Reabertura do mercado dos EUA à carne bovina pode representar 50 mil/t anuais

Publicado em 20/03/2019 17:40 e atualizado em 20/03/2019 21:12
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Setor deu todas as respostas exigidas pelos Estados Unidos e com a iniciativa da ministra Tereza Cristina em colocar na pauta a questão da carne in natura durante a viagem do presidente Jair Bolsonaro, o otimismo é grande. Fora o "alvará" para outros mercados que significa entrar no consumo americano, mesmo que seja de carne (dianteiro) para hambúgueres.
Antônio Jorge Camardelli - Presidente da ABIEC

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Entrevista com Antônio Jorge Camardelli - Presidente da ABIEC sobre o Reabertura dos EUA à carne bovina?

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Nesta quarta-feira (20), o jornalista Giovanni Lorenzon, do Notícias Agrícolas, conversou com Antônio Jorge Camardelli, Presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) sobre as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos nos últimos anos.

Em 2017, a carne bovina brasileira in natura teve uma breve abertura no mercado americano, mas foi barrada em decorrência de abscessos na carne por origem vacinal. Como decorrência, uma nova vacina foi desenvolvida sem a substância que causa os abscessos.

Para Camardelli, a abertura de novos mercados, como o americano, é uma compensação do mercado interno, que consome mais carne de origem traseira do que dianteira.

Dessa forma, a exportação de carnes dianteiras tirariam o excesso de produto das prateleiras, trazendo benefícios econômicos para o setor.

Dentre os números apresentados por Camardelli, destaque para a exportação que pode atingir 50 mil toneladas anuais.

Sobre a entrada de carne suína americana no Brasil, como base de troca da exportação de carne bovina brasileira, Camardelli considera natural que isso faça parte da negociação, já que em acordos comerciais envolvendo dois ou mais países, concessões são necessárias para que haja abertura de fronteiras.

Confira a entrevista...

Abertura para carne suína americana é vista como razoável para exportação de carne bovina brasileira aos EUA

A ministra da Agricultura Tereza Cristina está voltando da viagem aos Estados Unidos com a promessa de que o governo americano vai anunciar brevemente a vinda de uma missão para inspecionar frigoríficos e possivelmente voltar a liberar a entrada da carne in natura brasileira. Na contramão, o Brasil estudaria protocolos sanitários para liberar o mercado interno à carne suína dos EUA, além de já ter oferecido uma cota livre às importações de trigo conforme foi anunciado durante a visita do presidente Jair Bolsonaro.

Enquanto se aguarda mais informações, o que deve ocorrer nos próximos dias, alguns agentes dos dois setores não estão vendo nessa troca de "carne por carne", se de fato for confirmada, um problema econômico sério. Fazem observações, dentro das especificidades de cada atividade, mas entendem que a iniciativa brasileira é muito importante.

Seja para mostrar que o País "mudou e tem boa vontade de negociar", como lembrou Lozivanio Luis de Lorenzi, presidente da entidade dos criadores de suínos de Santa Catarina (ACCS), seja até para reparar "a irresponsabilidade que foi o caso do abscesso na nossa carne em 2017, ainda que o risco sanitário tenha sido zero", segundo Pedro de Camargo Neto, pecuarista e vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB).

Pode-se dizer que é até normal, portanto, diante do histórico.  

Suínos

A possível abertura ao suíno americano não assusta, num primeiro momento, porque o custo de produção lá é alto, e o produto chegaria ao Brasil com pouca competitividade, explica De Lorenzi. Nem tampouco se espera que o país vá subsidiar vendas ao Brasil, como entende Camargo Neto.

Mas fica, segundo eles, em aberto alguma necessidade de reciprocidade para o suíno brasileiro, especialmente o de Santa Catarina, na América do Norte. Reciprocidade que também pede a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), apesar de se manifestar, em nota, pela abertura.

Os EUA liberam apenas um corte de costelinha para somente duas plantas autorizadas, o que é muito pouco para a ACCS, tanto que apenas 2 contêineres mensais seguem para lá. O Brasil, portanto, poderia seguir na mesma direção, impondo os cortes.

Da mesma forma, o presidente da entidade catarinense acredita que o Mapa poderia também exigir que missões técnicas brasileiras fossem realizadas naquele território. Mesmo que não se conheça problemas sanitários nos suínos americanos, essas visitas técnicas são protocolares.

Já para o produtor independente Wienfried Mathias Leh, do Grupo Leh, de Guarapuava (PR), a entrada do produto dos Estados Unidos, grande concorrente internacional do Brasil, seria boa para regular os preços aqui. Para ele, a cotação no mercado interno acabaria sendo influenciada pelos preços do mercado mundial, o que só acontece se passássemos a importar.

Bovinos

A paralisação do mercado americano à carne bovina, em 2017, em decorrência de abscessos na carne por origem vacinal, representou duro golpe às exportações que mal haviam sido liberadas. Pedro de Camargo Neto lembra que em quatro meses o Brasil já havia vendido mais que a cota imposta, além do que os Estados Unidos são referência e formadores de opiniões para outros mercados exigentes, como Coreia do Sul e Japão.

O setor evita comentar se é justo, para a suinocultura, a troca que aparenta estar ocorrendo, diante das informações que chegam da comitiva brasileira nos encontros de Washington.

Camargo Neto, que já foi negociador internacional tanto para governos brasileiros quanto de entidades como Abiec e ABPA, pensa, no entanto, que não se deveria misturar questões sanitárias com comercias, mas sabe que o "pragmatismo" dos negociadores americanos acaba prevalecendo.

No Frigorífico Mercúrio, do Pará, a expectativa é que se há essa negociação envolvendo as duas proteínas, que seja rápida. Daniel Freire, diretor, acredita que a pecuária exportadora precisa do mercado dos Estados Unidos, sobretudo diante das notícias pouco animadoras da China, que recusou a liberação de mais plantas no Brasil, além da Rússia, que só mantém abertas 5 plantas exportadoras.

Já o presidente da Comissão de Pecuária de Corte da Federação da Agricultura de Goiás (Faeg), Maurício Velloso, também está animado e vê o gesto brasileiro, mais pró-ativo que o americano - inclusive como pensa também o vice da SRB -, como normal diante das circunstâncias gerais do relacionamento bilateral entre os dois países.

"E o Brasil sempre trabalhou o comércio exterior do agronegócio de forma primária", diz, acentuando que não é só os Estados Unidos que são pragmáticos nas relações comerciais, ou seja, primeiro pedem e depois oferecem, mas "todos nossos parceiros e adversários também o são".

Ele espera, no entanto, para ver se o lobby americano das carnes vai ter alguma influência se de fato os Estados Unidos caminharem na direção da liberação da carne bovina in natura. (Giovani Lorenzon)

Indústria de trigo do Brasil vê americano mais competitivo em cota sem tarifa

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SÃO PAULO (Reuters) - A depender da competitividade e da tradição em vender ao Brasil, os produtores e exportadores dos Estados Unidos deverão levar a maior parte de uma cota sem tarifa de 750 mil toneladas/ano do cereal produzido fora do Mercosul, disse o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Trigo (Abitrigo) nesta quarta-feira.

Na véspera, em comunicado conjunto entre Brasil e Estados Unidos, por ocasião da visita do presidente Jair Bolsonaro a Washington, foi informado que os brasileiros abririam a cota sem tarifa aos norte-americanos, como parte das negociações agrícolas.

Nesta quarta-feira, contudo, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, esclareceu que a cota sem a tarifa de 10 por cento é para todos os países fora do Mercosul, não apenas para os EUA.

"No comunicado saiu como algo fechado (para os EUA)... Fiquei surpreso pela nota, que era só americano, mas acho que vai prevalecer a posição da ministra. Agora, a americano é mais competitivo", disse Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo, em entrevista à Reuters.

"Do ponto de vista nosso (da indústria de moagem de trigo), quanto mais competição melhor, para nós não tem problema", disse Barbosa, salientando a importância de o setor contar com a maior diversificação de origens.

Ele ressaltou ainda que quando o Brasil trouxe as primeiras cargas de trigo da Rússia, no ano passado, isso ajudou diminuir a pressão de preços pelos vendedores, algo benéfico para a indústria moageira.

De outro lado, integrantes do setor agrícola no Brasil e Argentina, e exportadores do país vizinho, o principal fornecedor de trigo aos brasileiros, estão preocupados com a cota sem tarifa, que competirá com seu produto.

No ano passado, das 6,8 milhões de toneladas que o Brasil importou, um volume de 5,9 milhões de toneladas de trigo veio da Argentina e 330 mil do Paraguai, com os EUA vendendo 270 mil toneladas, apesar da tarifa --os demais países forneceram volumes menores.

Barbosa lembrou que a cota sem tarifa era um compromisso do Brasil da Rodada do Uruguai, de 1994.

"Parece que está decidido, como era um compromisso antigo brasileiro, vão colocar em vigor imediatamente", disse Barbosa, acreditando que a implementação dependerá de uma publicação oficial do Ministério da Agricultura.

A propósito das negociações agrícolas com os EUA, a ministra da Agricultura brasileira não se mostrou muito satisfeita com os resultados da missão a Washington, especialmente no que diz respeito à carne bovina in natura, que continua barrada pelos norte-americanos.

USO DA COTA

Para a analista Ana Luiza Lodi, da consultoria INTL FCStone, a viabilidade de uso da cota sem tarifa dependerá das condições de preços.

Ela ponderou que para uma análise mais completa seriam necessários todos os detalhes de funcionamento da cota, ainda não divulgados.

Fontes da indústria presentes ao evento da INTL FCStone nesta quarta-feira disseram que tal cota, de fato, é a princípio negativa para o agricultor brasileiro.

Para uma fonte da indústria, porém, se a cota valesse de abril a julho, por exemplo, o impacto para o produtor seria menor, pois a colheita no Brasil só se dá a partir de agosto. Dessa forma, o produto extra Mercosul livre de tarifa não concorreria diretamente com o cereal nacional.

Outra fonte avaliou que, com a cota, ampliaria-se o leque de origens de trigo, o que traria alguns benefícios.

"Vejo alguma vantagem, pois daria para se importar mais variedades e se compor uma mescla de trigos de melhor qualidade. Melhoraria até a farinha", disse essa fonte, representante de um grande moinho, pedindo anonimato dada a sensibilidade do assunto.

Conforme dados da INTL FCStone, de 2010/11 para cá, as vendas de trigo dos EUA ao Brasil só superaram a marca de 750 mil toneladas, com tarifas, em momentos de reduzida oferta na Argentina. Foram quatro ocasiões: 2012/13, 2013/14, 2014/15 e 2016/17.

A consultoria, aliás, projeta uma redução nas importações brasileiras de trigo a 5,7 milhões de toneladas em 2019/20 (agosto a julho), de 7 milhões em 2018/19, uma vez que espera um aumento de mais de 15 por cento na safra nacional que será plantada nas próximas semanas.

(Por Roberto Samora; com reportagem adicional de José Roberto Gomes)

Por: Giovanni Lorenzon
Fonte: Notícias Agrícolas

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