O Deus Pan - Comentário Semanal do Açúcar

Publicado em 21/03/2011 09:58 602 exibições
Comentário Semanal – de 14 a 18 de março de 2011

O mercado de açúcar em NY viveu uma semana de quedas acentuadas decorrentes do derretimento das commodities na esteira dos acontecimentos no Japão. O vencimento maio chegou a negociar 25,47 centavos de dólar por libra-peso, uma queda de quase 18% em relação à máxima da semana anterior, mas acabou encerrando a semana com queda de 26 dólares por tonelada, cotado a 27,66 centavos de dólar por libra-peso. Os vencimentos julho, outubro e março fecharam com quedas mais modestas entre 15 e 23 dólares por tonelada. Os vencimentos de outubro de 2012 em diante fecharam com pequena alta.

Como sempre ocorre em mercados nervosos, sai-se melhor quem tem sangue gelado e não se deixa levar pela avalanche de notícias nem sempre fiéis. As quedas na semana passada foram aproveitadas por algumas usinas que recompraram parte de suas fixações da 2011/2012 e pelas indústrias que fixaram o preço da matéria prima ao longo da curva. Da mesma forma, quem fixou etanol usando NY está rindo a caminho do banco.

Os antigos gregos acreditavam que o deus Pan, que possuía chifres e pé de bode, se escondia em lugares solitários e aparecia de repente apavorando camponeses e pastores, sem nenhum motivo. A palavra pânico tem daí a sua origem: “o terror causado pelo deus Pan”. Em vez de camponeses e pastores as vitimas hoje são os produtores, traders, comerciantes e investidores.

Os pânicos nos mercados existem desde que os mercados existem. Por definição, considera-se pânico quando ocorre um súbito medo generalizado de que a vaca esteja indo irremediável e rapidamente para o brejo ou, em economês, o pavor da iminência de um colapso econômico ou financeiro que leve a liquidação de posições compradas, saques de fundos ou de ações em queda, entre outras coisas. Quando o pânico entra pela porta da sala de operações, os traders se jogam pela janela. Geralmente é assim. E foi mais ou menos isso que ocorreu essa semana no mercado de açúcar.

Evidente que o problema terrível vivido pelo Japão amedronta qualquer investidor. Mas, num determinado momento, para quem acompanhou o mercado de perto, viu-se o Índice NIKKEI ter uma desvalorização desde o tsunami em menor intensidade do que a do açúcar. Isso faz algum sentido? Na hora do pânico entra em ação o efeito manada e os fundos liquidam agressivamente as posições que ainda lhes apresenta lucro para poderem diminuir as perdas incorridas nos demais mercados. E nessa hora o irracional domina e os fundamentos passam a ser secundários. Uma curiosidade: no acumulado do ano, o açúcar caiu 13,8%, o índice NIKKEI 9,9%.

As estimativas de modelos desenvolvidos pela Archer Consulting mostram que o Brasil deverá exportar 32 milhões de toneladas de açúcar daqui a 6 anos. O consumo interno de açúcar deverá atingir 14 milhões de toneladas, enquanto o consumo de etanol anidro e hidratado deve se aproximar dos 55 bilhões de litros. Sem contar o consumo de outros fins e da eventual exportação residual de etanol, a conversão desse potencial nos mostra a necessidade de um esmagamento de cana beirando um bilhão de toneladas. Ou seja, o setor precisa crescer 60% em seis anos. Mesmo que o percentual de veículos flex que utilizam etanol caia dos atuais 62% para – digamos – 40%, ainda assim, vamos precisar de 900 milhões de toneladas de cana para fechar a conta, ou seja, ao invés de crescer 60% vamos precisar crescer “apenas” 45%. As refinarias terão que disponibilizar ao mercado brasileiro 8 bilhões de litros adicionais de gasolina para atender a essa substituição. Não importa em que direção se olhe, é muito difícil ser pessimista neste setor. Pelo menos no longo prazo. No curto vamos indo ao sabor de Pan.

Um analista de um banco sugeriu que o terremoto/tsunami no Japão vai afetar o consumo de alimentos no continente com reflexos na Oceania, ou seja, as pessoas não vão comer mais e jejuar pela paz universal. Papel aceita qualquer coisa.

Neste final de semana o Brasil recebe a visita do casal Obama. Embora o presidente americano goze de menor prestigio em seu país do que fora, é fato que os brasileiros nunca tiveram tanta simpatia e admiração por um presidente americano desde JFK. O clima favorável a Obama, que tem um quê de brasilidade percebida pelo povão, pode ajudar a melhorar as relações entre os dois países, deteriorada pela mediocridade com a qual Lula a tratou, adulando ditadores da pior espécie, prejudicando a visão do Brasil junto ao congresso americano, pelo seu vexatório apoio ao Irã, que em nada ajudou o país na suspensão da tarifa de importação do etanol, apenas para citar um caso.

No Fundo Fictício da Archer Consulting tivemos que vender 250 lotes no maio, para zerar o delta, ao nível de 28,30 centavos de dólar por libra-peso. Ainda assim, devido ao enorme time value diário, acabamos ganhando US$ 78.568,72 na semana, elevando o ganho acumulado para US$ 5.038.263,49, com rendimento anualizado de 125,88% em 806 dias de existência. A nossa posição, no entanto está em 199 lotem comprados no delta e vamos zerar se o mercado bater 27,40 no maio.

Tenham todos uma excelente semana.

Arnaldo Luiz Corrêa


 

Fonte:
Archer Consulting

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