Brasil poderá perder vendas de US$ 10 bi em soja no acordo da China com EUA

Publicado em 20/12/2019 15:54 e atualizado em 23/12/2019 11:00
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Mas acordo de americanos e chineses pode abrir novos mercados para a exportação brasileira, diz Marcos Yank, especialista em agronegócio do Insper
Entrevista com Marcos Jank - Professor de Agronegócio do Insper

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A implementação do acordo comercial entre China e Estados Unidos pode prejudicar o Brasil com a estimativa de perda de US$ 10 bi em exportações para o país asiático, de acordo com o professor de agronegócio do Insper e especialista em agronegócio global, Marcos Jank. 

Entretanto, ele explica que se os Estados Unidos passarem a vender mais soja pra a China, por exemplo, outros países ficarão descobertos, o que pode representar uma oportunidade para o Brasil estabelecer novos mercados. Entre as áreas em potencial destacadas por Jank estão sudeste e leste da Ásia, Oriente Médio, Japão, Coreia do Sul, leste europeu, países em desenvolvimento, de forma geral.

-- "O que está acontecendo pelo mundo afora tem que ser observado diariamente pelo produtor rural. Dependemos muito da conjuntiura global, o Brasil é muito competitivo". 

O especialista explica que nos últimos dois anos o Brasil saiu de US$ 21 bi nas exportações de produtos do agronegócio para a China, e saltou para US$ 35bi. Enquanto isso, os Estados Unidos caíram de US$ 25 bi para US$ 14 bi. "Então, na verdade, nós já tínhamos recebido mais de US$ 10 bi de transferência dos EUA para a gente, principalmente na soja, que foi a grande beneficiaria da guerra comercial". 

O que pode acontecer agora é uma situação de chave trocada: antes a guerra comercial prejudicava os Estados Unidos a favor do Brasil, "e agora o acordo pode ser prejudicial para nós. 

-- "Isso eu acho que é preocupante, porque mostra um mundo não de comércio livre, mas de comércio administrado. Os dois principais players do planeta hoje se acertam num acordo, e a questão pra gente é saber se isso vai ser feito seguindo as regras multilaterais, dentro das regras da Organização Mundial do Comércio, ou se vai ser feito à revelia", disse.

Se o acordo comercial entre China e Estados Unidos for celebrado, o Brasil pode perder espaço em soja conquistado nos últimos anos, ealém de produtos como algodão, frango, etanol, carne bovina. "Mas acho difícil que esse acordo seja concretizado desta forma", afirma.

De acordo com Jank, um acordo elevando as exportações dos EUA para a China US$ 14 bi/ano para US$ 56 bi/ano em dois anos "é infactível". "São US$ 40 bi a mais, e a gente sabe que houve uma quebra de safra este ano nos EUA, caiu de 120 mi de toneladas para 96mi, e eles nem teriam produto para substiutuir o Brasil a curto prazo, porque os estoques caíram muito nos EUA". 

Para Jank, seria necessário haver outros ajustes para chegar aos US$ 56 bi, como abrir o trigo para os Estados Unidos, frango, ampliar o algodão, por exemplo. 

-- "Acho que o que aconteceu foi um anúncio muito midiático feito pelo Trump para acalmar o mercado que está entrando em uma rescessão, e garantir a reeleição dele com o mundo agrícola americano, tentando dar uma notícia boa para os produtores americanos que nestes últimos anos foram alijados do mercado por causa das tarifas impostas pela China", explica.

Agronegócio - crescimento, geopolítica e fortes emoções (por Marcos Sawaya Jank)

"Nossas perspectivas são extraordinárias, apesar do endosso dos EUA e China ao “comércio administrado” no agronegócio"

A vida dos leitores de bola de cristal está cada vez mais complicada. No caso do agronegócio, a confluência de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, uma terrível epidemia de peste suína africana na Ásia, a retomada de pesadas taxações sobre as exportações no novo governo argentino e, fechando o ano, o anúncio de um mega-acordo EUA-China jogaram por terra as profecias e os cenários dos oráculos dos últimos três anos.

Definitivamente, entramos numa nova “era das incertezas”, marcada por volatilidades, rupturas e o retorno brutal da geopolítica no comércio mundial.

Assim que assumiu, em 2017, Donald Trump decidiu taxar a entrada de produtos chineses nos EUA e a China retaliou fazendo o mesmo contra a entrada de produtos americanos. Por isso o Brasil foi beneficiado com importações crescentes da China no agronegócio, que favoreceram principalmente nossa soja.

De 2016 a 2018 as exportações agrícolas do Brasil para a China saltaram de US$ 21 bilhões para US$ 35 bilhões, enquanto as dos americanos caíram de US$ 25 bilhões para só US$ 13 bilhões. O Brasil tornou-se o maior produtor e exportador de soja do mundo e a China adquire 80% da nossa exportação.

Em meados de 2018 uma epidemia de peste suína atingiu a China e vários países do Sudeste Asiático. Os produtores venderam seus animais no mercado antes de serem obrigados a enterrá-los, incluindo suas matrizes. A China responde por metade da produção mundial de suínos.

O volume perdido de suínos na China é maior que todo o mercado mundial de carne porcina. Isso fez a China reduzir em 12% (11 milhões de toneladas) suas importações de soja, usada basicamente para produzir rações de aves e suínos. Perdemos na soja, mas estamos exportando mais carnes bovinas, suínas e de aves para o gigante asiático. Os produtores brasileiros de carne comemoram, mas os consumidores reclamam dos preços mais altos no mercado interno. A China levará pelo menos três anos para se recuperar do desastre da peste suína.

A boa notícia é que vai haver uma mudança forçada no modelo de produção de suínos na China, substituindo a criação de fundo de quintal por granjas modernas e controladas, onde os animais são menos susceptíveis a doenças. Como a produção comercial em granjas consome mais ração – leia-se muito mais soja e milho –, no longo prazo isso beneficia o Brasil e outros fornecedores.

O último capítulo dessa série de surpresas deu-se na semana passada, com o intempestivo anúncio de Trump de que os EUA e a China teriam fechado a primeira fase de um acordo histórico que pretende acabar com a guerra comercial. Segundo o que foi divulgado, as exportações agro dos EUA para a China saltariam de US$ 14 bilhões para US$ 56 bilhões em apenas dois anos, um aumento enorme. É pouco provável que essa meta seja cumprida, até porque os agricultores americanos acabam de perder quase 50 milhões de toneladas de grãos numa safra marcada por problemas sucessivos de excesso de chuva e frio. O tal acordo agrícola parece ser apenas Trump jogando para a plateia interna em ano pré-eleitoral, no caso, os agricultores do Meio-Oeste americano.

Mas se o acordo se concretizar em algum momento, o montante ali previsto certamente impactará negativamente as nossas exportações de soja, algodão e carnes para a China. Os EUA são, de longe, nosso maior concorrente no mercado mundial.

Por isso se torna fundamental verificar se esse acordo propõe apenas a volta da normalidade competitiva, dentro das regras do mercado, ou se serão criados mecanismos “privilegiados” de comércio entre China e EUA, como, por exemplo, compras dirigidas realizadas por tradings estatais chinesas. É preciso analisar também se o acordo será compatível com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), recentemente debilitada pela recusa dos EUA de nomear juízes para o seu Órgão de Apelação.

Em resumo, entramos numa era sombria dominada pela geopolítica e pelo “comércio administrado”, com o endosso das duas maiores economias do planeta. Mas ainda assim acredito que nossas perspectivas continuam sendo extraordinárias no agro. Se a China substituir as compras do Brasil em favor dos EUA, isso fatalmente nos abrirá espaço em outros mercados importantes do Sul e Sudeste da Ásia e do Oriente Médio, por conta do aumento de renda da pujante classe média asiática. Isso sem contar o potencial de longo prazo da África e da Índia, com o seu imenso crescimento populacional.

Minha tese é que ninguém segura o Brasil nas commodities que não dependem tanto de políticas governamentais (aqui e no exterior), como soja, milho, algodão e celulose, em que a oferta e a demanda se ajustam mais facilmente via mercado.

O maior exemplo desse ajuste é a incrível expansão da oferta de milho e algodão na segunda safra, plantada logo após a soja no mesmo ano agrícola, que já cobre 14 milhões de hectares no País. Ela nos levou ao segundo lugar nas exportações dessas duas commodities em 2019, assustando os EUA, país que ocupa a primeira posição no ranking mundial.

Em 2019 o milho vai superar a secular indústria de cana-de-açúcar no ranking dos principais produtos exportados pelo Brasil. E o algodão vem um pouco mais atrás, voando baixo. Isso sem contar a turbinada que virá com os investimentos que estão sendo feitos na logística de transporte do País e o grande potencial da integração lavoura-pecuária que ainda temos.

Por outro lado, produtos como açúcar, etanol e carnes demandam esforços consistentes de acesso aos mercados e políticas públicas específicas aqui dentro para conseguirem crescer no exterior.

Em suma, no agronegócio vivemos tempos de grande potencial de crescimento da demanda mundial e de expansão sustentável da oferta no País. Mas são tempos turbulentos e imprevisíveis, marcados por crises frequentes, instabilidades geopolíticas e guerra comercial. E tempos turbulentos exigem estratégia, organização e liderança.

(*) Marcos Sawaya Jank é professor sênior de Agronegócio Global do Insper e titular da Cátedra Luiz de Queiroz da Esalq-USP.

Bolsonaro: não vou mais para Antártida, tenho viagem a Davos e emendo com a Índia

Brasília - O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira, 20, que cancelou sua viagem para a Antártida por "recomendação médica" e citou outras viagens previstas em 2020. "Eu tenho uma viagem longa para Davos e vou emendar a Índia. Talvez, visitemos mais um país", disse.

O plano de viagens para o ano que vem, segundo o presidente, são viagens com foco nas relações comerciais do Brasil. "São viagens que interessam para o comércio do Brasil. São raros os países que não querem ter esse tipo de contato conosco", afirmou. O presidente se disse honrado pelo convite do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e que vê a viagem como uma boa oportunidade.

"A Índia está na casa de 1,3 bilhões de habitantes e é um mercado enorme. Talvez possamos anunciar aquela isenção da reciprocidade dos vistos para indianos também, como está bastante avançados a questão na China. São países que têm seus ricos lá e nós queremos que essas pessoas venham gastar seu dinheiro aqui", declarou. O presidente indicou ainda que existem "várias" negociações de encontros bilaterais no âmbito de Davos.

Hoje o presidente mencionou ainda a possibilidade de uma viagem no início do ano para os Estados Unidos. Bolsonaro afirmou ter conversado nesta tarde com Donald Trump e convencido o presidente norte-americano a voltar atrás na decisão de sobretarifar o aço e alumínio brasileiro. "Quando converso com Trump, parece mais do que dois chefes de Estado", disse. O presidente deixou claro que o relacionamento com os Estados Unidos "nunca esteve estremecido".

Bolsonaro aproveitou ainda para citar a sua decisão de derrubar o decreto que proibia a produção de cana na Amazônia como uma justificativa para incentivar o desenvolvimento na região e prevenir ações internacionais. "Aquela região (da Amazônia) é muito rica, se nós a abandonarmos mais cedo ou mais tarde poderemos ter novos países lá", disse.

Por: João Batista Olivi e Letícia Guimarães
Fonte: Notícias Agrícolas

5 comentários

  • Rodrigo Domingues Franz Piratini - RS

    Não sei se é o fim da guerra comercial, acho que ainda colheremos bons frutos. Trump é o maior negociador que conheço, já li sua biografia, mentiu muito pra chegar onde chegou. Por isso, deixo em check esta afirmação que o EUA está fechando acordo com China...

    E outra, será que devemos depender de só um cliente grande? Mantendo os ovos numa cesta só? Há grandes mercados a serem explorados.

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  • Vilson Ambrozi Chapadinha - MA

    Se muito, poderemos ter problemas com produção de aves e suinos..., e, mesmo assim, não a curto prazo. Já na soja, junto com os hermanos sul-americanos, damos as cartas .

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    • Rubenson Antônio Assinck Santa Bárbara do Sul - RS

      ...podemos até estar dando as cartas, mas quem está embaralhando?, no meu ponto de vista, quem está embaralhando e dominando o jogo é a China.

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  • Cassiano aozane Vila nova do sul - RS

    Buenas, manchete estupida , só sensacionalismo..., pra que fazer isso?.

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  • Fernando Romagnoli Rosseto Primavera do Leste - MT

    Esse analista esta mais perdido que eu fazendo plano de voo!

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  • carlo meloni sao paulo - SP

    Joao Batista eu nao concordo muito a opiniao do prof. Marcos Jank, porque se a demanda global nao perder 10 milhoes de toneladas, as coisas acabam se ajustando por si só... Nao vende para Beltrano entao vende para Sicrano e ZE" FINI"

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    • Vilson Ambrozi Chapadinha - MA

      Este professor faltou à aula no dia em que ensinaram a questão dos vasos comunicantes...

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