Brasil confirma exportação recorde de soja em abril enquanto seguem incertezas sobre demanda pelo grão americano

Publicado em 04/05/2020 17:35 e atualizado em 04/05/2020 20:15 2547 exibições
Luiz Fernando Gutierrez Roque - Analista da Consultoria Safras & Mercado
A volta da tensão entre China e EUA voltou a afetar o mercado financeiro e respingou no mercado da soja em Chicago

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Entrevista com Luiz Fernando Gutierrez Roque - Analista da Consultoria Safras & Mercado sobre o Fechamento de Mercado da Soja

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Exportação de soja do Brasil dispara mais de 70% e atinge recorde em abril

SÃO PAULO (Reuters) - Com firmes aquisições da China, a exportação de soja do Brasil atingiu um recorde mensal de 16,3 milhões de toneladas em abril, aumento de 73% ante o mesmo mês do ano passado, de acordo com dados da média diária de embarques publicados nesta segunda-feira pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

O recorde anterior, de acordo com a Secex, havia sido registrado em maio de 2018, com embarques de 12,35 milhões de toneladas.

Os grandes volumes embarcados de soja, o principal produto de exportação do país, geraram receitas de 5,5 bilhões de dólares em abril.

Mais cedo, informações de embarques da agência marítima Cargonave já haviam indicado um recorde histórico em abril, de 14,16 milhões de toneladas. Os dados do governo e do setor privado costumam divergir, mas no caso ambos indicam volumes nunca vistos para qualquer mês.

A associação de exportadores Anec apontou 13,3 milhões de toneladas na exportação de março, enquanto a Secex registrou 11,6 milhões de toneladas no mês anterior.

No acumulado de janeiro a abril, os embarques do país, o maior exportador global da oleaginosa, atingiram 35,76 milhões de toneladas, com a China levando 26,5 milhões de toneladas, relatou a agência marítima mais cedo.

Para maio, junho e julho, a expectativa é de que o Brasil volte a exportar volumes fortes, mas as possibilidades de o país bater os expressivos números de abril são menores, disse à Reuters o analista da Safras & Mercado Luiz Fernando Roque.

Ele acrescentou que a programação de embarques de navios já aponta exportação de pelo menos 9 milhões de toneladas para maio.

"Acho que maio e junho ainda vão ser fortes, mas as chances de superarem o recorde de abril são pequenas. É pouco provável", comentou.

Os negócios ocorrem após uma colheita enorme neste ano no Brasil e com os portos funcionando em ritmo acelerado, mesmo com maiores cuidados para evitar contaminações pelo coronavírus.

Além disso, os preços da soja alcançaram valores nominais recordes no Brasil na esteira da forte desvalorização do real ante o dólar, o que impulsiona vendas de produtores e abre uma janela de oportunidade para fixação de contratos para a próxima safra, avaliou o Itaú BBA nesta segunda-feira.

O analista da Safras disse que a consultoria mantém expectativa de que o Brasil vai exportar volumes acima do normal no primeiro semestre, com a China se concentrando no país no período, para depois buscar o produto nos EUA, cumprindo promessas do acordo comercial fase 1.

"A grande dúvida é se a China vai honrar o acordo comercial ou não, acho que existe espaço para honrar, (o mercado) está em momento negativo para isso, subindo as tensões...achando que a China pode não honrar", disse ele.

Para ele, se a China não honrar seu acordo com os EUA, os embarques brasileiros surpreenderiam no segundo semestre.

Preço da soja atinge recorde no Brasil e abre janela para fixação, diz Itaú BBA

São Paulo (Reuters) - Os preços da soja alcançaram valores nominais recordes no Brasil na esteira da forte desvalorização do real ante o dólar e também do elevado ritmo de exportações do grão, o que abre uma janela de oportunidade para fixação de contratos, avaliou o Itaú BBA nesta segunda-feira.

O Indicador Esalq/BM&FBovespa da soja Paranaguá (PR), no porto, subiu 7,7% entre março e abril, para a média de 102,30 reais por saca de 60 quilos no mês passado, a maior desde setembro de 2018, em termos reais --valores deflacionados pelo IGP-DI de março/20-- informou o Cepea nesta segunda-feira.

Já o Indicador Cepea/Esalq Paraná avançou 7,8% na variação mensal, com média de 95,19 reais por saca de 60 quilos em abril, a maior para um mês de abril desde 2004, em termos reais. Segundo o Cepea, trata-se também do maior valor mensal desde setembro de 2018, em termos reais.

Na mesma linha, o Itaú BBA destacou, em análise, que as cotações para a safra 2020/21 convertidas em moeda local também se apreciaram, com fixações para o município de Sorriso (MT) em torno de 85 reais por saca.

"Esses são patamares que não devem passar despercebidos pelos produtores diante dos riscos para as cotações na próxima safra", afirmou o banco de investimentos.

Dentre os fundamentos que podem levar ao recuo nos preços da oleaginosa durante a safra que vem, o Itaú BBA disse, sem detalhar em números, que os estoques finais da safra 2019/20 ainda serão elevados, mesmo após as perdas na produção do Rio Grande do Sul causadas pela seca.

Além disso, a expectativa é de aumento de área de soja nos Estados Unidos, em parte, segundo a análise, pela recuperação do que foi deixado de plantar no ano passado por problemas climáticos, mas também devido à redução na atratividade do milho.

Os preços do cereal foram fortemente afetados pela recuo na demanda por combustíveis, após as medidas de isolamento social adotadas pelos governos para conter a disseminação do coronavírus, aliadas à crise no setor de petróleo. Cerca de um terço da produção de milho nos EUA é destinada para a fabricação de etanol.

Para o Itaú BBA, o cenário de expansão da área de soja norte-americana somado à normalidade da próxima safra na América do Sul deve deixar o balanço de oferta em níveis confortáveis, mesmo com o consumo global aquecido.

"Isso tende a reduzir o espaço para grandes altas das cotações (da oleaginosa) em Chicago mesmo assumindo aumento das exportações dos Estados Unidos."

Quanto ao prêmio pago pela soja nos portos brasileiros, que estão acima das médias históricas, o banco acredita em possíveis reduções na temporada de 2020/21, pois parte da demanda chinesa tende a ser suprida com o grão norte-americano, devido à fase 1 do acordo comercial assinada entre China e EUA.

"De fato, a cotação do prêmio para março/21 vem perdendo força nas últimas semanas", afirmou o banco.

O banco ainda destacou que a taxa de câmbio corre o risco de recuar à medida que as incertezas em torno dos efeitos da pandemia do coronavírus diminuam. "Uma volta da taxa de câmbio para os patamares pré Covid-19 pode reduzir substancialmente o valor da saca de soja em reais", alertou.

Por:
Aleksander Horta
Fonte:
Notícias Agrícolas/Reuters

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