MERCADO DO AÇÚCAR: Uma crise sem fim?

Publicado em 28/05/2012 07:31 613 exibições
Comentário Semanal – de 21 a 25 de maio de 2012, por Arnaldo Luiz Corrêa.
O mercado de açúcar fechou a semana com baixa expressiva de 85 pontos no vencimento julho/2012, cotado a 19,62 centavos de dólar por libra-peso, queda de pouco mais de 18 dólares por tonelada. Os demais meses acompanharam a marcha fúnebre e fecharam com baixas entre 10 e 16 dólares por tonelada.

Os fundos diminuem suas posições de risco nas commodities agrícolas. O açúcar tem sido afetado não apenas pelo cenário fundamentalista que aponta superávit mundial para esta safra e para a seguinte, segundo alguns analistas, mas também pela desvalorização excessiva do real e, último, mas não menos importante, pela situação da Grécia, que ruma para sair do euro. A desvalorização do real compensa a queda dos preços em dólar das principais commodities e isso diminui a preocupação que o mercado internacional possa ter sobre uma eventual retração da oferta de açúcar em função de preços menores em dólares.

É interessante notar que os valores em reais para o açúcar, no mercado interno e externo, e para o etanol, anidro e hidratado, no mercado interno, desde 2010, ficaram abaixo do custo de produção em apenas uma ocasião: na primeira metade da safra 2010/2011. Desde então, os valores de mercado sempre negociaram acima do custo de produção. A queda de mercado em NY desde o pico em fevereiro foi em parte compensada com a desvalorização do real. Na máxima do fechamento do ano (26,50 centavos de dólar por libra-peso, em 27/2) o dólar estava a 1,8291. Com o dólar a 2,0200 o equivalente de NY seria 24 centavos de dólar por libra-peso. O açúcar caiu 26% em dólares e 18% em reais. O preço mais baixo em reais por libra-peso este ano foi 39,45 ocorrido dia 8 de maio. A baixa anterior tinha sido em junho de 2011 quando esse valor batera 38,42 (dólar de 1,5778 e NY a 24,35). Na crise de 2010 cravou 31. Os fundos, em sua maioria, ignoram essas informações e o impacto delas na mudança de atitude das usinas no que tange ao mix, por exemplo.

Sem a Rússia comprando num período que normalmente o Brasil seria seu fornecedor, as coisas estão caminhando para que o açúcar encontre o preço de equilíbrio no etanol, ou seja, uma reversão da tendência de baixa que se convertida a partir do preço negociado do hidratado a R$ 1,32 o litro e o dólar em 2,1000 significa açúcar a 17,50 centavos de dólar por libra-peso. Enquanto isso, os luminares de Brasília importam gasolina ao equivalente de R$ 1,7000 o litro o que equivaleria nos postos a R$ 3,5000, ou seja, se fossem apenas os aspectos fundamentais do mercado, o trader teria condições de avaliar e decidir sobre eles, mas quando aparece a mão do governo, perde-se o foco pela entrada de elemento fora do padrão inteligente. 

O preço médio do açúcar na bolsa de NY nos últimos 12 meses é de 25,14 centavos de dólar por libra-peso; 24 meses é de 24,38 centavos de dólar por libra-peso; a média de 5 anos é de 18,50 centavos de dólar por libra-peso. Em reais, a média de 12 meses é de 43,31, 41,83 para 24 meses e 33,20 para 5 anos.

A perda de US$ 2 bilhões do JPMorgan-Chase em derivativos de crédito vai trazer à discussão a rigidez do governo americano com os derivativos e, especialmente, com as posições proprietárias dos bancos de investimento, entre outros. O banco, que recebera ajuda de US$ 390 bilhões do FED durante a crise de 2008, diz que perdeu essa montanha de dinheiro em hedge. O banco sempre viveu de tomar riscos e ganha dinheiro agindo assim, mais de metade de seu lucro vem de engenharia financeira. Dez perdas de US$ 200 milhões podem passar despercebidas pela mídia, mas uma perda de US$ 2 bi provoca alvoroço. Má gestão de risco não é crime, diga-se de passagem, mas tem elementos para provocar o endurecimento da Dodd-Frank – uma legislação abrangente para o mercado financeiro com objetivo de trazer transparência e segurança ao investidor - e pode respingar até mesmo nos ingênuos informativos dos corretores sobre o mercado, ou nos relatórios com comentários sobre o mercado. A que ponto nós chegamos? Imagine você, caro leitor, ligar para seu corretor nos Estados Unidos e perguntar: “O que você está achando do açúcar?”. “Desculpe, mas não posso dar nenhuma opinião sobre isso”.

O governo indiano aumentou em 11% o preço da gasolina devido à elevação dos preços no mercado internacional e a desvalorização da moeda indiana em relação ao dólar. O último aumento da gasolina naquele país ocorrera há seis meses. Enquanto isso, no Brasil, o consumidor pensa que tem a gasolina mais cara do planeta, mas não sabe que mais de 50% do preço que ele paga na bomba são impostos e margens de comercialização e distribuição. Do G-20, apenas Brasil e China controlam os preços dos combustíveis sem olhar o mercado internacional.

Segundo um site de notícias, a preocupação sobre a desvalorização da rúpia (moeda indiana) é pior do que na crise de 2008-9, enquanto a inflação dos alimentos dispara e pode elevar dramaticamente o preço interno do açúcar, colocando um final nos preços deprimidos devido à abundância de açúcar. Façam suas apostas.

Perguntado pelo Estadão quanto tempo deve levar até que possamos sair desta crise e ver o mundo finalmente vivendo um bom momento econômico, o economista James K. Galbraith, de 60 anos, professor de Economia na Universidade de Austin, no Texas, filho do renomado John Kenneth Galbraith, já falecido, respondeu: “Acho que um século ou dois. Acho que meus bisnetos talvez vejam isso”. Fala sério. Como alguém se atreve a fazer previsão de 200 anos?
Isso lembra aquela história de um prefeito de NY no século 18 que se dizia preocupado em como a cidade encontraria espaço para tanto esterco de cavalo quando chegasse ao século 20, já que o número de charretes na cidade se expandia rapidamente.

Um amigo testa o Siri, assistente pessoal inteligente do novo iPhone, e pergunta, em inglês, “Como está o açúcar?”. Resposta: “Eu não entendo o que o açúcar está fazendo”. Muito esperto esse aparelhinho.

Agora olha só essa: segundo pesquisa da Universidade da Califórnia publicada na semana passada em seu Jornal de Fisiologia “consumir muito açúcar pode diminuir a capacidade intelectual do indivíduo”. Ou seja, quanto mais açúcar consumimos, mais bobo ficamos. O estudo não fala nada sobre operar o mercado de açúcar nem comentar sobre ele, o que – convenhamos - já é um alívio.

Retificando o que foi publicado no relatório anterior: o custo de produção do açúcar apurado pelo modelo da Archer Consulting, considerando o CONSECANA médio da safra passada e o dólar médio dos últimos 30 dias, está em 36,1363 reais por saca na usina, sem custo financeiro.

Anote na sua agenda: o 18º Curso Intensivo de Futuros, Opções e Derivativos ocorrerá nos dias 25, 26 e 27 de setembro de 2012, na cidade de São Paulo.

A Archer Consulting está de endereço e telefones novos: Alameda Santos, 455 conjunto 712, fones 55-11-2589-0119 e 259-0166.
Fonte:
Archer Consulting

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