Choque sanitário global: Cenário da influenza aviária exige vigilância e reforça papel da biosseguridade no controle
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A influenza aviária de alta patogenicidade vem ganhando espaço no cenário internacional e impacta diretamente a produção, o comércio e a organização da cadeia de aves. Desde 2020, a doença ampliou sua presença em diferentes regiões, afetando sistemas produtivos e exigindo respostas mais estruturadas dos países.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo a FAO (A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) entre 2004 e 2021, foram registrados cerca de 37 mil focos no mundo. Já a partir de 2022, esse volume se aproxima de 25 mil ocorrências em um período significativamente menor. O vírus H5N1 passou a concentrar aproximadamente 90% dos registros recentes, indicando maior adaptação e circulação, conforme dados apresentados pela médica veterinária Daniela Pacheco Lacerda, atual coordenadora-geral de programas sanitários do Departamento de Saúde Animal do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) durante o 2º Fórum Estadual de Influenza Aviária. O evento aconteceu na última terça-feira (17) em Montenegro, Vale do Caí, Rio Grande do Sul.
Outro ponto de atenção está na capacidade de expansão do vírus para além das aves. De acordo com a FAO, já foram identificados casos em 83 espécies de mamíferos. Esse avanço amplia a complexidade do controle e reforça a necessidade de acompanhamento constante.
Mudança no perfil da doença preocupa especialistas
A influenza aviária deixou de ocorrer de forma isolada e passou a ter comportamento mais persistente em diferentes regiões do mundo. “A influenza aviária deixou de ser uma ameaça esporádica e se tornou um desafio global”, afirmou Beth Bechdol, diretora-geral adjunta da FAO, durante encontro internacional realizado no Brasil no ano passado.
A ampliação geográfica acompanha fatores naturais e produtivos. Rotas migratórias de aves, aliadas à intensificação da produção, favorecem a disseminação do vírus entre continentes. Esse movimento aumentou a exposição de países que antes não conviviam com a doença.
Além disso, a rápida capacidade de mutação do vírus Influenza tipo A exige atualização constante das estratégias sanitárias. Esse comportamento dificulta previsões e amplia a necessidade de integração entre ciência, setor produtivo e autoridades.
Brasil entra no cenário com preparo e monitoramento
O Brasil registrou seu primeiro foco em 2023, após um período de organização das ações sanitárias. Esse tempo de preparação permitiu estruturar melhor a resposta e fortalecer o sistema de vigilância. As informações foram destacadas por Daniela Pacheco Lacerda durante o Fórum sobre Influenza Aviária: debate prevenção e contingência no RS, realizado na última terça-feira.
“A gente teve um tempo maior de preparação do que outros países”, afirmou a especialista durante o evento. Segundo ela, esse processo contribuiu para aprimorar procedimentos e ampliar a articulação entre diferentes áreas.
Mesmo com esse avanço, o cenário atual apresenta novos desafios. “Hoje a gente está diante de uma realidade mais complexa, com diferentes espécies envolvidas e múltiplas rotas de introdução do vírus”, explicou Daniela, com base em análises do MAPA.
Sinais nem sempre são evidentes no campo
Um dos principais entraves para o controle está na identificação dos casos nas propriedades. Nem sempre os sintomas seguem um padrão claro, o que pode dificultar a suspeita inicial.
“Essa característica pode atrasar a comunicação aos órgãos oficiais e comprometer a rapidez das medidas sanitárias. Em sistemas de criação de menor escala, esse desafio tende a ser ainda maior, devido à variabilidade dos sinais clínicos”, observou.
Situações recentes no Brasil demonstraram esse comportamento, com manifestações menos evidentes em algumas propriedades. Esse fator reforça a importância da observação diária e da capacitação contínua dos trabalhadores de granjas.
Comportamento da doença varia entre regiões
A dinâmica da influenza aviária não é uniforme entre os hemisférios. Em regiões do norte, há maior concentração de ocorrências em períodos mais frios. Em 2025, cerca de 57% dos focos foram registrados entre novembro e dezembro, conforme dados apresentados durante o evento.
No hemisfério sul, esse padrão ainda não está bem definido. “No Brasil, há indícios de maior concentração entre abril e agosto, mas ainda com base em uma série histórica limitada. Essa incerteza exige acompanhamento contínuo e dificulta a definição de períodos de maior risco” explicou Lacerda.
Atuação dentro da porteira faz diferença
A rotina nas propriedades é determinante para a eficiência das ações sanitárias. A observação constante dos animais permite identificar alterações e agir com rapidez. “Quem está todos os dias avaliando os animais é quem tem a melhor capacidade de identificar sinais”, afirmou a coordenadora do MAPA.
Propriedades com maior integração com o serviço veterinário oficial tendem a responder de forma mais ágil diante de suspeitas. Essa proximidade fortalece o sistema e reduz o tempo entre identificação e ação.
O monitoramento de aves silvestres também contribui para o entendimento da circulação do vírus. Essas informações ajudam a direcionar medidas preventivas e manter o alerta ativo nas regiões produtoras.
Coordenação entre setores amplia eficiência
A complexidade da doença exige atuação conjunta entre diferentes áreas. “Hoje não se imagina trabalhar saúde animal sem integração com outros setores”, destacou Daniela durante sua participação no fórum.
Essa articulação envolve agricultura, meio ambiente e saúde pública, além da participação direta do setor produtivo. A abordagem segue o conceito de atuação integrada, defendido também pela FAO.
No Brasil, esse modelo tem evoluído, com maior troca de informações e alinhamento entre instituições. Esse avanço contribui para respostas mais rápidas e eficazes.
Biosseguridade ganha protagonismo no controle
Diante de um cenário mais desafiador, a prevenção passa a ser o principal caminho para proteger a produção. As medidas dentro das propriedades se tornam decisivas para reduzir riscos e evitar a entrada do vírus.
“A gente está falando muito mais do que uma crise de saúde animal”, afirmou Daniela durante o evento. Segundo ela, o tema envolve impactos econômicos, sociais e ambientais.
Nesse contexto, a biosseguridade se consolida como ferramenta central no controle sanitário. A adoção de práticas adequadas, aliada à vigilância e à informação, é fundamental para garantir a continuidade da atividade e a segurança da produção.
No próximo episódio, vamos conhecer os impactos da doença nos mercados mundiais e as novas rotas de comércio frente a situação. E no último capítulo vamos falar sobre biosseguridade e os impactos para a não disseminação da doença.
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