Plantio da safra avança no Brasil sob irregularidades climáticas e alerta para o mercado global de grãos

Entre chuvas excessivas no Sul e calor no Centro-Oeste, produtores monitoram o ritmo da semeadura, os custos com diesel e as oscilações dos preços em Chicago.
Publicado em 29/09/2026 16:44 | Atualizado em 29/09/2026 17:19
Carla Mendes e Guilherme Dorigatti

Os trabalhos de campo para a safra de verão 2023/24 ganham ritmo no Brasil, mas enfrentam um quadro de forte irregularidade climática entre as diferentes regiões produtoras. Enquanto produtores do Centro-Oeste lidam com temperaturas elevadas e chuvas pontuais, o Sul do país enfrenta precipitações volumosas, granizo e excesso de umidade, afetando tanto o avanço das plantadeiras quanto a qualidade das culturas de inverno. Paralelamente, o mercado internacional de commodities opera atento à geopolítica, aos custos operacionais e à influência dos fatores climáticos sul-americanos na formação dos preços futuros.

Ritmo da semeadura e contrastes regionais no Brasil

Segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a semeadura da soja atingiu 3,9% da área estimada no país, um avanço significativo em relação aos 0,5% reportados na semana anterior. O índice atual supera a média das últimas cinco safras (3,6%) e o registrado no mesmo período do ano passado (3,5%).

Em Mato Grosso, as chuvas registradas permitiram o início das operações em áreas específicas, como em Nova Mutum, onde agricultores aceleram os trabalhos ou aguardam novas precipitações para evitar o risco de estiagem posterior e a pressão de pragas, como a mosca-branca. Por outro lado, no Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral) apontou que o plantio da soja atingiu 28% da área prevista. No entanto, tempestades com excesso de umidade, frio e ocorrências de granizo geram apreensão e já impõem perdas de produtividade e qualidade ao trigo, cuja colheita nacional se aproxima de 29%.

No Rio Grande do Sul, a semeadura do arroz iniciou-se em ritmo acelerado — com cerca de 15% da área plantada, mais do que o dobro do ano passado —, mas as constantes chuvas interromperam os trabalhos de maquinário no campo e prejudicaram o calendário produtivo.

Custos logísticos e pressão do combustível

Além dos desafios climáticos na porteira adentro, a gestão de custos se mantém em alerta. No mês de setembro, o preço médio do diesel comum nos postos brasileiros registrou alta de 2,7%, impulsionado pelo aumento da demanda associada à abertura da safra, com o litro cotado a uma média de R$ 7,24, segundo levantamento da Edenred.

Em campo, produtores de diversas localidades, principalmente na região Sul, relatam episódios de indisponibilidade pontual do combustível e cobranças abusivas. Embora o Ministério da Agricultura reforce a posição institucional de que não há risco iminente de desabastecimento nacional, a dissonância entre os dados oficiais e o relato das lavouras acende um sinal de cautela nas planilhas de custo operacional.

Milho: Demanda interna compensa desaceleração externa

No cenário do milho, a dinâmica comercial tem sido sustentada pelo mercado doméstico. Com a desaceleração no ritmo dos embarques externos reportada pelos dados parciais da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o consumo interno ganha protagonismo no escoamento do cereal. O crescimento da indústria de etanol de milho e a demanda constante do setor de rações animais têm absorvido volumes expressivos, mantendo o equilíbrio entre oferta e demanda e mitigando a queda nos prêmios de exportação.

Análise de Chicago e a influência do El Niño

Na Bolsa de Chicago (CBOT), os preços da soja registraram recuperação pontual após fortes baixas no início da semana. Em análise técnica e mercadológica, o diretor-geral do Grupo Labhoro, Ginaldo Sousa, avaliou que o movimento recente se assemelhou a uma cobertura de posições vendidas (short covering) por parte dos fundos, sem a presença de novos fundamentos estruturais de demanda imediata.

"O mercado caiu muito na véspera e recuperou parte das perdas com essa recomposição. Não tivemos novidades de compras substanciais após os encontros bilaterais entre Estados Unidos e China, e a soja ficou de fora das listas de redução tarifária", afirmou Ginaldo Sousa. Ele destacou que, se a China limitar suas aquisições nos Estados Unidos em torno de 25 milhões de toneladas de um total de importação estimado em 115 milhões, sobrará uma demanda de 90 milhões a ser suprida pela América do Sul, o que mantém a oferta abundante no horizonte caso a produção sul-americana se confirme.

Quanto ao clima, o analista frisou a necessidade de cautela extrema com as previsões ligadas ao fenômeno El Niño: "Se não houver um problema climático severo na América do Sul, com certeza os preços cairão no futuro. As previsões climáticas indicam excesso de chuvas no Sul e seca em partes do Norte e Nordeste. O produtor precisa escalonar o plantio e aproveitar eventuais altas de mercado para travar custos e realizar vendas, pois excesso de chuva atrasa o trabalho, mas historicamente a seca é o fator que quebra safra", alertou.

Conclusão e perspectivas

O início do ciclo 2023/24 exige disciplina na gestão técnica e financeira do produtor rural brasileiro. Diante de margens comprimidas por insumos e combustível em patamares elevados, a estratégia de comercialização e o planejamento do plantio em janelas operacionais seguras tornam-se indispensáveis para atravessar um período de volatilidade climática e incertezas geopolíticas no comércio global de grãos.

* Com auxílio de IA

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