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Milho Bt: Desafios da Tecnologia

Publicado em 22/03/2013 16:12 e atualizado em 28/02/2020 16:32 1740 exibições
José Fernando Jurca Grigolli, engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa, mestre em agronomia - produção vegetal - pela UNESP, o doutor em andamento em agronomia (entomologia agrícola) também pela UNESP. Na Fundação MS, ocupa o cargo de pesquisador de fitossanidade.
Desde a liberação do uso de plantas geneticamente modificadas no Brasil, os agricultores utilizam esta tecnologia ano a ano. As plantas modificadas com genes de Bacillus thuringiensis (plantas Bt) possuem genes cry que codificam proteínas Cry, letais para alguns insetos, como lagartas de lepidópteros. Com a ingestão destas toxinas, várias espécies de lagartas morrem sem a necessidade da aplicação de inseticidas.

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Para que haja o controle destas pragas, é necessário que estas se alimentem da toxina. Após sua ingestão, há um complexo processo até sua morte. Inicialmente ocorre a ativação da protoxina no intestino do inseto em sua forma ativa, o que depende de pH alcalino (meio básico). A proteína ativa se liga ao seu receptor específico nas células do intestino médio do inseto, acarretando a formação de poros ou perfurações e ruptura das células, culminando com a morte do inseto por infecção generalizada. As lagartas mortas ficam moles, enegrecidas e não há ruptura de seu tegumento.

Como podem observar, o modo de ação da toxina é pH dependente. Assim, algumas espécies de lagartas não são facilmente atingidas por estas toxinas. As lagartas do gênero Spodoptera spp. possuem um pH do trato digestivo relativamente mais ácido do que de outras lagartas, o que dificulta seu controle com estas toxinas Cry. Assim, a primeira decisão que deve ser tomada é qual a tecnologia que será utilizada na área. Para isso, é necessário o conhecimento das principais pragas e dos materiais de milho adaptados para a região.

A rotação de tecnologias disponíveis no mercado também é fundamental no manejo de pragas controladas pelas plantas Bt. Os produtores precisam entender que o uso de plantas com a tecnologia Bt é como se houvesse a aplicação constante de um inseticida na lavoura. Se pensarmos que este produto está em contato com as pragas 24 horas por dia durante todo o ciclo da cultura, dá para ter ideia do tamanho da pressão de seleção que estamos exercendo sobre as pragas. O uso continuado do mesmo material, com o mesmo gene Bt, possibilita uma evolução da resistência da população daquele local. A partir daí, será possível observar surtos cada vez maiores de pragas antes controladas por determinada tecnologia. O ideal é fazer o rodízio de genes Bt, pois cada toxina atua em um receptor específico no inseto e, com sua rotação de uso, dificulta o aparecimento de populações resistentes a esta tecnologia.

Outro aspecto fundamental é o plantio de áreas de refúgio. Estas áreas devem ser cultivadas com milho convencional. Com isso, haverá a reprodução entre indivíduos da área de refúgio (insetos que não estão em contato com a toxina) e indivíduos da área cultivada com plantas Bt. O resultado deste cruzamento reduzirá a porcentagem de eventuais insetos resistentes na população. Com isso, o controle da praga será garantido e a tecnologia poderá ser utilizada em outros anos agrícolas. É importante salientar que esta deve ser uma estratégia adotada por todos os produtores. Não adianta alguns produtores plantarem a área de refúgio e os outros não, principalmente os vizinhos.

As plantas Bt são eficientes no controle de pragas, e não há casos de resistência de insetos tecnicamente confirmados no Brasil. No entanto, o uso desta tecnologia requer o seu correto posicionamento, levando em consideração os cuidados citados acima. Com isso, cada um dos eventos da tecnologia Bt terá uma vida útil maior e sua eficiência assegurada. 
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Fonte:
Fundação MS

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