Mercado de açúcar: SEM HUMOR

Publicado em 30/09/2012 08:03 e atualizado em 01/10/2012 08:17 515 exibições
por Arnaldo Luis Correa
O mercado de açúcar em NY fechou a semana levemente em alta, com variações entre 12 e 25 pontos, ou próximas de 3 a 8 dólares por tonelada. O vencimento outubro em NY expirou a 19,58 centavos de dólar por libra-peso e se despediu com uma entrega física de quase 600.000 toneladas, 94% das quais do Centro Sul e o saldo da Argentina. O principal entregador foi um produtor. Sinal de que o físico anda mesmo muito desanimado. Produtor só entrega na bolsa como última alternativa. No geral, foi uma entrega sem emoções, quase um não-evento.

O mercado até que ensaiou uma reação vigorosa ao longo da semana tentando buscar os 21 centavos de dólar por libra-peso, mas o cenário macro acabou transformando a performance em horrorosa, revertendo as altas e despencando de cabeça até a vizinhança dos 20 centavos de dólar por libra-peso. Parece-me que estamos fadados a esse intervalo de preços insosso até que alguma coisa mude. E não parece haver nada no horizonte que mude esse estado de humor.

Gestores de fundos, traders, executivos da área comercial, não apenas do açúcar, mas de todas as commodities em geral, todos ficam perplexos com a dificuldade que se tem hoje - desde que a crise de 2008 se instalou – de se construir um planejamento consistente e coerente. O cenário macro exerce imensa força sobre as commodities e o processo decisório está mais randômico como nunca. Vale mais a pena jogar dados para decidir.

Muitas usinas se viram ao longo desse mês com necessidade premente de caixa para atender aos financiamentos cujos vencimentos se concentram agora no último trimestre do ano. Por essa razão, acabaram pressionando os mercados de etanol e de açúcar internamente. O açúcar no mercado interno (índice ESALQ) negocia no valor mais baixo do ano. Do final de julho para cá os preços em reais caíram 21%. No mesmo período, o açúcar em NY encolheu 13%.

Com os preços de fechamento dos mercados na sexta-feira, uma usina que tenha o mesmo mix de produção do Centro Sul tem zero de margem por tonelada de cana moída. Isso sem contar com o custo financeiro que faria com que a margem negativa pulasse para quase 9%. Hidratado, obviamente, lidera a lista. 

Os números divulgados por alguns produtores da safra de cana no Centro Sul para o ano que vem, em torno de 580 milhões de toneladas, apesar do investimento que foi feito pelas empresas mais capitalizadas na renovação dos canaviais, parecem exagerados. Pela renovação que pudemos acompanhar nesse ano, embora ressaltando que ainda tem muita água para rolar debaixo da ponte, um número mais realista seria de 560 milhões de toneladas para 2013/2014. A menos que se queira fazer chegar ao governo que o setor terá cana suficiente para atender ao eventual acréscimo de anidro na mistura com a gasolina. Aí sim.

O mercado espera o retorno da mistura de anidro na gasolina na proporção de 25% a partir da safra 2013/2014. No modelo desenvolvido pela Archer Consulting, que leva em consideração o aumento da venda de veículos leves estimada para o próximo ano entre 2-3% e uma frota composta por 19 milhões de veículos flex, 14 milhões de veículos a gasolina e mais de 10 milhões de motocicletas, o aumento na mistura representa um consumo adicional de 2,09 bilhões de litros na 2013/2014, necessitando para atender a essa demanda adicional 26 milhões de toneladas de cana.

O ex-ministro Delfim Netto declarou na semana que a única saída para o etanol (leia-se: o retorno do investimento) é o aumento do preço da gasolina. Pegando carona no que o ministro falou, se o etanol voltasse a ser competitivo (via aumento da gasolina) e passássemos dos atuais 37% de consumidores de etanol proprietários de veículos flex para apenas 45%, então teríamos um aumento líquido no consumo de etanol (mais hidratado usado no flex menos a gasolina que possui anidro) de 1,5 bilhão de litros além da economia de 1,8 bilhão de litros de gasolina que deixariam de ser importados e que hoje continuam sangrando o fluxo de caixa da estatal do petróleo.

Na média do ano, o açúcar para o mercado de exportação liquidou a R$ 43,0838 por saca, posto usina. O preço mais baixo em reais ocorreu em 6 de setembro (R$ 38,1645). A média do açúcar para o mercado interno (pegando ESALQ) foi R$ 4,30 por saca melhor no mesmo período.

A volatilidade das calls (opções de compra) fora do dinheiro está mais alta do que a volatilidade das puts (opções de venda) fora do dinheiro. O mercado está pagando mais para se proteger na alta do que na baixa.

O custo de produção do açúcar apurado pelo modelo da Archer Consulting, considerando o CONSECANA médio da safra e o dólar médio dos últimos 30 dias, está em 36,8815 reais por saca na usina, sem custo financeiro.

Mudando de açúcar para política: tirando a tola rivalidade futebolística, grande parte dos brasileiros da minha geração sempre nutriu grande admiração pela Argentina, em especial pelo nível cultural do seu povo, pela música, pela comida e estilo de vida dos nossos irmãos do Sul. O que a presidente Kirchner está fazendo com o país é de se lamentar. Quando será que a América Latina vai se livrar desses políticos infames?

Tenham todos uma excelente semana

Arnaldo Luiz Corrêa
Fonte:
Archer Consulting

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