Crise do endividamento chega ao Plano Safra e agora?

Início do Plano Safra registrou o pior desempenho dos últimos cinco ciclos no acumulado dos meses de julho e agosto
Publicado em 25/09/2026 18:01 | Atualizado em 05/10/2026 13:49
Janio Zeferino

O agronegócio brasileiro enfrenta um cenário desafiador com a desaceleração expressiva na liberação de crédito rural. O início do Plano Safra registrou o pior desempenho dos últimos cinco ciclos no acumulado dos meses de julho e agosto. A retração não apenas reduz a área financiada, mas também encarece a tomada de capital pelo produtor rural, que tem recorrido ao mercado financeiro sob taxas de juros elevadas.

Queda expressiva na liberação de crédito

Dados divulgados pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), com base em registros do Banco Central e do Sicor, evidenciam a trajetória de queda nos primeiros dois meses do ano-safra. Enquanto o ciclo 2023/24 atingiu o pico de R$ 114,99 bilhões liberados no período, o valor caiu sucessivamente até registrar R$ 52,40 bilhões na temporada mais recente — montante que representa menos da metade do pico observado e equivale a apenas 12,59% do volume total previsto para o plano.

A restrição afeta inclusive linhas de crédito controlado destinadas a pequenos e médios agricultores, como o Pronaf e o Pronamp. Sem conseguir acessar integralmente os recursos com taxas subsidiadas, muitos produtores buscam complementar suas necessidades em fontes de recursos livres, como Fiagros, fundos, cooperativas e bancos privados.

Juros elevados e desvalorização patrimonial

Durante a análise no programa Acordo Fechado, o consultor Jânio Zeferino, da AgroEasy, alertou para o peso do endividamento decorrente de operações do mercado livre. Ele exemplificou um caso recente de um produtor do Paraná que recebeu proposta bancária de rolagem de dívida com custo financeiro total de 28% ao ano.

"Pensar em tomar uma operação de crédito rural a 28% é totalmente inadequado, incorreto", destacou Zeferino, pontuando que aceitar tais condições configura uma situação insustentável para a atividade produtiva.

Além das taxas de juros punitivas, foi apontada uma forte desvalorização do patrimônio dos produtores. Em regiões tradicionais de terra roxa no Paraná, com produtividade regular entre 80 e 85 sacas de soja por hectare, propriedades têm sido negociadas a valores equivalentes a terras de pastagem de regiões de pecuária, reduzindo o valor dos ativos das famílias e agravando o nível de comprometimento patrimonial diante das dívidas.

Diferenças entre o cenário atual e securitizações passadas

Diante da crise de liquidez, setores do agro debatem a possibilidade de uma nova securitização de dívidas, semelhante às intervenções ocorridas em 1995 e 2001 (Pesa). Contudo, Zeferino ressaltou que a estrutura do crédito rural mudou profundamente.

Nas décadas passadas, o Banco do Brasil concentrava entre 90% e 95% do crédito agrícola e, por ser controlado pela União, viabilizava acordos federais abrangentes. Atualmente, o mercado conta com mais de 200 agentes financeiros ativos — entre bancos privados, tradings, revendas e fundos —, o que torna uma securitização governamental generalizada significativamente mais complexa e insuficiente para cobrir o passivo do setor.

Caminhos e reestruturação administrativa

Como alternativa ao agravamento financeiro e evitando o recurso prematuro à recuperação judicial sem caixa, a recomendação técnica é a reestruturação administrativa das dívidas. Esse modelo busca rediscutir prazos e condições diretamente com os credores a partir de laudos agronômicos e demonstrações financeiras consistentes.

Segundo relatos apresentados no programa, negociações técnicas bem estruturadas têm permitido obter prazos superiores a 10 anos, carência de dois anos, taxas reduzidas e até a dispensa de entradas iniciais, inclusive junto a bancos de fábrica. A demonstração clara da capacidade de pagamento a médio e longo prazo tem sensibilizado credores a preservar a viabilidade da atividade produtiva.

* Com auxílio de IA

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