Exportar ou vender café na BM&F?

Publicado em 23/08/2010 08:34 e atualizado em 04/03/2020 12:39 2248 exibições
O PIB da China no 2º trimestre do ano foi maior do que o do Japão, colocando o país como a 2ª maior economia do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos.

 Os juros dos títulos de 30 anos da dívida da Alemanha atingiram o menor nível da história, 2.888% ao ano, e os juros dos títulos americanos continuam baixando, dada a demanda aquecida para investimentos mais seguros. Os investidores que perderam uma boa parte de suas economias na crise que começou em 2007 e principalmente aqueles que estão mais próximos da aposentadoria, não querem arriscar suas poupanças e como há mais dúvidas do que prognósticos confiáveis, a alternativa é garantir o principal ainda que o custo seja a baixa rentabilidade. Claro que os bancos também contribuem para o que está acontecendo, dado o carry que dá lucro fácil, pois tomam dinheiro praticamente a custo zero. Como resultado da demanda aquecida por títulos governamentais, o índice global de bonds soberanos retornou neste ano 5.7%, enquanto o índice global de ações tem um resultado de 2.4% negativo até agora.

 As bolsas e os índices de commodities fecharam a semana com queda próximo de 1%, sendo que o dólar americano firmou levemente contra o Euro, e caiu um pouco contra o Real.

 O destaque da semana foi mais uma vez o café, com a alta de US$9.85 por saca em Nova Iorque, de módicos US$ 1.38 de ganhos em Londres, e o do surpreendente rally de US$ 15.45 por saca na bolsa de São Paulo.

 O robusta na LIFFE ficou para trás em função da desvalorização da moeda vietnamita em 2% e da maior oferta disponível para esta qualidade de café. Já o C na ICE encontrou suporte por parte da indústria, que não teve outra alternativa a não ser fixar o que precisava contra o contrato de setembro, que a partir de segunda-feira dia 23 entra no período de entrega. Como os preços do terminal não têm dado oportunidades de compra a níveis mais baixos, a indústria inclusive aproveitou para comprar alguns contratos de dezembro. A venda por parte de origens continua muito limitada com a falta de produto na América Central e Colômbia. No Brasil os produtores tem a BM&F como melhor comprador do que as bolsas internacionais. Junta-se ao cenário um pouco mais de compra de fundos e especuladores, e com isso o café em Nova Iorque negociou no nível mais alto desde dezembro de 1997, com a nova alta provocando estresse no fluxo de caixa dos menos capitalizados.

 Vamos focar um pouco no que está acontecendo na bolsa de São Paulo. O contrato de setembro do café arábica sofreu o squeeze que tanto se falava, em plena safra grande brasileira. As altas sequenciais e quase que ininterruptas do café em Nova Iorque permitiram que os produtores brasileiros fossem vendendo seus cafés a preços cada vez mais elevados no mercado físico. Porém parece que alguns venderam um pouco mais, só que via contratos futuros na BM&F , crendo que a bolsa fosse devolver os ganhos e que recomprariam as posições. Outros especuladores também tinham contratos vendidos, entretanto como o mercado continuou firme, não só as chamadas de margens de variação foi machucando, mas também a margem de garantia subiu muito desde o começo do rally. De 10 de junho à última quinta-feira o valor passou de R$ 1,600.00 para R$ 3,900.00 por contrato. Com a proximidade do começo do período de entrega de setembro na BM&F, e os canudos (estoque certificados) representando um pouco mais d  e 100 contratos contra um número de contratos em aberto grande (próximo a 10 mil lotes), aqueles que não podem ou não querem entregar tem que liquidar os seus vendidos no setembro, ou rolá-los para dezembro, o que de toda maneira provoca um fortalecimento do spread. Na sexta-feira o setembro fechou a US$ 224.65 a saca, e o dezembro a US$ 216.45 a saca, US$ 8.20 por saca de prêmio do primeiro mês contra o segundo, (mais uma vez) em plena a colheita de uma supersafra!

 Ainda há tempo de entregar contra o contrato de setembro, que segundo as regras permite a certificação até 10 dias antes do último dia de negociação da tela. Para aqueles que estão leves, ou seja que tem pouca posição, a oportunidade de receber quase R$ 400.00 por saca, para um café tipo 4/5, good cup, que em diferencial contra Nova Iorque representa US$ 12.00 centavos de desconto é interessantíssima. Ainda mais se considerarmos que nesta semana alguns exportadores venderam um café similar no FOB a US$ 28 centavos abaixo, nada menos do que US$ 16 centavos por libra, ou  US$21.17 por saca mais barato!!

 O risco para ganhar este dinheirão é gerenciar o fluxo de caixa entre o momento da venda do futuro até a entrega do contrato.

 O fechamento da semana pode colocar ainda mais lenha na fogueira, e portanto voltamos a viver a tensão do imponderável. A Colômbia ainda tem um mês para começar a colheita, e a Guatemala e os outros países produtores de arábica não devem tem produto para vender por mais uns dois meses. Até lá temos que monitorar se pára de chover na América Central e Colômbia, e se começa a chover no Brasil. O mercado futuro está extremamente leve, com pouquíssimo volume negociado tirando os spreads. Tecnicamente fundos podem se animar para comprar mais, porém uma liquidação de parte de sua posição comprada poderia agora encontrar um vácuo, dado o começo do período de notificação.

 O comportamento do spread setembro/dezembro na ICE foi negativo, com o desconto negociando a quase US$ 3.00 centavos por libra, assim como também é negativo a firmeza do dólar americano e o tamanho da posição dos fundos. De positivo temos os diferenciais nominalmente firmes, falta de café novo suave, e (por enquanto) os spread da BM&F.

 A análise do mercado está difícil, e a situação é inusitada, portanto é fazer conta na ponta do lápis, ter atenção redobrada no fluxo de caixa, e aproveitar as oportunidades o máximo que puder.

Fonte:
Archer Consulting

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