Mercado de café: SÓ CÃES RAIVOSOS E HOMENS BRITÂNICOS

Publicado em 19/04/2014 19:46 e atualizado em 21/04/2014 10:44 1071 exibições
por Rodrigo Corrêa da Costa, que escreve este relatório sobre café semanalmente como colaborador da Archer Consulting

O crescimento anualizado do PIB chinês no primeiro trimestre do ano ficou em 7.4%, 0.1% acima do estimado, e abaixo dos 7.7% dos últimos três meses de 2013. O dinheiro em circulação no país também tem caído, e estes soluços na economia da China contribuem para a volatilidade dos mercados emergentes.

Um acordo entre a Rússia e a Ucrânia, intermediado pelos Estados Unidos e Europa, devem momentaneamente acalmar investidores e prover algum suporte às bolsas da região – que têm performado negativamente. Os mercados acionários japonês e americano fecharam em alta nos últimos cinco dias, o primeiro ainda gerando dúvidas quanto a sustentação, e o último impulsionado por indicadores econômicos e resultados de empresas mais animadores.

As commodities também encerraram com ganhos nos últimos cinco dias, tendo o trigo, a soja, o níquel, e as matérias-primas energéticas como destaques de alta.

O café em Nova Iorque começou a curta semana-santa com leve alta, para na terça-feira desmoronar US$ 12.13 centavos por libra, depois cair outros US$ 6.20 centavos na quarta-feira, e então recuperar US$ 15.25 centavos na quinta-feira. Ou seja, os preços desde o último comentário estão praticamente nos mesmos patamares.

Os volumes de negociação não foram compatíveis com as oscilações diárias (desconsiderando os spreads), e mais uma vez a ausência de vendas de comerciais e a participação de compras de qualidade forçaram os especuladores de curto prazo a cobrirem suas teimosas tentativas de pressionar os preços.

A bolsa por enquanto não incrementou as margens, e não deve fazer se o intervalo de negociação de um dia ficar dentro de US$ 20 centavos por libra-peso. Quem tem hedge com futuros se preocupa, motivo que tem causado o incremento da utilização dos mercados de opções. A volatilidade implícita permanece entre os 52% e 56% (para os strikes at-the-money), mas certamente um movimento acima de US$ 220.00 centavos causará correria e um novo aumento do “time-value”.

No mercado físico os diferenciais que tinham cedido voltaram a subir, inclusive para o robusta do Vietnã.
Por sinal as exportações do mês de março, declaradas pela Aduana vietnamita, totalizaram 4.64 milhões de sacas, um recorde mundial batendo inclusive o melhor mês do Brasil. Paira a dúvida se este é o volume de fato exportado, dado que aparentemente deveria ser de 2.92 milhões de sacas, estando o saldo em zona-livre, já desembaraçada mas não a bordo de embarcações. Independentemente, os números corroboram para o argumento de que veremos um volume crescente de embarques, transferindo assim estoques das origens para os destinos.

A OIC fez um comentário de que o ano safra 14/15 terá um déficit de produção, mencionando que a seca deste ano no Brasil pode ter perdas piores do que as da geada de 1975. Considerando o volume absoluto da quebra, de fato é possível, e não há dúvidas que o alerta ajudou a retrair vendas e atrair compras futuras.

Em conversas e trocas de e-mails que sempre tenho com colaboradores que estão no campo do Brasil, continuo ouvindo e lendo as mais diversas opiniões sobre o estado da lavoura e o potencial de produção das próximas duas safras. Muitos destes, inclusive alguns que são produtores, permanecem em dúvida e são prudentes em quantificar as perdas atuais e o potencial para o próximo ciclo. Não é incomum eu ouvir que as perdas de 30% estão concentradas apenas no Sul de Minas, enquanto nas outras regiões o percentual afetado não deve ultrapassar os 10%.

Claro que tem também os que falam que 40% de toda a produção do arábica brasileiro foi perdida, o que não significa, necessariamente, que estão exagerando. Percebo, entretanto, que estas opiniões são mais frequentes daqueles que estão situados nas áreas mais danificadas.

Na prática o quadro de tão diversas análises dá suporte para os preços do mercado futuro, e depois da firmeza do real, e da redistribuição de aplicações dos recursos de investidores, tudo indica que finalmente veremos o “C” acima dos US$ 220 centavos. Acontecendo isto com a mesma velocidade e dimensão de terça e quinta-feira passada, um novo choque de liquidez pode provocar um novo banho de sangue, e a irracionalidade pode então dominar o cenário (já não está?).

Como me disse um amigo americano: “only mad dogs and englishmen are trading this market”, que em tradução livre quer dizer: “apenas os cães raivosos e homens britânicos estão operando este mercado”.

Apresentem seus passaportes.

Bom feriado e muito bons negócios durante a semana.
Rodrigo Costa*

Fonte:
Archer Consulting

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