Dr. Paulo Martins, para falar justamente do mercado leiteiro. Como afirmou Roberto Rodrigues, esse é um assunto essencial tanto para o público urbano quanto para o rural: “todos nós precisamos de leite para sobreviver”.

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Dificuldade do mercado de leite brasileiro se tornar exportador

Alexandre de Barros citou Paulo Martins como a principal autoridade brasileira para analisar o mercado de leite. E para iniciar a discussão, Barros questionou por que o Brasil é destaque na exportação de diversas commodities e no setor de proteína animal, mas isso não acontece com o leite, o qual ainda é importado no país.

Segundo Martins, essa condição foi provocada pelo sistema econômico que o Brasil adotava na década de 80. Naquela época, o preço do leite passava por um controle do Governo, então era tabelado sem critérios, somente com o objetivo de tentar segurar a inflação. Por isso, o produto brasileiro perdia competitividade internacionalmente para ser exportado. “Por mais que a atitude em um primeiro momento seja no sentido de proteger algum seguimento, e no caso foi o consumidor, acabou prejudicando, porque o leite foi muito caro nos anos 80”, explicou.

Dessa forma, o mercado de leito no Brasil ficou “para trás”, como afirmou o pesquisador, e hoje tem custo de produção muito alto. Além disso, ele explica que o leite brasileiro reage muito à escala e existe um conjunto de produtores que produzem pouquíssimo, o que também acaba afetando a produtividade.

 

Tecnologia e aumento produtivo

Em relação à tecnologia e produção de leite em grande escala, Martins citou que algumas cidades no país já possuem grande potencial produtivo, como é caso de Castro e Carambeí, ambas no Paraná, que sozinhas têm os mesmos números de produção de todo o estado do Rio Grande do Norte. Entretanto, a maior parte dos produtores nacionais ainda carecem de um maior acesso à tecnologia.

Como afirmou o pesquisador, isso ocorre pela falta de assistência técnica no país. Houve um momento em que cresceu o investimento em pesquisas, enquanto que a assistência técnica ficou esquecida, provocando um descompasso que prejudicou os produtores. Para acontecer um aumento na produção leiteira nacional, a ponto de alcançar níveis significativos de exportação, existe a necessidade de desenvolver a tecnologia disponíveis aos pecuaristas.

 

Exigência do público como dificultadora paras os pequenos produtores

Outro fator que de certa forma é um problema para os pequenos produtores de leite no Brasil é o processo de industrialização. “O leite é um produto obrigatoriamente industrial e essa característica acontece por questões sanitárias, e lá na frente tem um consumidor querendo entender o que acontece na cadeira como um todo, então essa pressão vai aumentar para os pequenos produtores”, como afirmou Martins.

No Rio Grande do Sul, estado onde a cadeia produtiva do leite tem sido monitorada de forma mais intensa, nos últimos seis anos, 50% dos produtores deixaram a atividade. “Seguramente aumentou a pressão e as margens ficaram menores. E os produtores vão ter agora outra dificuldade, que é a biosseguridade. O consumidor está querendo entender qual o cuidado que se tem com os animais”, declarou Martins. Segundo ele, se os produtores não tiverem uma boa narrativa de como o leite é produzido, os consumidores acabarão optando pelo leite vegetal.

 

Imprevisibilidade do mercado

Outra questão em pauta foi a possibilidade do mercado do leite ter uma previsibilidade maior e até mesmo entrar para o mercado de futuros. Para Martins, existem muitas variáveis que interferem no leite e esse é um produto muito protegido mundo inteiro. “Se não ter leite, o governo cai. É um produto que o governo está sempre olhando e cuidando”, afirmou.

Segundo ele, existe uma dificuldade muito grande de se fazer previsão dos preços. Até mesmo as grandes empresas têm dificuldade para definir quais são os valores a prazos mais longos. Além disso, as cotações do leite são semanais. Agora houve uma redução de preços, que vão se manter por, pelo menos, uma semana, então não existem cotações diárias para o leite ser negociado no mercado de futuros.

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Por:
Igor Batista
Fonte:
Notícias Agrícolas

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